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«Não nos ensinaram a cuidar da alma» Pablo d'ors

Entrevista conduzida por: Cláudia Sebastião | Fotos: Ricardo Perna

Pablo d’Ors é sacerdote e escritor. Nesta entrevista falamos da Associação Amigos do Deserto que criou e da sede atual de silêncio.

Na associação privada de fiéis Amigos do Deserto, pode vir a existir “monges” no quotidiano. O que é isso? Quem são os Amigos do Deserto?

Amigos do Deserto é uma rede aberta de meditadores, de pessoas interessadas em aventura interior. Todo aquele que quer fazer uma experiência de silêncio em princípio está convidado a entrar em amigos do deserto. Fazemos esta viagem ao interior com um veículo e esse veículo é o da tradição dos pais e das mães do deserto. Isto não significa que é uma associação só para cristãos. É para todos os que querem fazer uma experiência interior. O veículo é cristão. Queremos ser uma escola de meditação para todos. Pode haver cristãos e pessoas não cristãs. Ainda que tenha reconhecimento canónico, não é tanto um movimento religioso ou uma associação confessional. Quer estar na fronteira entre a Igreja e a sociedade, entre o mundo e Deus, para poder ser significativo para as pessoas que estão em busca hoje.

As pessoas de hoje têm sede disso? Do deserto, da profundidade?

Hoje não temos uma crise do Espírito. Mas temos uma crise do Filho e do Pai. Não temos crise de Espírito, porque efetivamente existe uma grande sede espiritual: sede de plenitude, o desejo de uma vida pura, de respeito ao mistério, de busca do essencial está no ser humano. A vida consumista ou materialista não matou, em muitas pessoas, este desejo profundo. Porém há uma crise de Filho, ou seja uma crise do caminho, e uma crise do Pai, uma crise da fonte, de onde ir. As pessoas querem ir a algum lado, mas não sabem como nem para onde. Por isso, insistimos que não basta ir ao deserto, mas faz falta ir ao deserto interior guiado e acompanhado, com mapas e companhia. Se vais sozinho, sem guia, sem mapa e sem companhia, o mais provável é que te percas. Mas se vais com companheiros e com mapas, talvez consigas chegar a algum sítio.

Pablo d'Ors esteve em Portugal para o lançamento do livro O Amigo do Deserto, pela editoral Quetzal. Esta obra foi publicada há já vários anos em Espanha, mas chega agora a Portugal.

«É isto precisamente o que o deserto ensina: caminhar pela terra e parar onde houver água, e assim um dia após outro até chegar o momento em que se descobre que não só se ama o oásis como também o próprio caminho: ama-se a areia, a dificuldade.»

Como se liga esta sede de deserto com a diminuição dos crentes, sobretudo católicos? A Igreja consegue chegar a estas pessoas?

Creio que muito pouco. O prestígio da espiritualidade hoje cresceu graças ao desprestígio da religião. Quer dizer que a religião por muitos fatores entrou em descrédito no ocidente, mas isso não significa que não exista sede espiritual. Muitas pessoas procuram no ioga, no zen ou em mindfullness o que não encontram em paróquias ou em centros eclesiais. Isso significa que há uma sede. Mas a Igreja institucional não soube, não soubemos responder a esse dilema pastoral. Isso é muito claro.

E qual a resposta? Como ir ao encontro destas pessoas?

A resposta para nós é sempre Deus. O problema é como tornar Deus acessível e o que é isso de Deus. A palavra “Deus” tem já muito desprestígio na mentalidade de muitos europeus. Converteu-se num tabu, não se pode dizer em contexto público. Que se quer dizer quando se diz “Deus”? Muitas vezes teríamos de o traduzir e falar do ser. Todos queremos que a nossa vida não seja simplesmente ter, poder e fazer. Damo-nos conta de que, às vezes, podemos não poder nada, não ter nada, não poder fazer nada, mas continuamos a ser. O ser aponta para o essencial. E Deus é o essencial. Se trabalharmos mais desde esta perspetiva do ser, talvez as pessoas que se afastaram comecem, pouco a pouco, a reconciliar-se com a sua tradição. Temos essa experiência em Amigos do Deserto.

