GLOBALIZAÇÃO E FENÔMENOS ECONÔMICOS Luis Augusto - Contabilidade

BRETTON WOODS

Na fase final da II Guerra Mundial, já era evidente que os Estados Unidos da América assumiram com destaque o papel de maior economia do mundo: o país não teve seu território atacado e mantinha seu parque industrial intacto e em rápido crescimento. Porém, com a Europa totalmente devastada e sua economia seriamente comprometida, o potencial de escoamento da produção norte americana seria seriamente comprometido. Era necessário tomar medidas que garantissem o fluxo de capital internacional, principalmente por meio do investimento americano na Europa. Assim, em julho de 1944, aconteceram as conferências de Bretton Woods para definir as regras comerciais, monetárias e financeiras que regeriam as relações comerciais internacionais, além da criação de organismos internacionais de controle e assistência: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), tendo os Estados Unidos como principal financiador.

Os fundamentos econômicos adotados, que vigoraram entre 1946 a 1973, se baseavam em um esquema de paridades cambiais ajustáveis baseadas no padrão ouro-dólar: na época, à razão de 34 dólares por onça de ouro. As nações participantes, por sua vez, se comprometiam a manter uma política monetária com taxa de câmbio variando dentro de uma margem mínima (mais ou menos 1%). Acreditava-se que tais medidas garantiriam que o comércio internacional se restabelecesse sem a instabilidade econômica e financeira que paralisaram o capitalismo mundial durante a crise de 1929.

A hegemonia econômica dos Estados Unidos permitiu seu estabelecimento como líder de uma economia internacional que se pautava pelo livre comércio, paz política e o incentivo ao desmonte de barreiras que dificultavam o fluxo internacional de capital, medidas que não apenas consolidavam mas garantiam a posição norte americana nas décadas subsequentes. Com alguns ajustes de trajetória ao longo do tempo, o sistema de Bretton Woods durou até 1973, quando a conjuntura econômica internacional sofreu sensíveis transformações.

A CRISE DOS ANOS 1970:

OS CHOQUES DO PETRÓLEO, O FIM DO PADRÃO OURO-DÓLAR

Diante de um contexto mundial pleno de conflitos militares e com o recrudescimento das relações entre Estados Unidos e União Soviética, que buscavam estender sua influência política o mais rápida e amplamente possível, a partir de agosto de 1971, os norte-americanos anunciam unilateralmente que não vão mais honrar o compromisso assumido em 1944 e suspendem o padrão de conversibilidade dólar/ouro. Não houve sucesso nas diversas tentativas em substituir o padrão monetário e a economia internacional volta a enfrentar ameaças a sua estabilidade. A situação torna-se mais grave com os conflitos militares entre Israel (aliado dos Estados Unidos) e os países árabes, produtores de petróleo, de 1973 (a guerra do Yom Kippur). A parte das consequências geo-políticas, o resultado da guerra, favorável a Israel, fez com que os países produtores de petróleo reduzissem sua produção e reajustassem seus preços em mais de 400% em um período de poucos meses. O sistema econômico internacional entra em colapso. Mais de 80 % do petróleo consumido na Europa e 90% no Japão vinham dos países árabes. Lembremos que o petróleo é o combustível utilizado não apenas nos meios de transporte, mas também para o aquecimento de casas e empresas. Assim, europeus e japoneses foram obrigados a racionar combustível, com a proibição parcial de circulação de automóveis e racionamento de energia, com sérias consequências na produção industrial. Embora o alvo principal dos países da OPEP (Organização do Países Produtores e Exportadores de Petróleo) tenha sido os Estados Unidos, o resultado da crise foi de certa forma positivo para a economia norte americana, menos dependente do petróleo importado que japoneses e europeus, seus concorrentes diretos no mercado internacional. As grandes companhias petrolíferas americanas, únicas com condições de bancar os preços no mercado paralelo do petróleo, aumentaram seus lucros em 159% só em 1973. Em contrapartida, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Qatar e Kuwait passaram a fazer parte de um conjunto de novos países ricos, cuja renda per-capita anual chegou a 5000 dólares.

