O Tempo que Resta Duas HISTÓRIAS de amor e de resistência

Às vésperas de completar 50 anos, duas mulheres revelam as delicadezas e os eventos que determinaram o êxito de seus casamentos de quase três décadas.

À medida que narram suas histórias de amor, outras semelhanças vêm à tona: o número de filhos, um histórico de graves problemas de saúde, a trajetória de líderes comunitárias no oeste do Pará

Mas é na face mais perversa da Amazônia que suas biografias de fato se encontram: Maria Ivete e Osvalinda estão marcadas para morrer.

Os conflitos que movem as histórias de Maria Ivete e de Osvalinda são parte central de uma guerra amazônica desconhecida do restante do Brasil. Uma guerra em que as forças se opõem de forma desigual.

A face perversa desse Brasil profundo que se tornou visível – os elevados números do desmatamento e da violência no campo – revela e reforça uma invisibilidade maior: todos os dias, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e populações agroextrativistas são expulsos de suas terras para dar lugar a negócios lucrativos.

O Brasil costuma tolerar essas violações de direitos humanos como uma consequência natural do desenvolvimento. E reage apenas nos momentos limítrofes, em que as tragédias anunciadas se concretizam. Por isso, o que esse projeto de documentário propõe é iluminar histórias que costumam se tornar conhecidas somente depois de terem sido apagadas

Maria Ivete Bastos

Maria Ivete Bastos é a única mulher brasileira até hoje a receber o prêmio Mahatma Gandhi. Em 2006, a então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém – PA, foi homenageada por representar a defesa socioambiental e o empoderamento feminino na Amazônia.

Apesar do reconhecimento internacional pelo esforço em prol da floresta e dos direitos dos povos nativos, a história de Maria Ivete é desconhecida no Brasil. E seu nome compõe também outra lista menos célebre: a dos brasileiros marcados para morrer.

Maria Ivete vive sob proteção policial desde que denunciou crimes cometidos por madeireiros e fazendeiros na CPI da terra, em 2005. De lá para cá, ela viu tombar companheiros de luta, como a missionária Dorothy Stang e o casal José Cláudio e Maria do Espírito Santo – ameaçados e assassinados pelo mesmo motivo.

De um lado, mineradoras, multinacionais exportadoras de soja, hidrelétricas e madeireiras movimentam, com o apoio de instituições do Estado, os denominados projetos de desenvolvimento para a Amazônia.

De outro, os povos nativos (indígenas, extrativistas, ribeirinhos e quilombolas), que antes tiravam o sustento da floresta, são expulsos de suas terras, convertidos em pobres e moradores das periferias, destituídos de sua identidade, de seu território e de seu modo de vida.

Entre esses dois polos, impactos irreparáveis se acumulam. Como se indeniza o túmulo de um filho que ficou na área expropriada? De que forma se revertem os danos ambientais e as mudanças climáticas causadas por esses grandes empreendimentos?

Na sua trajetória de luta, Maria Ivete alcançou muitas vitórias, como a criação de reservas extrativistas em áreas pleiteadas por grileiros. Ao fazer esses enfrentamentos, ela conquistou também o respeito de homens que não acreditavam na capacidade feminina para fazer esse tipo de enfrentamento. E foi reeleita por unanimidade como presidente do sindicato.

Mas as perdas foram igualmente significativas. Noite após noite, Maria Ivete lê a única carta enviada pela filha que, aos treze anos, foi embora por não suportar viver com medo e sem liberdade ao lado da mãe.

Entre as dores e delicadezas dos dias, é no companheiro Marivaldo, com quem está casada há quase 30 anos, que ela encontra o apoio incondicional. Foi ele que cuidou de Maria Ivete durante os graves problemas de saúde que ela teve ao longo da vida. É também o marido que, nos momentos de desânimo, não permite que Ivete desista da causa que elegeu para viver.

Ao lado de seu grande amor, a mulher miúda, de voz mansa, que rema seu próprio barco nas travessias de rio sem saber nadar, afirma que não vai morrer afogada nem assassinada. Ela diz saber que a morte vai encontra-la apenas na velhice, quando seu corpo já não tiver forças.

Ameaça de morte é uma coisa, ser marcada para morrer é muito diferente. Eu disse para o meu esposo, que eu queria que ele jurasse para mim, se ele me visse morta por isso, dissesse que valeu a pena, que vale a pena - Maria Ivete

Osvalinda Marcelino

Osvalinda Marcelino também está marcada para morrer. Ela mora num assentamento rural por onde passam os principais estradas de escoamento da madeira ilegalmente extraída da Terra do Meio, no oeste do Pará.

Os conflitos pela posse da terra e controle da madeira na região resultaram em 15 assassinatos nos últimos cinco anos. Osvalinda se transformou em alvo de madeireiros e fazendeiros quando fundou uma associação de mulheres no Projeto de Assentamento para levar capacitação às famílias dos colonos.

Ela tentava implementar sistemas de agrofloresta para garantir a renda dos pequenos agricultores e conservar os recursos naturais. Foi acusada de provocar ações de fiscalização ambiental. Acuada por doze pistoleiros armados, Osvalinda denunciou as ameaças e questionou a ocupação irregular da área, o que resultou na prisão do superintendente regional do Incra.