Qual a origem deste afastamento e tabu de que fala?

Nós somos fruto de uma época, que é a época de Freud, em que de alguma maneira se matou o pai. Significa que se acabou com a autoridade, com o princípio hierárquico. Se não há pais, não pode haver filhos. Se não há mestres, não pode haver discípulos. Se não há discípulos, não pode haver aprendizagem espiritual. É o grande drama: como não temos pais, deixamos de acreditar em Deus e na autoridade, somos uma geração de órfãos. O problema no Ocidente é este: hoje somos todos órfãos.

O mais urgente, na minha opinião, não é que as pessoas voltem à Igreja. O mais urgente é possibilitar que as pessoas se reconciliem com o seu passado espiritual. Se tu tens um problema com os teus pais, e sofres com isso, o problema tem-lo tu e não eles. Quer dizer que tu tens de trabalhar isso, ver como encaras isso. Não deixam de ser teus pais, vão sê-lo sempre. Eles são como são. O que acontece a nível biológico é o que nos deveria acontecer também a nível espiritual. Podes não gostar do teu passado espiritual. Podes pensar que a Igreja fez coisas horríveis. Mas são os teus pais, é o teu passado espiritual. Não quer dizer que tenhas que santificar tudo o que ela fez. Mas tens de reconhecer que é o teu passado. Se renegas o teu passado, renegas-te a ti mesmo. É o que está a acontecer. Renegamos o nosso passado e não sabemos quem somos nem onde estamos.

A principal tarefa pastoral é mostrar que o passado espiritual, ainda que esteja cheio de coisas obscuras, também esteve cheio de coisas bonitas e maravilhosas e que Cristo é património universal da Humanidade. Há uma comunhão com o património espiritual cristãos gradual. Alguns, porque somos cristãos identificar-nos-emos com 80%, 90%. Outros com 30 ou 40, outros em 20%. Todos vimos deste foco de luz que é a tradição grega e judeo-cristã. Não reneguemos as nossas origens. Esta é a ação pastoral que creio que devemos fazer.

Em Amigos de Deserto só fazem os 25 minutos por dia de silêncio?

Temos um retiro de iniciação para os que querem começar. É num fim de semana. Os que vivem esse retiro e querem continuar dividimo-los em grupos a que chamamos seminários de silêncio, que são grupos de prática de silêncio semanal. Quando alguém começa, propomos 25 minutos. Se continuas e te sentes muito identificado e queres fazer-te sócio, colaborar, ajudar, comprometer-te, convidamos-te a fazer dois minutos: um de manhã e outro pela noite, de 25 minutos. E fica por aí. Há alguns, oito ou dez pessoas, que querem fazer disto um estilo de vidas. Esses têm três momentos de silêncio por dia e algumas coisas mais. Em Amigos do Deserto, há os iniciados (um momento de silêncio), os associados (dois) e aos consagrados (três).

Em Aveiro, há um grupo que segue Amigos de Deserto. Estará lá estes dias. A associação está onde?

Está a crescer. Em Espanha, temos 50 grupos e há mais ou menos 500 pessoas que se reúnem em vários sítios. É muito em seis anos. Em Portugal, há este pequeno grupo em Aveiro que está a começar. Há um grupito em Amesterdão e há dois pequenos grupos em Itália. E há seis grupos no México.

E como vê isso a acontecer em apenas seis anos?