A crise deflagrada pela alta do petróleo acenava para o esgotamento das políticas que combinavam liberalismo econômico e o Estado de Bem Estar Social (que, na Europa, significou a eleição de vários governos sociais-democratas), e com o esquecimento das lições do período entre guerras e da Depressão. As teorias econômicas keynesianas, a aliança entre o livre mercado e os mecanismos de controle do Estado que havia sustentado os anos dourados do capitalismo no século XX, agora já não conseguiriam mais salvar as economias à beira de processos inflacionários, desemprego e queda de produção. Tratava-se portanto de buscar um novo modelo econômico, capaz de fazer frente a esse novo contexto mundial, uma variação do liberalismo econômico dos séculos XVIII e XIX. Esse neoliberalismo propunha valores que defendiam “ a menor intromissão do Estado na dinâmica de mercado, devendo o poder público se voltar para um conjunto limitado de tarefas, tais como a defesa nacional, a regulação jurídica da propriedade e a execução de algumas políticas sociais” (BARBOSA, 2006, p. 88). Quase que em oposição ao Estado do Bem Estar, se propõe o Estado Mínimo: mínima intervenção, mínimas barreiras ao livre-comércio, impostos mínimos, benefícios sociais mínimos. Sobreviverão os países que melhor souberem aproveitar as oportunidades do mercado e as empresas que mais rapidamente encontrarem vantagens competitivas. Sobreviverão os que forem mais capazes, numa clara alusão ao Darwinismo, aplicado à economia.

O neoliberalismo, segundo George Soros, "coloca o capital financeiro ao volante" da economia, retomando a clássica metáfora liberal de Adam Smith: a "mão invisível" conduzindo o capitalismo ao equilíbrio econômico, contando com políticas de controle inflacionário e do déficit público.

A crise do petróleo fez com que diversas economias capitalistas entrassem em decadência, em função do elevado endividamentos gerados pela subida dos preços desse fator de produção. A partir de então, diversos países passaram por crises recorrentes em balanço de pagamentos, principalmente devido à maior quantidade de dólares que eram requeridos para pagamento de importações de petróleo.

A mudança no comportamento do Estado, de interventor para neoliberal, dá-se em função do período de crise vivenciado pelas economias capitalistas dos anos 1980, para alguns a “Década Perdida”, e do período de elevação do endividamento público. Também concorre para essa mudança o processo de inflação galopante, a maior característica do período, que atingiu de forma sensível o Brasil.

Desta forma, a década dos noventa será o período no qual serão realizadas as reformas necessárias para responder ao novo contexto econômico: ajuste fiscal, monetário e administrativo, realizados sem uma participação próxima do Estado. É nesse período que a economia mundial é atingida por uma onda de privatizações, seguindo a diretriz do Estado mínimo. Somam-se a isso políticas fiscais contracionistas, como a elevação de tributação, a diminuição de despesas e investimentos e as políticas monetárias restritivas, caracterizadas pela elevação das taxas de juros com o interesse de diminuir investimentos produtivos e de aumentar a expansão do crédito favorável ao capital especulativo.

Essas diretrizes econômicas que já se delineavam pontualmente foram devidamente formalizadas pelo o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1990 sob a forma de um conjunto de dez medidas econômicas voltadas a ajustar a economia de países que mal sobreviviam economicamente desde a década de 80. Devidamente ratificado pelo Banco Mundial e pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, o documento formulado a partir de um texto do economista John Williamson foi chamado de Consenso de Washington.

CONSENSO DE WASHINGTON

Para Willamson, o Consenso de Washington seria "o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989", resumidas em dez pontos:

  • Abertura Comercial: redução de tarifas alfandegárias liberalizando o comércio internacional;
  • Privatização de Estatais: redução do papel do Estado como agentes ativos e empresários nas economias nacionais;
  • Redução dos Gastos Públicos: com o objetivo de viabilizar um maior superávit primário para o pagamento de dívidas externas;
  • Disciplina Fiscal: rígido controle sobre os gastos públicos visando o controle inflacionário e o aumento do déficit público na perspectiva de sustentar uma política fiscal expansionista;
  • Reforma Tributária: redução da cobrança de impostos sobre a produção e a circulação de mercadorias e serviços;
  • Desregulamentação da Economia: afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas a fim de favorecer a livre iniciativa;
  • Estímulo aos Investimentos Estrangeiros Diretos: eliminação das restrições para o investimento de capitais na instalação de filiais de determinadas empresas fora de seus países-sede, inclusive remessa de lucros;
  • Juros de Mercado: adoção de taxas flutuantes de acordo com a conjuntura do momento;
  • Câmbio de Mercado: adequação à necessidade de ajustes nos balanços de pagamentos e intervenções das autoridades monetárias.
  • Direito à Propriedade Intelectual - proteção a patentes, marcas, desenho industrial, indicação geográfica de cultivares e recursos minerais.

