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A Igreja em Portugal vive a Laudato si'? Estudo exclusivo promovido por dois orgãos de comunicação social mostra como a Igreja cumpre, ou não, o que a Laudato si' pede, e o caminho que ainda há por fazer, ao encontro dos pedidos e sugestões do Papa Francisco.

Metade das dioceses portuguesas não incluem os temas da Laudato si’ na formação para os ministérios ordenados. E nenhuma das que responderam ao inquérito tem definidas metas ecológicas com base na encíclica do Papa Francisco. Estas são duas das principais conclusões de um inquérito, promovido pela FAMÍLIA CRISTÃ e pelo jornal digital 7Margens, sobre o modo como a encíclica ecológica do Papa está a ser aplicada pela Igreja em Portugal. Por outro lado, 86% dos inquiridos não têm trabalhadores precários e cerca de 70% aproveita as energias renováveis do sol ou do vento. Registos que deixaram o Vaticano impressionado...

Reportagem: Ricardo Perna e António Marujo (7Margens)

Este trabalho de investigação, promovido pela FAMÍLIA CRISTÃ e pelo 7Margens, baseou-se na criação de um questionário online. Inicialmente, com a colaboração de membros da Rede Cuidar da Casa Comum, foram coligidas muitas das sugestões concretas ou ideias que o Papa propõe na encíclica. Daí surgiram as 34 questões que foram colocadas às dioceses, congregações, movimentos e instituições.

Foi elaborado um questionário online e enviado às 37 entidades, das quais recebemos 32 respostas.

Contactámos as 21 dioceses (20 territoriais, e o Ordinariato Castrense), e responderam 17 - Angra, Aveiro, Lisboa e Setúbal não responderam. Recebemos ainda respostas das sete congregações que contactámos (algumas com dados de várias das suas estruturas) – Companhia de Jesus, Salesianos, Doroteias, Servas de Nossa Senhora de Fátima, Coração de Maria, Maristas e Missionários da Consolata –, três instituições – Santuário de Fátima, Opus Dei e Universidade Católica – e cinco movimentos – Corpo Nacional de Escutas, Fundação Fé e Cooperação, Leigos para o Desenvolvimento, Movimento de Schoenstatt e Movimento dos Focolares.

No caso das 21 dioceses, foi pedido que a resposta tivesse em conta apenas as estruturas diocesanas (cúrias, casas de retiro, seminários...) e não todas as instituições católicas existentes no respetivo território. Neste sentido, as respostas refletem a realidade ao nível diocesano e das cúrias ou sedes das congregações, movimentos e institutos, não do nível paroquial ou local.

«Isto é algo de muito honesto, e será de uma utilidade imensa. As respostas revelam que as pessoas se mostram preocupadas, dizer que há muita coisa que não se faz mostra um trabalho honesto e revela a preocupação que está subjacente», considera Isabel Varanda, professora de Teologia da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, em Braga, que tem desenvolvido trabalho de investigação sobre cristianismo e ecologia.

D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), afirma que o inquérito «tem de positivo chamar a atenção e recentrar a discussão sobre temas concretos da Laudato Si’ que são importantes para a vida da Igreja». Os dados «são preocupantes», admite, mas «até certo ponto». O que é necessário é insistir em que «o discurso da ecologia saia por outro modo: a primeira preocupação não é o foco no aspecto ecológico de saber se tenho isto ou aquilo, mas dizer "temos de viver de um modo diferente".»

Vaticano elogia trabalho «pioneiro» na Igreja

O inquérito elaborado pela FAMÍLIA CRISTÃ e pelo 7Margens foi também enviado ao Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, do Vaticano. O Pe. Joshtrom Isaac Kureethadam, responsável pelo sector da Ecologia naquele organismo, que trata das questões relacionadas com a Laudato si’, afirma que este foi um trabalho «muito apreciado».

O Pe. Joshtrom elogia a maioria dos dados constantes do inquérito, prova de que «os mínimos estão lá, não são tudo más notícias». «A maioria das respostas são na casa dos 50%, e é preciso construir a partir daí», sugere, indicando duas áreas que lhe parecem prioritárias: dar «mais protagonismo aos jovens», que «até pode ser uma forma de os fazer regressar à Igreja», e, por outro lado, ter «estratégias globais, porque fazer ações individuais não será suficiente».

«Precisamos de uma conversão ecológica em ação, mas com uma estratégia definida: ter uma paróquia que se transforma neutra em carbono em sete anos, mas ao mesmo tempo consegue aumentar a espiritualidade, colocar os pobres no centro, mudar estilos de vida...» - Pe. Joshtrom.