Um milagre, um milagre… Vejo-o como um presente que Deus nos deu. Também com uma certa responsabilidade, porque tudo isto nasce de certa forma do meu trabalho pastoral e literário. O que sinto fundamentalmente é que há algo novo que quer nascer. Ainda que seja muito modesto. São muitas pessoas, mas é pouco no conjunto de tudo. É modesto e uma semente humilde que quer nascer. Em que consiste essa semente? Consiste em fomentar a prática do silêncio. Por exemplo, os monges recitam os salmos; as mães de família cuidam dos seus filhos. Os Amigos do Deserto querem fundamentalmente estar em silêncio a sós com Deus que nos ama, na nossa vida ordinária. Não queremos ir para um mosteiro. Queremos na nossa vida ordinária criar espaços que o possibilitem. Eu falo de fuga mundi intermitente. Vamo-nos embora meia hora todos os dias, retiramo-nos do mundo e depois voltamos. E cada mês retiramo-nos um dia completo e voltamos. E em cada trimestre um fim de semana e voltamos. Cada ano uma semana e voltamos. É o ritmo da respiração: inspirar e expirar. Inspirar é retirar-se do mundo. Expirar é voltar. Se estás sempre a entregar-te, se nunca te recolhes, queimas-te. A Igreja queimou-se porque fechou-se em chave de ação, em chave de compromisso, em chave de ética, mas a ética sem a graça não se sustém.

Pablo d’Ors nasceu em Madrid, em 1963. É neto do célebre crítico de arte espanhol Eugenio d’Ors. Fez estudos em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América e na Alemanha. Aí foi discípulo do monge e teólogo Elmar Salmann. Ordenado sacerdote em 1991, esteve em missão nas Honduras. É doutorado em Teologia com a tese «Teopoética – Teologia da Experiência Literária». É professor de Teatro e Literatura, dirige um laboratório de escrita criativa e é capelão de um hospital. Fundou a associação privada de fiéis Amigos do Deserto. Pelo seu trabalho como escritor recebeu o Prémio Celestina (1988) e foi finalista do Prémio Herralde (2000).

Foi compreendido pela Igreja institucional? É diferente o que propõe…

A proposta talvez seja difícil de entender, porque tenho a impressão de que o que fazemos em Amigos dos Desertos é muito conservador para os progressistas e muito progressista para os conservadores. Os progressistas sempre querem falar de ação social, de luta contra as injustiças e nós não abordamos isso diretamente. É essencial a compaixão, são essenciais as vítimas, mas nós pensamos que ao faminto há que dar-lhe pão. Mas ao homem ocidental médio há que dar-lhe silêncio. É a necessidade de quase todos os europeus, que não têm necessidade já de teto, de pão. A principal necessidade é esta.

Amigos do Deserto nasce para oferecer a todo o que deseje espaço e tempo de silêncio. Porque é importante? Porque as pessoas não são capazes de o procurar por si mesmas. Sozinho é muito difícil que sejas capaz de fazer um silêncio fecundo. Tens de encontrar companheiros e chaves para que esse silêncio seja interessante e se chegue a algum sítio. É como o ginásio físico. Podes ter uma bicicleta em casa, mas inscreves-te num ginásio porque sabes que é um estímulo para cuidares do corpo. A alma é o mesmo. Não nos ensinaram a cuidar da alma. Ou ensinaram-nos de uma forma infantil, que está bem quando és criança, mas quando és adulto precisas de um alimento mais sólido. Perguntavas-me se fui entendido… [Pausa grande] Digo a verdade: de momento estou a ser tolerado. E isso já é muitíssimo. Na verdade, não peço mais. Se me deixam atuar, já fico contente.

Há muitas pessoas muito contentes. E muitas também, talvez até mais, que não lhes parece bem. Não lhes parece bem, porque pensam que a nossa abordagem é muito próxima do budismo e portanto não genuinamente cristã; porque desconhecem que existe uma tradição de silêncio e de quietude no cristianismo e porque não nos conhecem. Pensam que somos gnósticos. Se nos conhecessem, veriam que tem havido conversões entre nós, que é uma pastoral de aleijados, uma pastoral espiritual e não social; que centenas de pessoas que nunca tinham lido o Evangelho agora leem-no; alguns começaram a ir à Missa e nunca tinham ido. O objetivo não é levá-los à Igreja. O objetivo é ajudá-los a fazer a experiência interior. Nós sabemos que dentro está o Espírito. E eles vão-no sabendo existencialmente. Alguns também nominalmente põe-Lhe esse nome. O importante não é tanto o nome que damos, mas que tenhamos a experiência de Deus.