Numa primeira aproximação, a leitura das diretrizes parece apontar para a convergência entre as políticas neoliberais e o processo de globalização, especialmente no que diz respeito à integração econômica internacional através da abertura de mercados, facilidades para os investimentos externos diretos e privatizações.

Como introdução ao tema, que será explorado com mais profundidade no próximo módulo, o termo globalização faz referência a vários e diferentes eventos.

Para alguns historiadores, globalização se refere ao período iniciado com o término da Guerra Fria, representado simbolicamente pela queda do Muro de Berlim e a queda do socialismo diante do capitalismo ocidental. Outros preferem situá-la na década de cinquenta quando, após o término da II Guerra, os Estados Unidos iniciaram sucessivas intervenções militares na Ásia, na América Central e no Oriente Médio, todas elas com o objetivo de defender os interesses do capital ocidental. Outros ainda, preferem se remeter ao século XVI e às grandes navegações e a ação colonizadora da Europa na América, na África e na Ásia.

A liberalização dos mercados preconizada pelo Consenso de Washington, permitindo o fluxo de capital dos países mais ricos para os mais pobres, significou também um incentivo ao trânsito de capital especulativo pelos países do terceiro mundo. De acordo com dados estatísticos da ONU publicados no livro "Flat World, Big Gaps: Economic Liberalization, Globalization and Inequality" (2007), as diretrizes do Consenso de Washington fizeram piorar a distribuição de renda pelo mundo. Essas diretrizes, de fato, fazem prevalecer as vantagens competitivas das economias desenvolvidas sobre aquelas dos países em desenvolvimento, resultando em um maior desnivelamento e consequências sociais previsíveis.

Tal situação tornou-se evidente aos olhos do mundo na proliferação de diversas manifestações antiglobalização: no dia 30 de novembro de 1999, em protesto contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Seattle (EUA), reuniram-se militantes das mais variadas correntes ideológicas, desde anarquistas e marxistas, até ecologistas, católicos progressistas, pacifistas e defensores dos direitos humanos, entre outros grupos, protestando contra os rumos atuais do processo de globalização.

Paralelamente, os Fóruns Sociais Mundiais, que passaram a acontecer a partir de 2001 (o primeiro foi em Porto Alegre) apontaram no mesmo sentido, mostrando que as reformas e ajustes propostos responderam mais às necessidades das grandes corporações transnacionais e do capital que às da sociedade como um todo.

A História tem demonstrado que a constituição de uma economia de mercado sólida em um contexto plenamente democrático e abrangente não é tarefa fácil. Neste período em que vivemos, cuja complexidade e velocidade das mudanças é inédita, torna-se um processo que exige uma compreensão profunda e uma disposição positiva diante dos desafios que se apresentam.

A MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL

No que respeita à interpretação socioeconômica, o termo “globalização” está relacionado à atuação das empresas multinacionais e à internacionalização da economia mundial. Dessa forma, processos de produção cada vez mais rápidos e dinâmicos, bem como a repartição internacional das etapas da produção entre diferentes países, dariam ao mundo uma nova face: o pós-fordismo[i] seria o responsável pela consolidação de uma economia baseada em processos integrados, um único e pulsante mercado global onde o capital, as mercadorias, os recursos e pessoas circulariam livremente.

