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No meio do caminho tinha alguém: era uma pedra. por Jose Arenas Gómez

Quando adultos, esquecemos da nossa infância e da importância de ser criança. Parece-me que, quando somos profissionais, esquecemos ainda mais daquela época de descobertas. Ora, não nos damos conta de que, justamente como antropólogas e antropólogos, voltamos a ser crianças. Sempre me sentirei uma criança: explorando, perguntando e errando muito… aprendendo. Lembro-me vivamente das minhas primeiras palavras e o riso das pessoas ao redor do fogão central da casa quando eu tentava acertar a frase “muito obrigado, está delicioso! Posso comer mais?”. Sempre me sentirei como uma criança, com desejos de voltar a ver os picos cheios de neve da montanha litoral mais alta do mundo. Anseios de me envolver nas longas caminhadas das pessoas i'ku (arhuacos), indígenas que moram na Sierra Nevada de Santa Marta (Caribe Colombiano).

Acompanhadas do cheiro do mar, ou da fumaça do fogão no frio dos mais de 3.500 metros de altitude, as crianças i'ku aprendem a vida e se iniciam no manejo das pedras. Não apenas por sempre estarem presentes nas múltiplas paisagens locais, as pedras são de grande importância no mundo serrano, sendo usadas na construção das muralhas, na feitura da base das casas, na construção de pontes e delimitação de roças. As pedras também são empregadas na demarcação dos lugares primordiais (que poderíamos traduzir parcialmente como lugares sagrados), onde xamãs se comunicam com seres não visíveis para definir o curso do mundo. Além disso, as pedras, ou pelo menos muitas delas, são pessoas de uma humanidade antiga, do tempo em que o sol ainda não estava no alto do céu.

No alto da Sierra, as lagoas glaciares são mães, origem do mundo. Também são moradas dos seres invisíveis mais importantes e portais para os outros mundos, aqueles das pessoas-pedra.
Os núcleos familiares estão espalhados pelo território, sem conformarem aldeias, no sentido estrito da palavra. Se uma horta do lado de casa não tem todos os produtos, o restante será obtido de outras hortas, em diferentes alturas da montanha.
Após uma longa e íngreme descida, as crianças tomam um pouco de sol antes de entrar nas águas do rio, que desce direto do degelo dos picos nevados. Sempre sorrindo e com curiosidade sobre quem as fotografa, elas não deixam de realizar as tarefas diárias.
As pedras são pessoas do tempo da escuridão. Por isso, é importante ter a permissão do xamã para retirá-las do leito do rio.
Treina-se o corpo, a força e as capacidades. Aprende-se o que e onde procurar.
A coleta das pedras costuma ser feita enquanto o sol está no seu caminho ascendente. Fazê-lo em outros momentos, pode trazer consequências indesejáveis, que afetam a relação com os seres não visíveis.
Tecer mochilas e colares de miçanga ou sementes são atividades das mulheres, começando desde bem jovens. As cores e os materiais escolhidos não são aleatórios, pois fazem parte de um conjunto mais extenso de relações que vinculam cada pessoa com os seres não visíveis.
As pedras também são fundamentais enquanto dispositivos de comunicação com os seres não visíveis. Xamãs e crianças aprendizes sempre se reúnem nos lugares primordiais para realizar as oferendas. São esses atos os responsáveis por manter o equilíbrio das relações entre os diferentes seres dos mundos.

Ciclo de Ensaios Fotográficos

O ensaio exposto é um dos 13 trabalhos selecionados em 2020 para o Ciclo de Ensaios Fotográficos promovido pelo IRIS - Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais.

Através de oficinas, ciclos de mostras, apoio a projetos de pesquisas, atividades de ensino e empréstimo de equipamentos a professores, pesquisadores e estudantes vinculados ao Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, o IRIS estimula a capacitação e a produção de conhecimento acerca da relação entre a prática antropológica e o uso da linguagem audiovisual e fotográfica em várias dimensões.

Se você faz parte da comunidade do DAN e deseja empregar os recursos técnicos e a linguagem fotográfica ou audiovisual em sua pesquisa, venha nos conhecer.

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