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Olhares de Rua A invisibilidade social, os preconceitos e as dificuldades do ser humano em situação de rua na cidade de Vitória

Por Lara Mireny

A sociedade compreende um fenômeno que é resultado de um processo histórico de longa duração chamado invisibilidade social. O termo se refere aos seres socialmente invisíveis, ou seja, aqueles indivíduos que são rotulados como inferiores. Essa é uma realidade presente nos espaços urbanos de diversas cidades do Brasil, como em Vitória, no Espírito Santo. Ao deparar-se com um morador em situação de rua, grande parte da população o enxerga como mais um objeto na paisagem urbana e, desse modo, é facilmente ignorado. Essa é a primeira reportagem multimídia da série "Olhares de Rua".

Um ex-morador em situação de rua, que não vai ser identificado para preservar a identidade, diz saber muito bem como é ser invisível no Centro de Vitória. Segundo ele, as pessoas parecem andar sempre apressadas. Quando se aproximava delas para pedir comida ou simplesmente dar um “bom dia” ou “boa tarde”, não obtinha resposta. “É triste dizer para a pessoa que você sente fome e ela nem olhar para você”, conta.

O sociólogo Anderson Cardozo analisa que a invisibilidade social está associada ao desrespeito à cidadania e a consequente desumanização dos indivíduos. “É não ter garantida as necessidades básicas e uma vida minimamente digna”, pronuncia. Para ele, as pessoas que vivem nas ruas estão na condição de seres invisíveis socialmente e a paisagem das grandes cidades evidencia a normalização da invisibilidade.

A invisibilidade é, dessa forma, um fenômeno marcado pelo preconceito e pela desigualdade social. O cientista social Alysson Rocha revela que a condição de invisibilidade da população em situação de rua é parte do não enfrentamento contínuo e histórico das desigualdades no Brasil, da capacidade de levantar preconceitos, discriminações e de naturalizar a extrema pobreza. “Isso é o que nos faz invisibilizar diversos grupos sociais, já que as desigualdades levam em consideração a origem e outras formas de distinção social ligadas ao gênero, à raça, à etnia, à classe social e ao local de moradia”, explica Rocha.

POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA

Assim como a invisibilidade social, o assistente social Mindu Zinek também classifica a população em situação de rua como um fenômeno, pois trata-se de uma questão que já existe há bastante tempo. Estudos indicam que os primeiros indícios de “sem-tetos” no mundo foram encontrados na Grécia Antiga. “É um fenômeno que é consequência de uma lógica do Estado e da sociedade que é história. Uma lógica de exclusão, de desigualdade, de injustiça, de racismo e de preconceito”, desabafa.

Como consequência, Zinek explica que essas pessoas, por não terem outro destino, encontram nas ruas um espaço para a sobrevivência. Contudo, a sociedade tende a naturalizar uma problemática que já está enraizada há décadas. “A sociedade já está acostumada com a presença da população em situação de rua, porque sempre presenciou”, esclarece.

Pessoas encontram nas ruas um espaço para a sobrevivência (Créditos: Romildo Neves)

O sociólogo Antonio Alves entende essa situação como uma "anormalidade" que se estabeleceu na sociedade, posto que se tornou comum as pessoas passarem ao lado de um morador em situação de rua, vê-lo caído no chão, e não se sensibilizarem. “É a banalização da violação dos direitos humanos”, define.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre setembro de 2012 a março de 2020, a população em situação de rua cresceu 140%. E até março deste ano correspondeu a um número de quase 222 mil brasileiros. Além disso, o estudo Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil com dados de 2019 do censo anual do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas), e informações das secretarias municipais e do Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal, analisou a quantidade de moradores em situação de rua por região. A maioria (124.698) encontra-se na região Sudeste, em segundo lugar a região Nordeste (38.237), seguida da Sul (33.591), Centro-Oeste (15.718), e, por último, na região Norte (9.626).

VISÍVEIS E INVISÍVEIS

Ao mesmo tempo em que muitos indivíduos naturalizam a invisibilidade social e ignoram a presença dos moradores em situação de rua nos grandes centros urbanos como o de Vitória – que apresenta um total de 286 pessoas, segundo os dados divulgados no início de 2020 pela Prefeitura de Vitória – outros os veem, porém, como um incômodo.

De acordo com o assistente social Mindu Zinek, é invisível quando o ser humano foge da responsabilidade de integrar o morador em situação de rua na sociedade, de modo a propiciar uma mudança na vida daqueles que estão em situação de extrema vulnerabilidade e acabam não olhando para essas pessoas. Por outro lado, é visível quando incomoda. “Quando está na porta da minha casa, na porta do meu comércio. E aí eu chamo a abordagem social para retirar. Eu chamo a polícia por entender que pode ser uma ameaça para mim”, evidencia o assistente social.

Essa mesma conclusão observada por Zinek, que diz respeito ao sentimento de desconforto e estranheza, foi alcançada pela coordenadora do projeto de extensão e pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) denominado “Andarilhos”, Ana Heckert. O projeto foi realizado no período de 2011 a 2018 e Ana Heckert não acredita que a população em situação de rua são pessoas invisíveis ou colocadas na invisibilidade.