Osvalinda e o marido são paranaenses. Viajaram de moto até o Pará e lá fincaram suas raízes. Vivem da venda de polpa de frutas, mel e óleo de babaçu. Depois das ameaças, a mulher passa a noite em vigília com uma espingarda. Só depois que o marido se levanta para trabalhar é que ela dorme.

O casal recusou a escolta policial oferecida pelo Ministério Público por saber do envolvimento dos policiais do município com os madeireiros. Também não aceitou entrar para o programa de proteção a testemunhas porque teria de abandonar a terra, trocar de nome, viver escondido. Resolveram ficar e lutar.

Há nove meses, Osvalinda recebeu um laudo médico que lhe dava pouco mais de dois meses de vida por causa de complicações cardíacas. Ela afirma que apesar da doença e do medo constante da ação dos pistoleiros, seu coração resiste por causa da presença e dos cuidados amorosos do companheiro Daniel.

Não importa se eu tenho 10 dias, 1 ano ou 20 anos. Pra mim o que importa é hoje. É fazer o que você gosta, lutar pelo que acredita, do lado da pessoa que você ama. - Osvalinda Marcelino

O tempo que resta narra as histórias de Osvalinda e Maria Ivete. Duas mulheres que, embora não se conheçam, têm trajetórias muito semelhantes.

Ambas moram no oeste do Pará, convivem com graves problemas de saúde, foram proibidas pelos médicos de ter o segundo filho e mesmo assim tiveram mais dois, são apaixonadas pelos companheiros com quem vivem há quase 30 anos, e lutam pelo direito de mulheres, pequenos agricultores e populações tradicionais da Amazônia

Juntas, elas representam o matriarcado que persiste no interior da floresta, apesar da cultura tradicionalmente machista. Juntas, elas desconstroem o estereótipo que recai sobre as mulheres feministas. São líderes de suas comunidades e estão na linha de frente da luta contra o desmatamento.

Desde jovens, elas foram condicionadas a viver o tempo que resta, primeiro, por causa da saúde frágil, depois, em razão das ameaças. Aprenderam a viver com a intensidade de quem nada pode adiar. São protagonistas de histórias de resistência, e também de histórias de amor.

Motivação

O Brasil lidera pelo quarto ano consecutivo a lista, compilada pela ONG internacional Global Witness, de países que mais tiveram ativistas ambientais e agrários assassinados. Das 29 mortes de líderes e militantes de causas ambientais ou agrárias registradas no país no ano passado, 26 estavam ligadas a conflitos de terra.

Nos dois primeiros meses de 2016, oito defensores de direitos humanos foram assassinados no país. De acordo com levantamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, os números colocam o Brasil à frente de Colômbia e México. Desde 2002, só houve um ano, 2011, em que o país não liderou essa lista. Ao todo, 477 ativistas ambientais foram assassinados no país desde 2002.

Desses, apenas o caso da irmã Dorothy Stang, em 2005, teve ampla repercussão na mídia e gerou pressão internacional sobre o Brasil. Em 2011, o assassinato do casal José Cláudio e Maria do Espírito Santo também recebeu atenção da imprensa, pois o seringueiro havia gravado uma palestra para a organização internacional TED meses antes, falando sobre sua luta pela preservação da Amazônia.

A violência no campo tem relação direta com a degradação da floresta. Os conflitos aumentam à medida em que o agronegócio, as mineradoras e madeireiras avançam na Amazônia, bem como a construção de hidrelétricas de médio e grande porte. E a julgar pelo último boletim divulgado pelo Sistema de Alerta de Desmatamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o problema tem se agravado. Em relação ao mesmo período do ano anterior, o desmatamento cresceu 195%.

Além de colocar em evidência os riscos e o desamparo a que estão submetidos os defensores de direitos humanos na Amazônia, o projeto tem também o objetivo de acender o debate em torno do crescente protagonismo das mulheres nos conflitos por terra e territórios. Pertencem a elas as principais vozes que têm se insurgido contra a ação do grande capital na Amazônia. Mulheres que, assim como Maria Ivete e Osvalinda, lutam não apenas contra madeireiros e fazendeiros, mas contra representantes de instituições do Estado que funcionam muitas vezes a serviço dos grandes negócios, e contra a afirmação de direitos de pequenos agricultores, indígenas e beiradeiros.

Mostrar a luta dessas mulheres, o preço que pagam diariamente pela defesa socioambiental, mas também o cotidiano de delicadezas e o apoio que encontram nos companheiros ajuda a desconstruir o estereótipo que recai sobre as mulheres feministas. Maria Ivete e Osvalinda são, sim, militantes feministas. E também femininas, protagonistas de histórias de resistência, e de histórias de amor.

O viés pelo qual o filme será construído constitui também uma estratégia para ampliar o público. Filmes sobre direitos humanos ou sobre questões ambientais costumam atrair apenas pessoas já afeitas aos dois temas. As histórias de amor, no entanto, têm potencial para criar empatia com um número maior de pessoas. Por isso, O Tempo que Resta será estruturado como um filme de amor, que se desenrola num contexto de conflitos, ameaças e embate entre poderes desiguais.

