No período do pós-abolição (1888 a 2019), centenas de comunidades negras rurais foram expulsas de suas terras tradicionais e/ou as tiveram invadidas. No que tange às configurações de exploração e ocupação da terra, este processo está ligado a formas coloniais de dominação. Vários indivíduos e chefes de família foram ameaçados e assassinados por lutarem pela efetivação do que tenho chamado de “projeto camponês”. Em outras palavras, por buscarem acesso à terra e nela trabalhar para a reprodução física e social de suas famílias.
Com o intuito de efetivar o “projeto camponês”, a comunidade quilombola Santa Maria dos Pretos, localizada no município de Itapecuru-Mirim/MA, reivindica suas terras há mais de 180 anos. Segundo os quilombolas, seus antepassados receberam as terras como compensação pelo uso de sua mão de obra escravizada, não como doação ou um ato de bondade da antiga proprietária. Desde a libertação dos escravizados, em 1888, até o momento, seus descendentes resistem e lutam para permanecerem em suas terras.
Apesar de no ano de 2014 terem sido regularizados 607 hectares, os quilombolas seguem na luta pela conclusão do processo de regularização de seu território, pois cerca de 6.000 hectares ainda não foram titulados.
As fotografias que compõem o ensaio retratam olhares de desconfiança, carência de esperança, alegria, dúvidas e inocência. Olhares que descrevem a luta de uma comunidade no longo processo de titulação de suas terras.
Ciclo de Ensaios Fotográficos
O ensaio exposto é um dos 13 trabalhos selecionados em 2020 para o Ciclo de Ensaios Fotográficos promovido pelo IRIS - Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais.
Através de oficinas, ciclos de mostras, apoio a projetos de pesquisas, atividades de ensino e empréstimo de equipamentos a professores, pesquisadores e estudantes vinculados ao Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, o IRIS estimula a capacitação e a produção de conhecimento acerca da relação entre a prática antropológica e o uso da linguagem audiovisual e fotográfica em várias dimensões.
Se você faz parte da comunidade do DAN e deseja empregar os recursos técnicos e a linguagem fotográfica ou audiovisual em sua pesquisa, venha nos conhecer.