"A presença nas ruas e calçadas incomoda imensamente a população domiciliada. Seja porque mostram as mazelas das nossas desigualdades sociais, porque escancaram os efeitos do modo de vida que vivemos ou porque colocam em questão certos valores com os quais fomos forjados como sujeitos"

– Ana Heckert, coordenadora do projeto “Andarilhos”

Para o cientista social Alysson Rocha, essas pessoas vivem a exclusão social e a desigualdade cotidianamente. Por serem excluídas e discriminadas, a existência desse grupo é ignorada e estigmatizada. Ao mesmo tempo, também são indivíduos reconhecidos pelos meios de comunicação e ruas das grandes e médias cidades. “Ignorar essas pessoas, atribuindo a elas a condição de ‘coitados’, de ‘violentas’, ‘que escolheram estar ali’, ‘acomodados’ é uma condição de marginalizados. Significa um impedimento de integração ou de participação”, aponta.

INTOLERÂNCIA

Os psicólogos Lígia Pimenta (CRP 16/4358) e Danilo Lemos (CRP 16/4356) reconhecem a falta de empatia das pessoas que fingem não enxergar os moradores em situação de rua. “Isso ocorre por uma questão entranhada na dinâmica social chamada intolerância e o racismo é o principal fator”, declaram.

Diante dessa perspectiva, o sociólogo Anderson Cardozo afirma que há uma estreita relação entre os moradores em situação de rua e a questão racial, dado que grande parte são pessoas negras. Um levantamento realizado em 2018 pela equipe da secretaria de Ação Social de Vitória comprovou que 78% dos entrevistados em situação de rua eram negros e pardos. Logo, Cardozo considera que: “sofrem mais fortemente as violências sociais, com falta de oportunidades e desprestígios pela sua cultura”.

Ainda de acordo com Cardozo, as pessoas em situação de rua somente são vistas em eventos comemorativos, como o Natal, que apelam para o conforto moral e religioso da população. Todavia, a situação se problematiza ainda mais à medida que a insensibilidade e a cegueira da sociedade se revestem de intolerância, violência verbal e física.

A maior parte da população em situação de rua é negra

ESTEREÓTIPOS

O ex-morador em situação de rua Elias Belmiro lembra da vida triste que teve durante sete anos passando fome, dormindo nas noites frias e sentindo medo embaixo de viadutos ou pontes. “É um caminho árduo onde o que realmente se vive, é a aleatoriedade, um vazio, uma crise existencial”, expressa.

Belmiro revela ter observado a ingratidão e a perversidade advinda da sociedade que vê um morador em situação de rua como um "bicho". Assim, faz menção ao poema intitulado “O Bicho”, de Manuel Bandeira, que leu na juventude e cuja reflexão se encaixa com a vida que teve. O poema diz:

"O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem"

No mais, chama a atenção para a reprodução de estereótipos os quais reforçam a intolerância desses indivíduos na sociedade. “Não fui um protagonista. Vivi, senti e presenciei os adjetivos pejorativos ditados aos moradores em situação de rua, como: ‘vagabundo’, ‘ah, um serviço!’, ‘tá assim porque quer’ ’’, destaca Belmiro.

O sociólogo Antonio Alves diz que as pessoas que não conhecem a população em situação de rua têm um conceito preestabelecido extremamente negativo e preconceituoso. “Que são violentos, que vão passar doenças, que podem roubar”, comenta. E esse é um preconceito que vai passando de geração em geração. No entanto, ele destaca que conceitos mudam com o decorrer do tempo.

“Antigamente eram chamados de ‘mendigos’, depois de ‘morador de rua’ e, hoje, o mais adequado é ‘pessoa em situação de rua’ ”

– Antonio Alves, sociólogo

Essa afirmação sobre o preconceito pode ser comprovada com a opinião dada por três moradores da cidade de Vitória, os quais não serão identificados para manter o anonimato. Eles acreditam que parte da população em situação de rua é bandida, drogada ou vagabunda. Por isso, não doam dinheiro porque imaginam que vão gastar com bebidas alcoólicas ou drogas.

Já outras quatro pessoas, ao serem questionadas se trocam de calçada ao verem um morador em situação de rua no chão, responderam que depende do momento e avaliam o risco. “Troco de calçada caso eu sinta que pode ser arriscado, no sentido de ser roubado”. “Mudo de calçada se eu ver que estão ‘transtornados’ ou apresentando risco”. “Só se outras pessoas estiverem passando”. “Sigo normalmente, mas não tão próximo”, confessaram.

SOCIEDADE

De acordo com Lígia Pimenta e Danilo Lemos, a sociedade determina um padrão de vida referente ao nível econômico, de escolaridade, posição social, dentre outros. Todavia, aquele que não possui atributos, é dispensado pela sociedade. “Elege-se um padrão de vida socialmente aceitável e tudo aquilo que escapa dele é visto como menor, passível de violência ou de esquecimento”, refletem.

