Por Lara Mireny
Viver em situação de rua é uma circunstância fácil de ser observada na capital do Espírito Santo. Dados divulgados pela Prefeitura de Vitória no início de 2020, apontam que o município de Vitória conta com um total de 286 pessoas morando nas ruas, seis a mais do que em 2019. O aumento pode ter sido desencadeado por diversos motivos como o alcoolismo (5,4%), o desemprego (10,1%), o uso de drogas (17,3%) e a ausência de vínculos familiares (29,6%). Esta é a segunda reportagem multimídia da série "Olhares de Rua". Confira a primeira: A invisibilidade social, os preconceitos e as dificuldades do ser humano em situação de rua na cidade de Vitória.
De acordo com o sociólogo Anderson Cardozo, as pessoas que estão em situação de rua compõem, dominantemente, um grupo em condição de maior vulnerabilidade social. “O que inclui dependentes químicos, famílias/indivíduos que já não têm expectativas de ingresso no mercado de trabalho, dentre outras categorias”, informa.
O presidente do Grupo Ajude o Próximo (GAP), Kelvim Amaral, observa que grande parte daqueles que vivem nas ruas fazem o uso de álcool e drogas. Amaral amplia esse cenário e não se refere somente ao município de Vitória, mas também toda a região da Grande Vitória.
Para ilustrar o tamanho da situação, a pesquisa sobre População em situação de Rua da Região Metropolitana da Grande Vitória realizada em 2018, pelo Instituto Jones Santos Neves, mostra que dentre os principais fatores para a pessoa viver em situação de rua 29,6% equivale aos problemas familiares, 17,3% ao uso de drogas ilícitas, 10,1% a perda de emprego, 8,9% o alcoolismo, 5,4% falecimento de familiares, 3,5% por vontade própria, 2,8% separação, 2,6% problemas de saúde, 2,2% corresponde aos problemas psicológicos e 17,6% a outros motivos como problemas com a Justiça, documentação, cresceu na rua ou saiu da cadeia e não teve para onde ir.
Para sustentar o vício das drogas e do álcool, Amaral revela que alguns cometem pequenos furtos. E, por esse motivo, as pessoas sentem medo ao se aproximar do morador em situação de rua. Entretanto, ressalta que nem todos que estão nas ruas são bandidos. “Tem músicos, professores, psicólogos, dentre outras profissões. Por conta de algum fato marcante ou talvez doença, eles acabam indo viver nas ruas”, expõe.
O músico e ex-morador em situação de rua Elias Belmiro admite não conseguir obter respostas exatas sobre o porquê de ter ido morar nas ruas. Segundo ele, o álcool bem como outras drogas o ajudaram a fugir de uma realidade cheia de solidão. Contudo, a esperança por novas conquistas ficou cada vez mais distante e incerta. “O amanhã de um morador em situação de rua que se apossa e faz uso das substâncias que ajudam a ‘camuflar’ tal situação, torna-se, por assim dizer, apenas mais um amanhã”, pronuncia.
Os psicólogos Lígia Pimenta (CRP 16/4358) e Danilo Lemos (CRP 16/4356) analisaram que o uso do álcool tem um aumento expressivo no horário noturno para ajudar na regulação da temperatura corporal. E esse acréscimo está relacionado com o frio intenso das noites. “O uso abusivo de outras drogas, muitas vezes, é feito como tentativa de fuga da realidade, como qualquer ser humano domiciliado ou não”, indicam.
POLÍTICAS PÚBLICAS
O acúmulo de perdas da vida de uma pessoa é muito grande. Se nada for feito para ampará-la, o resultado é ver a rua como única saída. Apesar de ser papel do Estado implementar ações de apoio ao público em condição de vulnerabilidade social, o assistente social Mindu Zinek destaca a falta de eficiência das políticas públicas que deveriam ser efetuadas e desenvolvidas para resolver esse problema. “Enquanto não houver o que a gente cobra como intersetorialidade, ou seja, as secretarias dialogarem com o propósito de autonomia dessa população, as coisas não vão acontecer”, diz.
Ao conversar com os moradores em situação de rua de Vitória, Zinek conta que as maiores reclamações mencionadas são as que dizem respeito aos serviços destinados a eles. “Serviços que deveriam garantir o direito, garantir o acolhimento, garantir a autonomia dessa população. A política assistencial destinada a população em situação de rua precisa urgentemente ser repensada, revista e reformulada”, emite.
Para o sociólogo Anderson Cardozo, a população que mora nas ruas é produto de uma sociedade baseada na lógica de meritocracia que remove do Estado o poder de atuação e amparo aos necessitados. “E, com isso, normalizando as exclusões sociais e o abandono político”, revela.
No entanto, é preciso lutar por um modelo político inclusivo, com elementos básicos de uma sociedade democrática e preocupada com políticas públicas voltadas para os grupos sociais desassistidos, com garantia de renda, moradia e formação profissional. “Além de outros esforços para promover a liberdade, respeito às diferenças e a cidadania”, completa Cardozo.
