Com a enxada e a incerteza na mão

Texto de Érica Baggio de Oliveira. Fotografias de Mathias Lengert.

Sem estudo formal. Sem salário. E com uma vida de trabalhos pesados nas costas. Essa é a realidade de pessoas que desde pequenas trabalharam com o sol na cabeça e a enxada nas mãos. Muitas largaram os estudos para cuidar da família e para garantir que não passariam fome. Agora, estão vendo seu direito de aposentadoria se tornar um caminho árduo a ser percorrido. A possibilidade de reforma da Previdência Social trouxe consigo dificuldades para as quais as famílias dependentes da agricultura de subsistência não estão preparadas.

Com discussões sobre possíveis alterações no sistema previdenciário, que vem recebendo críticas tanto de especialistas como da população brasileira, cansada de ter seus direitos básicos burlados pelo governo de Michel Temer, o cenário se agrava para quem não tem informação suficiente para entender tudo o que pode ser decidido sobre seu próprio futuro, como é o caso dos trabalhadores rurais. Tramitando entre as paredes do Congresso Nacional, a proposta para o setor rural é a divisão dos trabalhadores em dois grupos, um de assalariados e outro com os produtores de agricultura familiar. Para este último, o tempo de trabalho permanece de 15 anos. A maior mudança, porém, a partir da aprovação da reforma, será que a classe dos agricultores, que antes nunca contribuíram com o sistema previdenciário, passará a pagar 5% de um salário mínimo para garantir o direito de se aposentar.

Uma vida inteira de lutas e vitórias

Com uma bagagem de vivências muito grande e um sorriso sempre estampado no rosto, a agricultora Nelsi Maria Fank (72), abre a porta de sua casa em Itapiranga-SC, onde vive há 62 anos, para contar a história de vida de quem trabalhou muito desde cedo para garantir uma vida digna. Gaúcha de nascença, mudou-se com a família para o interior de Itapiranga em 1954, onde vive e trabalha até hoje fabricando queijos com o marido Isidoro e a filha. Aos 16 anos, largou a escola para cuidar dos irmãos mais novos e trabalhar na roça. Nunca mais voltou a estudar. Casou-se em 1965 e menos de três anos depois do casamento já tinha quatro filhos, o que a impossibilitou de trabalhar fora.

Nelsi recorda com carinho sobre como contornou esse problema, fabricando queijo com o leite de suas duas vacas. A ideia surgiu enquanto conversava com uma vizinha, que deu algumas dicas para a produção. Pouco tempo depois, o seu ouro, como chama afetuosamente o queijo, já estava à venda nas quitandas do município. E assim é até hoje.

Aposentada desde 1999, conta que não encontrou dificuldades na época. Ela já havia completado os 55 anos de idade requisitados e possuía o bloco de produtor rural em seu nome. Seu primeiro rendimento, de R$ 36,00, foi investido na compra de uma calça de brim [jeans] para usar nas missas de domingo. Nelsi se mostra crítica ao atual sistema previdenciário. “Hoje em dia, quantos se aposentam na roça porque outra pessoa faz o bloco de produtor pra ele? Que não trabalham na roça e se aposentam como agricultores... Acho que o certo seria que as pessoas contribuíssem com uma porcentagem, porque muitos nem terra tem”, conta.

Atualmente, “vói” Nelsi, como é chamada pelos netos, reduziu o ritmo do trabalho, em parte por consequência da idade e, também, devido às novas tecnologias. “Na minha época era tudo com a enxada na mão”, diz, sorrindo. Mesmo assim, ela mantém o esmero com a horta e o pomar, sempre carregado de frutas.

A transição para a aposentadoria de Nelsi ocorreu de forma tranquila. Para a filha e sucessora da propriedade, Nair Fank Fusieger (45), pode não ser assim. Ela está na lida com a roça desde a infância, seguindo os passos da mãe. Casou em 1995 e nem o nascimento da filha, no mesmo ano, a impediu de trabalhar. A fuga dos bois, no primeiro dia como responsável pela propriedade não a desanimou. A satisfação de lavorar permanece até hoje, 25 anos depois. A reforma da previdência, no entanto, ameaça o seu direito de aposentadoria e cria incertezas quanto ao futuro.

Polêmica envolvida

A advogada especialista em direito previdenciário e direito civil, Maria Francisca Becker, quando questionada sobre a reforma da previdência social, afirma que há muita polêmica envolvida, devido a existência de pessoas que cometem fraude para se aposentar como agricultor, causando um déficit no sistema previdenciário. “ A pessoa trabalha na cidade sem carteira assinada e mantém o seu bloco de produtor, fazendo uma fraude para se aposentar como trabalhador rural.” afirma Maria, que diz ser em função deste tipo de acontecimento que o governo cobrará contribuição dos agricultores, caso aprovado o projeto.

Em cidades pequenas, onde a maioria da população é de aposentados, o dinheiro que entra da aposentadoria é o que faz o comércio ter fluxo. Com a imposição de uma contribuição mensal para os trabalhadores rurais, muitos destes vão acabar não se aposentando, o que tornará o comércio local fraco. “O pessoal não vai ficar no campo, porque percebe que se não pagar, não vai ter acesso a nenhum benefício. Em função disso os agricultores não vão querer ficar plantando e vão começar a vir para a cidade” conta a advogada.

Sendo 70% da nossa alimentação diária produzida pela agricultura familiar, é possível que, a longo prazo, ocorra um aumento nos preços dos produtos vindos desse tipo de produção e até mesmo uma crise no abastecimento por falta de quem plante. Os trabalhadores rurais tem sim, papel muito importante na sociedade, pois são eles que produzem grande maioria do que consumimos diariamente, devendo assim, serem preservados.

Created By
Mathias Lengert
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Credits:

Mathias Lengert

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