Tratamento visual e notas do diretor sobre o ponto de vista fílmico

A história vai ser narrada desde o ponto de vista de quem se depara todos os dias com a consciência da finitude da vida. O que realmente importa para essas personagens? O que dá sentido a suas vidas?

Na geografia amazônica, as protagonistas são filmadas enquanto percorrem seus caminhos por veredas e igarapés, sendas fechadas, sempre rumo ao interior (geográfico e psíquico). Suas diferentes situações de "travessias" são, ao longo da narrativa, o símbolo do incessante e perigoso fluxo da vida.

Maria Ivete e Osvalinda, as narradoras-personagens, fazem suas jornadas duas vezes: a primeira vez na vivência, depois rememorando os acontecimentos que consideram mais importantes em suas trajetórias. Esta introspecção lembra Édipo-rei, diante da esfinge de Delfos: “Conhece–te a ti mesmo”. Para a psicanálise, conhecer um pouco de si pressupõe estar diante de um outro, a fim de que este outro possa ser um espelho, onde suas imagens possam ser vistas e refletidas.

Ao mesmo tempo em que funcionam como espelho uma para outra, na medida em que suas narrativas são feitas em paralelo e se complementam, é para o espectador que elas falam, em busca de ressignificar suas experiências e fazê-las ressoar: “De que adianta a luta se ninguém souber porque foi que eu morri?” – se questiona Osvalinda.

Nesse sentido do espelhar, o rio será muitas vezes utilizado como metáfora: não apenas as águas da superfície, que refletem a luz, o real, e onde se narra o enredo principal das histórias, mas também as correntes mais profundas, que escondem o medo, os mistérios, aquilo que se intui mas não se sabe ao certo.

A narrativa se constrói mais por uma sucessão de pequenas vivências cotidianas, fragmentos de vida doméstica do que pela representação de episódios significativos. E são essas cenas aparentemente banais que, pouco a pouco, revelam a complexidade das personagens e do contexto no qual estão inseridas.

Enquanto Maria Ivete e o marido pescam numa canoa, uma arraia se engancha na rede. Amedrontada, Ivete conta que quase ficou viúva por causa de um bicho daqueles. A morte é um tema que permeia todo o filme, tanto nas evocações trazidas por fatos cotidianos como esse quanto pelos relatos das personagens.

Osvalinda, por exemplo, conta que foi salva pela curiosidade da irmã mais velha, que decidiu espiar a bebê que havia nascido morta e alertou a parteira de que a criança estava se mexendo.

A morte, enquanto fim e oposto da vida é parte intrínseca do relato e funciona como fio condutor da narrativa, até chegar ao momento limítrofe das ameaças. E o alerta para o risco iminente aparece até mesmo em situações mais íntimas, que beiram a comicidade. Ao comentar a diferença entre o conceito de privacidade na cidade e no campo, o casal Ivete e Marivaldo se diverte dizendo que precisa escolher o melhor momento para a intimidade porque a casa não tem forro e o teto é de palha. A câmera, posicionada acima da divisória entre os dois quartos, revela que, de um lado, está o casal abraçado na rede, e do outro, o policial que faz a segurança de Maria Ivete.

A representação de um mundo em frágil equilíbrio se dá tanto no retrato do cotidiano (Maria Ivete colhendo frutas no alto de uma árvore, caminhando por galhos finos, que estalam e quase se quebram), como no contexto ambiental: as plantações que morreram por falta das chuvas, os igarapés que já não têm quase peixe.

Ao relatar a expulsão dos pequenos agricultores ou indígenas das terras para dar lugar aos grandes negócios, novamente, o recorte do tema na fala de uma das personagens reforça aquilo que finda: “Como se indeniza o túmulo de um filho que vai ficar naquela terra?

Esses conflitos entre as populações tradicionais da Amazônia e o grande capital são pontuados também por imagens, como aquela da chegada de Ivete ao porto de Santarém. Com sua canoa pequena, ela passa em frente a grande navio cargueiro usado para exportar a soja produzida na região – um simbólico embate entre forças muito desiguais.

Os personagens são mostrados como profundos conhecedores do mundo onde vivem, numa relação de cuidado e dependência em relação à terra, à mata e aos rios. Eles falam de conexão, do sentimento de coletividade. Maria Ivete e Osvalinda, diante da exuberante fauna da Amazônia, se identificam com as abelhas. Como esses pequenos insetos, estão ameaçadas de desaparecer.

E com a consciência da finitude da vida, as protagonistas nos brindam com reflexões como esta: “isso é viver, é viver do lado da pessoa que você ama, fazer o que você gosta. Isso pra mim é vida. Não importa se eu tenho 10 dias, 20 dias ou 100 anos. Pra mim o importante é hoje”.

Uma história de amor e de resistência, e também uma reflexão sobre a qualidade do tempo que resta.

Teaser

Produção: Puksar Filmes e Pano Pra Manga

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