Para efeito desta disciplina, vamos considerar a globalização como um processo que se dá a partir da aceleração de intercâmbios e fluxos entre os países do mundo, nos planos econômicos, políticos e social. Mais: dentre todos os planos sob os quais se apresenta, o econômico é o que nos interessa, especialmente no que reverbera em outros campos. Assim, a produção de mercadorias em determinados países significaria mais do que apenas a produção local, uma vez que os locais de produção escolhidos pelas empresas poderiam ser (e costumam ser) países diferentes daqueles nos quais está instalada sua sede principal, acarretando o que ficou denominado de mundialização da produção. Também é econômico o plano gerador da abertura nos países subdesenvolvidos que precisam do capital estrangeiro para se desenvolver e da maior participação do capital internacional, advinda de estratégias financeiras (em especial dos países desenvolvidos). É o plano que põe em xeque estruturas e costumes construídos e mantidos há muito, sobrepondo-se a eles e algumas vezes comprometendo a identidade cultural de muitos povos. “Assim, a globalização não significa apenas um processo de expansão dos mercados e de aceleração dos fluxos econômicos entre as fronteiras nacionais. Junto consigo, como um de seus efeitos, surge uma consciência de que valores morais e sociais fundamentais devem ser estendidos para todos os povos”. (BARBOSA, 2006, p. 12)

Dentro desse contexto, a realidade alheia nunca esteve tão próxima da realidade de qualquer cidadão do mundo, se esse tiver acesso aos meios de comunicação através dos quais se dá a disseminação dos acontecimentos mundiais. De fato, as interligações das empresas, das aplicações financeiras, das exposições da mídia e do fluxo de pessoas nunca afetaram tanto as pessoas, e os reflexos dos resultados da globalização podem ser observados em quaisquer países. A questão é a desigualdade com que isso se dá, podendo-se dividir nitidamente países entre aqueles cuja política interna afeta com mais peso as políticas de outros países, e aqueles que são geralmente mais afetados, fazendo desses últimos dignos da colocação de ‘marginalizados’ da produção intelectual, política e financeira internacional.

AS ESTRATÉGIAS DE MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL

A análise de várias fontes (estatísticas e históricas) nos revela que, a partir dos anos 1950, intensificou-se o processo de abertura do mercado internacional por países participantes da conjuntura globalizada. Este processo, qual seja, o de crescimento do comércio mundial, acelerou-se particularmente nos anos 1980 e 1990, o que nos leva a concluir que o incremento da atividade comercial pode caracterizar, senão um fato novo, algo de relevante importância e que explica a interpretação da globalização como sendo particularmente um fenômeno de características comerciais. Tal leitura está, portanto, irremediavelmente ligada à extinção de barreiras comerciais e práticas protecionistas e ao surgimento de grandes blocos comerciais.

Muito mais visível do que a dinâmica produtiva (e talvez até mesmo mais do que a comercial), a dimensão financeira da globalização é aquela que diz respeito ao processo de integração dos mercados financeiros (mercados de empréstimos, de financiamentos e de títulos).

Desde a Primeira Guerra Mundial, os fluxos de capital começaram a circular entre os países e, com mais evidência e de forma repentina, entre os anos 1950 e 1970 já se estabeleciam regras internacionais com relação à circulação de dinheiro global, parte desse fornecido pelo Banco Mundial. Em 1971, chegava ao fim o padrão dólar-ouro e aumentavam as oscilações de moeda, estimulando as aplicações especulativas. Desde então, as tais regras pretendem facilitar as transações de capital pelo mundo, principalmente no que respeita aos fundos de investimento e de pensão estabelecidos nos anos 1980. Os governos têm procurado elevar suas taxas de juros com o objetivo de atrair investimentos, e as empresas emitem bônus diretamente no mercado, fazendo com que o dinheiro circule com mais rentabilidade.

“Como num gigantesco sistema circulatório, o sistema financeiro ‘retira’ renda de todas as fontes – dos impostos, dos salários e dos lucros das empresas – sugando-a para aplicações consideradas mais vantajosas” (BARBOSA, 2006, p. 66). A novidade é a cada vez menor participação efetiva e necessária dos bancos, cujos papéis foram substituídos pelos órgãos de fundos de investimento e seguradoras.

Isso faz com que a preocupação de muitas empresas hoje em dia esteja voltada mais para o capital especulativo, valorizando suas ações, do que na produção em si, que depende da conquista de mercados e da aceitação do consumidor.