Ao questionar como a sociedade chegou ao ponto de deixar as pessoas vivendo nas ruas, o sociólogo Anderson Cardozo esclarece que, antigamente, nas sociedades pré-capitalistas, as formas de exclusões e invisibilidades estavam vinculadas aos fenômenos religiosos, comportamentais e morais. Já atualmente, estão ligadas ao componente financeiro e de consumo. “De acordo com os valores e a dinâmica sociocultural da atual sociedade capitalista, pós-industrial e consumista, o fato de não integrar o grupo de consumidores coloca o sujeito na marginalidade social”, expõe.

Logo, Cardozo enxerga os moradores em situação de rua como seres socialmente invisíveis que estão à margem da sociedade. “Culturalmente, economicamente, eles não estão incluídos totalmente no sistema”, diz. Além disso, informa que são pessoas totalmente excluídas no que diz respeito ao consumo das necessidades básicas de sobrevivência e da participação política. “São pessoas invisíveis para todos. É como se eles não existissem”, avalia.

A coordenadora do projeto “Andarilhos” Ana Heckert, no entanto, afirma que os moradores em situação de rua não são marginalizados, mas vivem em uma sociedade que preza pelos bens materiais e pelo reconhecimento social. “Eles vivem numa sociedade que só admite a vida domiciliada e que trata cinicamente os efeitos do que nós mesmos produzimos. A pop rua existe porque temos um modo de vida desigual, que não garante direitos sociais e políticos para todos”, informa.

O morador em situação de rua vive em uma sociedade que preza pelos bens materiais e pelo reconhecimento social

REVERSÃO

O sociólogo Anderson Cardozo acredita que a invisibilidade social pode ser uma questão a ser revertida e, portanto, combatida na sociedade. Como, por exemplo, com o auxílio de políticas públicas e um projeto que atenda as necessidades das populações mais vulneráveis.

“É preciso pensar num modelo de sociedade que pregue a horizontalidade das relações e enfrente com pulso firme os instrumentos que produzem as desigualdades sociais e a desumanização” – Anderson Cardozo, sociólogo

Um caminho mais curto, segundo Cardozo, é o desenvolvimento de uma política de cunho Desenvolvimentista ou Estado de Bem-Estar Social, que teve como principal modelo econômico e político a Europa e já apresentou eficácia em termos de promoção do pleno emprego, valorização salarial, estabilidade no trabalho e garantia de direitos trabalhistas e sociais.

Outro ponto mencionado pelo sociólogo é a alteração da cultura do individualismo e da competição que alimenta as pessoas, diariamente, por meio das propagandas, pela socialização nas escolas e pela falsa ideia de globalização. Entretanto, aponta a educação escolar como a principal base de transformações. “E para isso deve ser reformulada radicalmente, com propostas pedagógicas e didáticas que promovam o senso crítico e novas formas de sociabilidade e existência que se volte para a plena satisfação emocional, subjetiva e da solidariedade humana”, pontua.

Recomenda também ser necessária a criação de um projeto social em que o conhecimento científico e tecnológico se destine ao aumento e a qualidade na expectativa de vida, tal como a diminuição da carga horária de trabalho. “Para que, assim, tenhamos uma relação mais saudável e equilibrada com o meio ambiente e a vida social”, finaliza Anderson Cardozo.

Do mesmo modo, o sociólogo Antonio Alves também considera ser um problema possível de ser combatido, a começar nas pequenas situações do dia a dia. “Cada pessoa que tenha o mínimo de sensibilidade social para entender que o outro é diferente dele e é uma pessoa que pode ensiná-lo, ou seja, terceira alteridade”, fala.

Doar alimentos ou simplesmente falar um "bom dia" pode fazer a diferença na vida dos moradores em situação de rua (Créditos: Romildo Neves)

Alves afirma, ainda, que tanto a sociedade quanto os moradores em situação de rua têm muito a aprender uns com os outros, visto que se trata de uma relação dialógica, democrática e de igualdade. Todavia, o preconceito não permite isso. “O nosso olhar é pequeno. Nos deixa no nosso mundinho, na nossa zona de conforto e todos perdem”, pontua.

O sociólogo ressalta que a empatia é capaz de trazer enormes benefícios. Assim, é preciso se colocar no lugar do outro e entender que o indivíduo tem uma história de vida e, por isso, encontra-se naquela situação. “Essas pessoas precisam ser reconhecidas como seres humanos que tem dignidade, assim como nós temos”, conclui Antonio Alves.

Confira a segunda reportagem multimídia da série: Perda de emprego e de vínculos familiares estão entre os motivos que levam as pessoas a morarem nas ruas. E, em seguida, a terceira: Projetos sociais ajudam a resgatar a dignidade dos moradores em situação de rua e tentam reintegrá-los à sociedade.

Créditos

Edição e reportagem: Lara Mireny

Foto em destaque: Ebran Huntington

Imagens de apoio: Freepik/@jcomp (banco de imagens gratuitas)

Created By
Lara Mireny
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Credits:

Ebran Huntington