O Papa Francisco tem chegado a muitas pessoas pelo modo simples como fala. É uma mudança de modo de falar da Igreja, uma mudança na linguagem?

Oxalá fosse uma mudança de linguagem da Igreja. Não sou tão otimista. Creio que é uma mudança de linguagem do Papa. E já é fundamental. Porque o Papa é a figura mais importante da Igreja, no sentido de ser mais influente. Creio, sim, que terá havido uma mudança e que influencia a Igreja, mas não é por isso que toda a Igreja mudou. O êxito do Papa é que é um Papa num mundo sem pais. E por fim alguém atreve-se a ser pai e é-o de maneira espontânea, natural, a partir do amor. Esta linguagem mais direta, mais límpida, mais desenfadada é fecunda.

A grande intuição deste Papa é entender que a Igreja é um hospital de campanha. Significa isto que dentro [dela] não estamos os bons. Dentro da Igreja estamos os que precisam de ir ao hospital. Estamos doentes, temos problemas, estamos escurecidos. Há gente que me pergunta “mas Amigos do Deserto são todas pessoas com vocação contemplativa?”. Mais quereria eu… É um hospital de campanha! São pessoas com feridas, que têm problemas, que procuram e não encontram, que têm situações matrimoniais confusas, problemas laborais, gente que necessita. Um hospital… e o extraordinário é que a meditação e a oração cura-nos. Tem essa função purificadora. Nem tudo se fica em curar-nos, mas também em iluminar e ajudar outros. Mas primeiro curar o que temos.

Como vê as mudanças que há na Igreja com o Papa Francisco?

A principal é que o mundo laico, não crente, tem uma visão mais positiva da Igreja. Há um segundo movimento importante é que tem havido mudanças de pessoas nas estruturas da Igreja. Agora os responsáveis máximos são diferentes do que eram há cinco anos. Isso significa que pode haver uma mudança de orientação. O Papa preocupou-se em mudar a orientação da Igreja desta forma. Em terceiro lugar, assim como o Papa anterior era um Papa fundamentalmente teológico, este é um Papa fundamentalmente social. Tem sido muito positivo.

Crê que estas mudanças vão permanecer?

Se Deus quiser, permanecerão. E se os homens permitirem. Tudo está preparado para que realmente esta linha pastoral permaneça. Mas a história não está só nas mãos de Deus. Também está nas nossas mãos e se o possibilitamos. O meu desejo é que permaneça. Mas não sei se permanecerá.

Qual a diferença substancial deste pontificado em relação a outros? Este é um pontificado de diálogo e não de alternativa. Na realidade estes dois são as abordagens pastorais fundamentais: podes acreditar na alternativa ou podes crer no diálogo. Alternativa quer dizer “o mundo não está bem, nós cristãos temos uma alternativa que é Cristo e o mundo tem de vir para a Igreja para compreender que isto é o que é bom”. Diálogo consiste em dizer que “o mundo tem muitos problemas, mas também coisas muito boas”. Nós cristãos temos Cristo que é o melhor do mundo, mas também temos coisas más, então vamos dialogar para encontrar-nos e chegarmos juntos ao melhor de cada um. Este Papa tem esta vontade de diálogo com o mundo, enquanto outros Papas tiveram mais claro o conceito de alternativa. São conceitos, claro, resvaladiços. Mas creio que nos dão uma clara ótica de por onde vai a pastoral.

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FAMÍLIA CRISTÃ