Nesse cassino especulativo, os derivativos são as fichas nas quais os aplicadores financeiros apostam, aplicadores esses que contam com as inovações tecnológicas para melhor acessar informações que permitam as jogadas certas e mais lucrativas. Além disso, o dinheiro também é global: as transações são facilitadas utilizando-se travellers cheques, moedas de referência ou mesmo moeda comum (como é no caso da União Europeia, que adotou o euro).

É o mercado do capital portador de juros que, conservando a forma dinheiro, viveria de rendimentos, tornando-se hegemônico. Tal dimensão explicaria, inclusive, a dinâmica especulativa do próprio capital, sempre em busca do porto mais seguro ou do terreno mais fértil (leia-se, que proporciona menores restrições na sua movimentação). É o mercado que cresce mais do que a economia real, que cresce mais do que o próprio comércio mundial, e que cria verdadeiras bolhas ilusórias de riqueza.

A necessidade de capital para investimento ou para fazer frente aos serviços de dívidas externas por parte dos países em desenvolvimento também cria a ilusão da “aldeia” monetária global: juros são mantidos em níveis elevados para atrair o capital especulativo, mesmo que esses juros comprometam mais ainda a estrutura do endividamento externo. Não à toa, vimos – ao final do século passado e no início desse – inúmeras crises que se assemelham nas origens e se diferenciam nos efeitos que provocam: México, Tailândia, Indonésia, Coréia do Sul, Brasil e Argentina são alguns que podemos citar. Vale a pena lembrar: “enquanto não existir uma autoridade global encarregada de implementa-la [a regulação dos fluxos financeiros internacionais] e as crises não afetarem os países mais poderosos, a esfera financeira tende a se expandir ainda mais, gerando instabilidade” (BARBOSA, 2006, pág. 73).

AS DIFERENTES DIMENSÕES DA GLOBALIZAÇÃO

A partir de 1990, a economia mundial ingressa em um novo patamar de internacionalização. O fim da URSS, em 1991, acabou com a divisão do mundo em dois blocos e as ideias neoliberais se tornam a tônica. Embora haja uma discussão em andamento a respeito da natureza e dimensões da economia global, não há dúvidas sobre a intensidade crescente de fluxos entre as nações. Assim, podemos afirmar que as evidências nos levam, a identificar pelo menos quatro diferentes dimensões do processo de globalização:

- A Globalização Comercial:

Desde a década de 1990 aumentou significativamente o volume de comércio internacional. Uma boa medida da globalização comercial é o coeficiente de abertura de um país, esse cálculo é feito a partir da participação do comércio exterior (Exportação + Importações) no total produzido mundialmente.

Em alguns países, os mercados internos continuam importantes, como por exemplo, China, Brasil e Japão. Nesses países em que grande parte da população ainda não conseguiu satisfazer suas necessidades de consumo, o espaço para o crescimento do mercado interno ainda é muito significativo.

A substituição do que é produzido no mercado nacional pelas importações indica uma maior universalização dos padrões de consumo e das tecnologias, mas, existe um perigo nessa conduta econômica que é um possível aumento do desemprego.

Abertura do mercado dos países subdesenvolvidos deu-se de forma unilateral, fundamentalmente por lideranças nacionais que queriam aumentar sua competitividade através das importações de bens de capital, mas não conseguiram sequer aumentar suas exportações na magnitude necessária na década de 1990.

Por outro lado os países desenvolvidos continuam a proteger os setores menos competitivos de sua economia, como o agrícola e têxtil, aumentando os subsídios e os mecanismos de controle de importações. Podemos então afirmar que a globalização atual manteve a mesma divisão internacional do trabalho, ou seja, países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento continuam a exportar produtos primários ou produtos de indústrias menos tecnológicas como, por exemplo, aço ou papel e países desenvolvidos continuam a ganhar muito mais na exportação de produtos de tecnologia mais sofisticada.

Temos que ter em mente que o mundo atual é muito diferente do mundo dos séculos XIX ou XX que continha dois grandes grupos de países: os centrais e os periféricos. Por exemplo, a Índia, que ainda hoje é um dos países mais pobres do mundo, com enormes índices de miséria, apresenta por outro lado uma sofisticada indústria na área de informática.