A coordenadora do projeto de extensão e pesquisa – no período de 2011 a 2018 – da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) denominado “Andarilhos”, Ana Heckert, já realizou diversos trabalhos com os moradores em situação de rua e, atualmente, apoia ações da pastoral do povo da rua junto com outras entidades. Com o projeto “Andarilhos”, acompanhava o cotidiano das ruas e conversava com os moradores em situação de vulnerabilidade social.
Ana Heckert declara que as reclamações que já ouviu eram, principalmente, sobre a violência sofrida no dia a dia. Além da violência física por agentes estatais enquanto ato de repreensão contra a população de rua, Ana informa que a vida dessas pessoas também é marcada pela retirada de pertences pessoais e a falta de apoio governamental para quem decide deixar de morar nas ruas.
Para o sociólogo Anderson Cardozo, a violência, a criminalidade, o adoecimento psíquico e existencial não são fenômenos independentes, mas revelam aspectos que decorrem de uma estrutura maior e mais complexa. “A desigualdade social é produzida pelos homens e seus efeitos não têm fronteiras”, fala.
RESPONSABILIDADE
Sabendo que a assistência social é uma política que busca garantir o atendimento das necessidades básicas do cidadão, Zinek esclarece que não se trata somente da responsabilidade dessa área ajudar a população em situação de rua, mas uma questão social que precisa dialogar com a secretaria de segurança, habitação, trabalho, renda, educação e saúde.
“O que a população em situação de rua precisa é de direito, de acesso à moradia, de acesso ao trabalho, de acesso à educação e à saúde” – Mindu Zinek, assistente social
O sociólogo Anderson Cardozo explica que, mais do que um problema social, morar na rua é uma demonstração evidente dos resultados de uma sociedade que não deu certo. “E que procura mascarar suas mazelas, como a violência urbana, a desigualdade social, o adoecimento psicológico e a destruição avassaladora do meio ambiente”, cita.
Por essa razão, afirma que o problema envolve outros elementos e instituições, como o campo religioso. Cardozo vê o sistema de crenças como uma responsabilidade relacionada à defesa da dignidade humana, a demonstração de afetos tal como a solidariedade com os demais membros da sociedade. "A sociedade é constituída por instituições e indivíduos. E, neste sentido, somos todos responsáveis diretos pelo o que essa sociedade produz de negativo”, declara.
Outro ponto é o que se refere ao âmbito da educação escolar. Segundo o sociólogo, o sistema de ensino deveria ser um espaço de socialização, cooperação e solidariedade. E não de promoção de competição desleal, desmotivação e classificação hierarquizada.
Além disso, também é uma questão política, uma vez que são pessoas que estão sob a responsabilidade do Estado e às margens da sociedade. Posto isso, o sociólogo traz uma crítica sobre o que diz ser uma "violenta distribuição de renda" na sociedade, uma vez que o peso maior em termos tributários fica para as populações mais desprotegidas ou limitadas financeiramente.
Para o cientista social Alysson Rocha, trata-se de uma questão tanto política quanto social, à medida que há ausência de políticas públicas e de inclusão social, seja para qualificação profissional, escolarização, moradia ou programas sociais para combater a extrema pobreza.
CIDADÃOS
Rocha chama a atenção para o fator sociocultural. O olhar preconceituoso ao ver o morador em situação de rua como acomodado, preguiçoso, violento ou porque acredita-se que é uma escolha, já é uma forma de exclusão. Logo, é um problema que deve ser erradicado. “Essas visões já os excluem e os estigmatizam pela via do preconceito, o que dificulta enxergá-los como seres humanos e como cidadãos”, diz.
Antes de qualquer mudança, Ana Heckert acredita ser necessário entender que a população em situação de rua tem o direito de ocupar a cidade como qualquer outro cidadão. Além disso, a desigualdade social – a qual compreende as diferenças econômicas, educacionais e sociais, por exemplo – amplia mais ainda o número dessas pessoas. “Para uma vida na rua com dignidade precisamos de políticas públicas. Os governos municipais, estaduais e o federal têm responsabilidades que não cumprem”, menciona.
As dificuldades encontradas são muito grandes. E para uma moradora em situação de rua que vive debaixo da Segunda Ponte, em Vitória, mais difícil do que viver com a falta de empatia da população, é viver com frio e com fome. Por isso, faz um pedido. “Se vocês puderem ajudar os moradores em situação de rua para dar um alimento, roupa, coberta, cesta básica. Hoje, nós estamos debaixo da ponte, mas amanhã a gente pode estar em casa. E tem muitas pessoas aqui que estão precisando, que tem filho. Então, ajude o próximo”, implora.
Acesse a terceira reportagem multimídia da série "Olhares de Rua": Projetos sociais ajudam a resgatar a dignidade dos moradores em situação de rua e tentam reintegrá-los à sociedade.
Créditos
Edição e reportagem: Lara Mireny
Foto em destaque: Freepik/@jcomp (banco de imagens gratuitas)