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É DIFERENTE Torcedores do Botafogo contam histórias de amor que ninguém pode calar

“Futebol: esporte, cujas partidas são disputadas por duas equipes de 11 jogadores, em que é proibido (exceto aos goleiros, quando dentro da sua área) o uso dos braços e mãos, e cujo objetivo é fazer entrar uma bola no gol do adversário”. Para quem acha que futebol é só um jogo, talvez, a definição do dicionário pareça clara, completa e suficiente. Para os torcedores fanáticos, nem mesmo todas as palavras do dicionário seriam capazes de expressar o que é o mundo do futebol.

Apaixonado pelo Botafogo, Shannon Ribeiro tem certeza que é muito mais do que uma simples partida ou, como alguns dizem por aí “um monte de gente correndo atrás de uma bola”. Com o tom de voz de quem fala de um grande amor, ouvir o torcedor contar sobre o time do coração gera uma pergunta: nasceu botafoguense ou já o era antes mesmo de nascer? Para ele, a resposta é óbvia: “Desde que eu me conheço por gente eu torço pelo Botafogo. Eu nasci botafoguense”, afirma sem titubear. Por influência da família, ele cresceu vendo os jogos do Botafogo e, mesmo pequeno, já queria estar nos estádios.

Shannon, com 7 anos, ao lado do ex-jogador Juca, em um treino do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)

Torcedor apaixonado, hoje com 20 anos de idade, ele lembra bem da primeira final que assistiu no estádio. “Foi em 2006, contra o Madureira. O primeiro jogo, o Botafogo ganhou por 2 x 0, e o segundo por 3 x 1”, conta pausadamente, como quem vasculha na memória as imagens de um dia inesquecível. Ele não parou mais. Membro da Torcida Jovem do Botafogo, Shannon é conhecido no meio. O jovem acompanha o time sempre que pode e dificilmente perde um jogo. “Como eu tenho um reconhecimento na internet, como eu estou sempre nos estádios, eu acabo sendo reconhecido. Por sempre postar foto, o pessoal me conhece”, conta.

Se, por um lado, o reconhecimento representa um lugar especial, por outro, já foi motivo para uma situação que poderia não ter acabado bem. Durante um jogo de basquete, no Tijuca Tênis Clube, contra o Flamengo, com torcida única para o rubro-negro, torcedores do Botafogo tentaram entrar na quadra. Para conter a invasão, flamenguistas foram para fora do ginásio, o que causou um tumulto generalizado. Com o clima pesado, Shannon, que já estava do lado de dentro com um amigo flamenguista para fazer um trabalho, foi reconhecido como botafoguense e a torcida adversária acreditou que ele estava ali como torcedor infiltrado. “Como fui reconhecido, quase entrei no meio da roda. Minha sorte foi que o pessoal do Botafogo também me conhecia e aí eu acabei me protegendo no vestiário”, lembra. Apesar disso, a triste cena não prevalece sobre o palco do esporte, que segue repleto de emoção, vida e alegria.

Para além do futebol, já dizia o hino popular do clube carioca: "Noutros esportes tua fibra está presente". O amor pelo futebol claramente chama a atenção, mas outras modalidades também têm espaço na vida de um torcedor fanático como Shannon, desde que respeitem uma condição: levantar a bandeira do Botafogo. Ele já acompanhou, por exemplo, o futsal do clube e o time de vôlei, o qual encerrou as atividades por não ter condições financeiras para continuar. Mais recentemente, desde 2017, o basquete também mexe com o coração do torcedor. “Eu vou pra sede do Botafogo, que é no estádio General Severiano, vou pra Arena Carioca, quando tem jogo lá, e pro Tijuca Tênis Clube”, conta.