A globalização comercial afetou de forma diferenciada países desenvolvidos e subdesenvolvidos, não promovendo, pelo menos em uma primeira instância o fim das diferenças socioeconômicas entre países ricos e pobres.

- A Globalização Produtiva:

De uma maneira geral as empresas multinacionais costumam fazer investimentos em lugares onde os fatores de produção têm um custo menor. Os lucros são remetidos ao país de origem. Embora, seja inegável que essas empresas costumam trazer novas tecnologias e empregos. Para atrair empregos o governo de determinados países costumam inclusive oferecer grandes vantagens a essas empresas.

Existem diversos tipos de multinacionais: as que se dirigem para países mais pobres em busca de recursos naturais, minerais e energéticos mais baratos, outras tem como objetivo principal fornecer produtos para o mercado interno dos países onde fabricam mercadorias ou prestam serviços, outras ainda que distribuem suas filiais por alguns países em que os fatores de produção são mais baratos e que servem de montadoras do produto final para o restante do mundo.

Uma outra forma de investimento direto externo é a implantação de novas filiais dessas empresas fora do país de origem, uma empresa não pode sair de uma localidade de uma hora para outra, pois ela tem capital fixo, compromissos, contratos, etc.

Se as multinacionais têm atuação global, as suas decisões de investimento são tomadas levando em conta a existência dos blocos comerciais e a cultura local, afinal cada povo tem seus costumes e uma campanha de marketing em determinado local pode não ser adequado a outros locais, a exemplo dos países islâmicos em que as restrições de cunho religioso limitam uma série de imagens e alusões a bebidas alcoólicas, sexo, etc.

Com a expansão das multinacionais assistimos a uma crescente concentração de capital. Grandes empresas passam a se fundir, atualmente é mais comum as multinacionais preferirem, em vez de fazer novos investimentos, comprar empresas já existentes.

Entre os principais motivos para fusões e aquisições temos:

  • Aquisição de uma grande empresa facilita a entrada da empresa em um país, pois a tendência é reduzir custos de pesquisa de mercado e de produtos e de marketing.
  • Vantagens de financiamento, já que esses negócios são intermediados por agentes financeiros que querem lucrar com o negócio.

- A Globalização Financeira:

Desde 1944 com a mundialização do dólar feito no encontro de Bretton Woods, nos Estados Unidos, quando o dólar se tornou a moeda chave da economia mundial, em função da conversibilidade dólar-ouro, a esfera financeira passou a ser controlada por regras nacionais e internacionais.

Bretton Woods foi responsável pela criação do Banco Mundial e do FMI (Fundo Monetário Internacional) que fornecia o capital de longo prazo internacional. Em 1971 com o fim do padrão-ouro dólar, as moedas passam a oscilar, o que estimulava as aplicações especulativas.

A partir da década de 1980 leis são alteradas a fim de facilitar a transferência de capital de um país para outro, o dinheiro passa a se escoar e a procurar as melhores alternativas financeiras.

As empresas passam a valorizar mais as suas ações do que preocupar-se em conquistar mercados, como consequência há demissões. Os governos mantêm as taxas de juros altas para atrair investidores e manter controlada a inflação de seus países.

Os lucros financeiros na época superaram os lucros produtivos.

- A Globalização Tecnológica:

A partir da década de 1990 assistimos a evolução tecnológica, principalmente no que tange a área de comunicação de uma forma espetacular. A internet e a telefonia celular encurtaram fisicamente as distâncias. Porém não devemos pensar a tecnologia como um fim em si mesma, mas como um meio de se obter algo.

A esfera da tecnologia é em grande medida responsável pela concretização dos processos de globalização, ela não só encurtou distâncias, mas tem promovido verdadeira revolução social, econômica e cultural.

Temos, no entanto, que ter cuidado ao pensar que o mundo inteiro está conectado às novas tecnologias, boa parte do planeta ainda não tem acesso, ou tem acesso muito limitado a internet, telefonia móvel, ou até mesmo telefonia fixa. Isso representa uma enorme exclusão, populações que não tem acesso às novas tecnologias estão hoje mais excluídas do que antes desses avanços, ficando para trás de um processo de evolução econômica inexorável.

Created By
Lucas Campos Moura
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