As respostas às perguntas mais abertas do questionário são as que mais «espantam e preocupam», segundo Margarida Alvim, membro da rede Cuidar da Casa Comum e responsável pela Casa Velha, um centro de ecologia e espiritualidade localizado em Ourém. Questionadas sobre se têm metas ecológicas com base nos princípios da Laudato si’, as 17 dioceses portuguesas que responderam revelaram que não as têm (a diocese de Viana do Castelo tem uma Comissão Laudato si’ nomeada, que se propõe trabalhar com as paróquias), e, ao nível das outras instituições, 10 em 15 respostas indicaram que têm metas ecológicas. «Muito me espanta e preocupa que nenhuma diocese tenha metas ecológicas traçadas», considera Margarida Alvim, que adianta que «corremos o risco de olhar para a encíclica como sendo apenas questões ligadas ao ambiente. Se limitarmos aí, se calhar não compreendemos e não percebemos como integrar as questões da Laudato si’ no programa geral da diocese».

Além disso, o inquérito revela que metade das dioceses que responderam não incluem os temas da Laudato si’ no currículo de formação para os ministérios ordenados na sua diocese (oito indicaram que não, nove indicaram que sim). «Lamento ter de reconhecer que nos falta uma vocação ecológica e uma sensibilização profunda. Falta-nos esta dimensão profunda, e será através da educação, com programas sistémicos, com as tais metas, mas também com a criação de contextos que nos levem a despertar o porquê do cuidado com a Criação. Enquanto não respondermos a estas questões, de perceber o fundamento das coisas, não estaremos a ter essa conversão ecológica», avisa Isabel Varanda.

Isabel Varanda, professora de Teologia na Faculdade de Teologia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa (Foto António Pedro Ferreira)

Esta teóloga considera que «continuamos bastante adormecidos, e tem de haver uma mudança muito radical de modelos de vida», e avisa que «a educação das gerações não é suficiente, porque não vamos a tempo». «Para mim é “Educação, educação, educação”, como dizia Bento XVI. E formação de líderes, que está ao nosso alcance. Nós até já temos, nas dioceses e nas congregações, estruturas montadas que só precisariam de mudar um bocadinho o foco, com lideranças convertidas, um pouco militantes», considera.

Até porque, afirma esta especialista, «com líderes motivados e formados, e as comunidades já têm líderes, precisariam apenas de uma formação intensiva na ecologia integral profunda, que se alarga a todos os elementos da vida».

Foto Ricardo Perna

Reciclagem e combate ao desperdício são pontos positivos

Uma das áreas mais positivas é a do desperdício, com a maioria das instituições a indicar que faz algum tipo de separação de lixo, diminuiu o consumo de plásticos de utilização única (69% indicou que o faz), ou descartáveis, e ainda reduz o desperdício de água (71% respondeu sim). Daqui, ressaltam os exemplos de quem trocou as garrafas de plástico por vidro, ou deixou de ter copos descartáveis para a água, promovendo a utilização de canecas junto dos funcionários, ou ainda evitando a utilização de sacos de plástico nas compras. Sobre a água, medidas como a colocação de torneira com temporizador e redutor de caudal, levadas a cabo por muitas entidades, ajudam a evitar o desperdício.

Neste ponto, ficam os exemplos práticos do Santuário de Fátima, que indicou estar a «a desenvolver um estudo de todo o ciclo dos lençóis de água do Santuário para melhor aproveitamento», e da Universidade Católica, que aproveita «os lençóis freáticos para a rega dos jardins do campus»

Muito positivas são as respostas relacionadas com a partilha de bens com famílias carenciadas, em que a esmagadora maioria (94%) dos inquiridos revela que, na sua própria especificidade, têm algum trabalho feito, grande parte ao nível da Cáritas (no caso das dioceses) e de outros grupos de apoio sócio-caritativo que, mesmo tendo surgido antes da Laudato si', mantiveram e reforçaram o trabalho desenvolvido.

Respostas à pergunta "Há sensibilização ou iniciativas para a partilha de bens (alimentar, roupa, mobiliário ou outros) que podem já não estar a uso por pessoas ou instituições para distribuir por quem necessite?"

Outro ponto de valorização é a resposta sobre as condições dos trabalhadores da entidade: dos inquiridos, 86% das instituições tem todos os funcionários com contrato de trabalho, sem regimes precários; em 42% das entidades contactadas não há nenhum trabalhador a ganhar o salário mínimo, e 33% têm cinco ou menos nessas condições.

Os dados não são tão positivos quando o tema são compras ou deslocações: apenas 25% compram carne a produtores certificados que não promovem maus-tratos aos animais; 50% dos inquiridos revelam que as compras são feitas nos agricultores locais; 25% que não é uma prioridade a utilização de transportes públicos, bicicleta ou deslocações a pé, quando é possível alguma destas utilizações, e 36% indicam que só o faz pontualmente.

As deslocações por meios mais sustentáveis, quando possível, é uma das áreas onde há ainda muito por fazer (Foto Kai Pilger | Unsplash)

O mesmo se passa com a promoção de encontros inter-religiosos ou associações ambientalistas, com a Laudato si’ como pano de fundo: em 72% e 75% dos casos, respetivamente, as entidades nunca promoveram este tipo de encontros nestes seis anos. «As igrejas estão a mexer-se sobre este assunto, as religiões estão a juntar-se para debater este tema, e talvez seja algo que está a faltar em Portugal e seja uma área para onde se deva olhar com mais atenção», adverte o Pe. Joshtrom Isaac Kureethadam, do Vaticano.

