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Tem vez que o cristal anda por Júlia Tossin & José Procópio

O garimpo de cristal de quartzo movimentou a Chapada dos Veadeiros do início à metade do século XX. Com a queda do quartzo natural, muitos deixaram os garimpos. Aqueles que ficaram se perpetuaram pelas corrutelas, vilas garimpeiras, e continuaram garimpando. Nossa pesquisa buscou conhecer mais sobre esse povo garimpeiro, através de seus saberes e técnicas. Nessa busca encontramos Seu Dedé, um antigo garimpeiro, filho de garimpeiros, raizeiro, músico, contador de histórias e, atualmente, guia turístico.

Nascido na década de 1950, à beira da cachoeira do Vale da Lua, Seu Dedé garimpa desde os doze anos de idade, aprendendo principalmente com sua mãe a arte de garimpar. Vivenciou a criação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que proibiu a extração mineral e transformou o modo de vida local. Com seus 63 anos, Seu Dedé nos contou a história do garimpo, sobre como caçar veios de cristal e andar pelos morros seguindo pelas trilhas de antigos garimpeiros. Também nos ensinou sobre o cristal, suas formas, cores e ações. Com Seu Dedé aprendemos que os cristais se movem pelo chão, somem, enganam, matam. O cristal é mais do que um minério: é um agente que se relaciona com os garimpeiros.

Este ensaio é parte do material visual produzido ao longo do ano de 2019, resultado da pesquisa colaborativa entre a graduada em antropologia Júlia Tossin e o graduando em audiovisual José Procópio. Nele, buscamos apresentar parte do trabalho de garimpeiros, passando da busca à lapidação dos cristais. As legendas são transcrições de conversas gravadas durante caminhadas que fizemos com a companhia de Seu Dedé. Mais do que explicações, os trechos selecionados visam transpor os espectadores do ensaio para esse lugar de aprendizagem vivenciado por nós, tentando aproximá-los ao máximo da nossa própria experiência.

“Por aqui tudo a gente andava caçando cristal, com ferramenta nas costas, uma vasilha de água e uma matulinha”
“O garimpo é assim, tem lugar que ele dá cristal na baixada, noutro lugar ele dá na serra, em cima”
“Ó o garimpo ó, o tamanho que furavam, tá vendo, ó o buracão. Já criou até madeira dentro, de tão velho. Isso aqui tem mais ou menos uns trinta anos que furaram”
“Pra minério nenhum você pode ter olho grande. Nem cristal, nem ouro. Você pode tá na maior jazida, se a pessoa chega lá com o olho grande, some. O cristal some, vai embora, some na hora, você não vê mais o cristal. Cristal não gosta muito de ozura”
“Quando uma pessoa tirava cristal, uma pedra muito grande dava o nome de bamburro. Bamburro, conforme o nome popular é ficar rico”
“Ficar encantado acontece porque os cristais são tão bonitos, tão bonito, que eles ficavam tudo maravilhado com o cristal, que ficava com dó de vender. Quando o cristal era bonito, bem arrumado, bem ajeitado, ficava encantado. Eu mesmo tinha cristal que eu ficava com dó quando eu tirava”
“Tirava lasca do garimpo pra levar pra casa, chegava lá a gente não tinha nem condição de comprar um lampião, aí pegava fazia com rolo e cera de abelha. Aí bota o candieiro pregado no pau, e vai fazendo a lasca, vendo se tinha defeito na luz. Batendo, olhava, se tinha um defeito nós tirava”
“E aqui tem que concentrar, pra não acertar o dedo. Já perdi a unha, já sangrei a mão. Mas dói, só que não é remoso não. A gente ficava fazendo lasca. Trabalho custoso”

Ciclo de Ensaios Fotográficos

O ensaio exposto é um dos 13 trabalhos selecionados em 2020 para o Ciclo de Ensaios Fotográficos promovido pelo IRIS - Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais.

Através de oficinas, ciclos de mostras, apoio a projetos de pesquisas, atividades de ensino e empréstimo de equipamentos a professores, pesquisadores e estudantes vinculados ao Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, o IRIS estimula a capacitação e a produção de conhecimento acerca da relação entre a prática antropológica e o uso da linguagem audiovisual e fotográfica em várias dimensões.

Se você faz parte da comunidade do DAN e deseja empregar os recursos técnicos e a linguagem fotográfica ou audiovisual em sua pesquisa, venha nos conhecer.

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Ficha Técnica

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