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A Fuga na Leitura

Lembro-me de ser pequenina, três ou quatro anos, e de me deitar na cama com a minha mãe, com um livro para crianças. Ainda não sabia ler, mas gostava de imitá-la. Mais tarde, perdi esse hábito e, na verdade, só me dediquei à leitura após o divórcio dos meus pais.

Quando eu tinha nove anos, minha mãe saiu de casa. Tendo um restaurante, não achou que teria condições de criar a mim e à minha irmã de três anos, por isso nos deixou com o meu pai, no entanto, ele, que sempre admirei, sofreu uma das doenças modernas, a depressão, não se interessava por nada, nem por ninguém, fazendo o seu trabalho porque tinha contas a pagar, desligando-se dos bombeiros voluntários, algo que sempre amou fazer, e de nós duas, suas filhas, a quem tão pouco tempo atrás dava amor, carinho e brincava com alegria. Tornou-se uma pessoa triste e, apesar de termos uma avó que cuidava de nós enquanto ele estava a trabalhar, assim que chegávamos em casa e aos fins de semana éramos só nós três. O pior disso tudo foi ter se esquecido das nossas necessidades enquanto filhas, e não estou a falar de bens materiais, que esses nunca nos faltaram, mas de brincadeiras, de conversas, de amor.

"Nos deixou com o meu pai, no entanto, ele, que sempre admirei, sofreu uma das doenças modernas, a depressão, não se interessava por nada, nem por ninguém."

Isso fez com que, basicamente, eu tivesse que criar a minha irmã. E o que sabe uma menina de nove anos sobre criar uma criança de três? Fiz muita asneira, sou sincera nesse aspecto, cheguei mesmo a ser mazinha nos primeiros tempos, mas isso faz parte da irmandade, e na construção de um elo com a minha irmã, que sei que nunca irá desaparecer, chegou ao ponto de, alguns anos depois, ela me chamar de “mamã”, mais para implicar comigo do que qualquer coisa, ou de, ao lado dos meus pais, me pedir permissão para alguma coisa.

Como se não fosse suficiente ter que lidar com um divórcio, um pai depressivo e a criação de uma irmã, quando entrei para o quinto ano, comecei a sofrer de bullying psicológico, sendo que não me vestia com jeito, era gorda, usava óculos e, acima de tudo, era mais inteligente que os meus colegas. Sei que com tudo o que acontecia comigo, nessa altura, teria sido um caminho muito fácil, um passo só, na direcção errada, para que me entregasse às drogas ou ao álcool, como forma de escapar. Havia outra forma de escapar de vez, que, tenho que admitir, sinto vergonha de dizer que considerei o suicídio, esta última nunca o fiz por causa da minha irmã, o meu senso de protecção para com ela era maior que todo o resto. As outras formas de escapar poderiam me ter levado por outros caminhos negros, no entanto encontrei a solução quando entrei na biblioteca da escola e conheci a secção de fantasia, que apelava a mim com todas as suas capas coloridas e oscurecidas, com títulos brilhantes e que suscitaram a curiosidade.

"As outras formas de escapar poderiam me ter levado por outros caminhos negros, no entanto encontrei a solução quando entrei na biblioteca da escola e conheci a secção de fantasia."
Biblioteca

Se não me engano, o livro que me abriu as portas foi Eragon, que me transportou por horas para Alagaësia, que me fez viver aventuras, com quem chorei e ri pela primeira vez. Cada momento que eu passava com o nariz enfiado nas suas páginas já tão folheadas me fazia esquecer de quem eu era para viver na pele do personagem, era um momento só meu e que ninguém roubaria, uma maneira de esquecer o mundo que me rodeava para viver uma aventura. A partir desse livro descobri mundos novos, vivia uma aventura por semana, na pele de uma personagem diferente. Divertia a minha irmã com brincadeiras relacionadas com as histórias dos livros que lia. Conseguia encontrar uma forma de ser livre mesmo estando a sofrer e ter que crescer mais depressa.

"Cada momento que eu passava com o nariz enfiado nas suas páginas já tão folheadas me fazia esquecer de quem eu era para viver na pele do personagem."

Foram os livros que me incutiram um código moral e de princípios, que hoje não se vê. Foram eles que me impediram de seguir por caminhos negros, ajudaram-me a superar fases negras como a noite, a entender como o mundo e as pessoas funcionam, que me ajudaram em testes e em cultura geral, que me deram a habilidade de usar a lógica para conectar tudo em meu redor. Por isso, por sentir que tenho uma dívida do tamanho do mundo para com os autores, que decidi escrever também, pode ser que um dia o meu livro possa ajudar alguém a escapar da sua realidade tenebrosa, assim como fizeram outros livros comigo.

Por Joana Luís, 23 anos.

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Dente-De-Leão Criação de Projetos Literários
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