No que diz respeito à habitação, área essencial quando se fala de justiça social, 46% dos que responderam indicaram que têm habitação com renda social acessível para famílias carenciadas, e, desses, mais de metade tem menos de 5 habitações disponíveis.

Questionados sobre a existência e disponibilidade de habitações para acolher refugiados, 57% dos inquiridos indicaram que não possuem qualquer estrutura habitacional para acolhimento de refugiados.

Apesar do alerta inicial, Margarida Alvim mostra-se «animada» com os dados do inquérito. «Isto seria impensável há cinco anos. Houve um reconhecimento e uma tomada de consciência grande ao longo destes anos, mesmo se é claro que há muito para fazer ainda», afirma. «Eu sou animada por natureza e anima-me o caminho, mas inquieta-me a dormência, a falta de pastores que nos animem. A conversão ecológica tem de ser uma experiência espiritual e um caminho espiritual que leva a um reconhecimento sobre as razões do “porque é que cuidamos?”», refere.

Muito animado ficou também Marcial Felgueiras, diretor executivo d’A Rocha, uma associação ambiental de inspiração cristã, nascida no seio de igrejas protestantes e anglicanas. «Confesso, com uma certa surpresa, mas com muita alegria, que vejo que as pessoas estão muito mais despertas do que eu imaginava», refere, dando o exemplo da utilização das energias renováveis. «Estou impressionado que, em 32 instituições, haja 22 que já têm energia solar térmica, e quase metade (16) tem painéis solares fotovoltaicos, o que provavelmente quer dizer que há alguns que têm o fotovoltaico e o térmico e, espante-se, há um que tem energia eólica! É sinal de que há muita gente já a pensar com cabeça, tronco e membros e a fazer as coisas», conclui.

Marcial Felgueiras elogia o trabalho feito pelas estruturas da Igreja Católica nestes seis anos (Foto Direitos Reservados)

Para o que falta fazer, Margarida Alvim considera que é preciso «um programa concreto de conversão», e sugere a criação de «um coração espiritual em cada diocese, um centro, um lugar de forte de espiritualidade e ecologia, em que a própria diocese, com um plano de vários anos, possa ir experimentando esta conversão espiritual através de atividades que passem muito pelo contacto com a Terra, pelo silêncio».

«O que a encíclica veio trazer», defende D. José Ornelas, «é o direito de cidadania deste tema de sermos cuidadores e não predadores do planeta». «Hoje, temos de ser cuidadores, porque temos uma capacidade tal de cuidar e/ou predar, que fazemos a diferença consoante as atitudes que assumimos», defende.

«Por isso, a integração entre a Fratelli tutti e a Laudato si' é um discurso que vai passando. É oportuno o que vocês fazem, porque temos de dizer que temos de sair desta pandemia de um modo diferente» - D. José Ornelas

Importante é a noção de que essas medidas e atitudes para proteger o ambiente «são expressão não de uma legislação que temos de aplicar, mas do facto de estarmos profundamente convictos da necessidade de contribuir, à nossa medida, para a transformação, para um novo paradigma», defende Isabel Varanda. «Não sou fundamentalista, mas para viver com alguma coerência não posso renunciar a este patamar de exigência que todos, como cristãos, somos chamados a ter», conclui.

O Vaticano criou a Plataforma de Ação Laudato si’, que pretende promover o cumprimento das metas apontadas pela encíclica, resumidas em sete objetivos, a serem concretizados em sete anos, e o Pe. Joshtrom Isaac sustenta que esta plataforma é muito mais que simples ações de defesa do meio ambiente . «Não é apenas propor objetivos, é propor um caminho de espiritualidade. Para cada um dos sete objetivos, encontrámos, com a ajuda de 91 pessoas que nos ajudaram a pensar nisto, uma lista de coisas a fazer», explica o Pe. Joshtrom. A adesão à rede vai ser voluntária, mas espera que seja muito significativa. «Talvez quem se saiu melhor no vosso inquérito, que já faz coisas, possa aderir a esta rede no primeiro ano, e os outros se sintam motivados para ir aderindo nos anos seguintes», sugeriu o sacerdote.

O responsável afirma que as dioceses não terem metas ecológicas definidas não é uma realidade apenas em Portugal. Foi uma das razões pelas quais o Papa declarou este ano especial Laudato si’. «Percebemos que houve um entusiasmo muito grande na altura, mas depois passou, e achámos que era preciso voltar a falar nisto. O Papa disse que o grito da Terra e dos pobres estava a ficar cada vez mais alto, e era preciso voltar a falar da encíclica», explica.

Tudo isto organizado e promovido pela «equipa de ecologia da Conferência Episcopal», sugeriu. Mas essa não existe no nosso país, retorquimos. «Bom, talvez depois do vosso artigo se possa criar uma», conclui o Pe. Joshtrom, com um sorriso.

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Criado com uma imagem de mrganso - "wind power plant pinwheel wind power"