A relação de fidelidade da torcida para com o clube impressiona, sobretudo, pelo fato de o Botafogo ter ganhado poucos títulos ao longo de sua história, se comparado a outros clubes. Shannon é prova de que a torcida se mantém fiel e apaixonada, mesmo vendo os rivais ganhar. “O que mais me encanta no time é que ele é grande por natureza. Mesmo não tendo uma vasta galeria de troféus importantes, o Botafogo é grande pela história dele, pelo que ele fez pela Seleção Brasileira, pelo futebol brasileiro. O Botafogo de Garrincha era seleção em formato de clube”, conta o jovem cheio de orgulho.

Quando o assunto é o sentimento pelo clube, as palavras faltam, como se não fosse possível definir o que significa torcer para o Botafogo. É uma mistura de orgulho do passado com uma alegria futura que já pode ser sentida, ambos regados pela fidelidade dos torcedores, que fielmente acompanham o time, mesmo sem ganhar um título expressivo há muito tempo. “Eu tenho paixão, amor, de esperança por um futuro melhor. Esse sentimento ninguém entende, é um sentimento inexplicável. É um clube diferenciado”, conclui.

Shannon no Estádio Luso Brasileiro, na Ilha do Governador, casa temporária do Botafogo, quando o Estádio Nilton Santos foi utilizado nos Jogos Olímpicos de 2016 (Foto: Arquivo Pessoal)

Talvez, a incapacidade de explicar o sentimento pelo clube do coração já diga muito sobre o que se sente. Em meio a falta de palavras, que, mesmo ausentes, transbordam em significado, também havia muito o que lembrar e contar. “Exagerei nessa última!” são as palavras finais de uma entrevista que foi desse jeito, exagerada de paixão pelo Botafogo. Afinal, uma grande história de amor é assim, difícil de parar de contar.

Botafogo: meu amor antigo

Não saber de onde vem essa paixão desenfreada pelo Botafogo parece ser um requisito básico para ser torcedor do clube. “Eu não sei porquê sou botafoguense, mas sei que o botafoguense não escolhe, ele é escolhido. No meio de milhões de pessoas, a estrela vai lá e puxa um: é esse aqui”, conta Ramirez Almeida, torcedor fanático do time.

Aos 52 anos, e de forma bem humorada, ele parece já ter se convencido de que o torcedor do clube está fadado ao sofrimento. “Essa pessoa é diferente, é escolhida para sofrer, para passar raiva, para passar tudo que é dificuldade em matéria de torcedor de futebol”, explica. Ser botafoguense é misto de sensações, é amar e sofrer na mesma medida. “É uma doença boa, que não tem cura. Ela vai se agravando com o passar do tempo. O Botafogo representa muito para mim. Eu vou em todos os jogos”, comenta.

Ele, que não perde uma partida, lembra da primeira que assistiu, que foi entre Botafogo e Portuguesa, em São Januário. Sem conseguir contar exatamente de quantos jogos já participou, ele arrisca um palpite: “Eu acho que uns mil. Não tem time no Brasil que eu não tenha assistido jogar contra o Botafogo”, brinca. A admiração pelo time é tanta que, quando está em um jogo, o torcedor chega a pensar que, se ele morrer, aquela poderia ser a última vez que veria o time jogar. “Será que hoje é a minha última vez?”, questiona.

Apesar dos sofrimentos com o Botafogo, Ramirez afirma que, hoje em dia, vê muitos torcedores cobrando títulos sem observar que a situação do time ainda é melhor do que há um tempo. “Eles não têm a mínima noção do que eu passei na minha infância sendo torcedor do botafogo, sem conquistar um turno de campeonato carioca”, lembra.

Se nada mudou com relação à espera dos botafoguenses por títulos com mais expressão, as condições para assistir os jogos são muito melhores do que antes. “O estádio é lindo, de primeiro mundo, tem transporte, comunicação e carteirinha de sócio-torcedor”, comenta animado, enquanto lembra as diversas vezes em que assistia os jogos em Marechal Hermes, sentado em uma tábua com prego e farpa. “A gente não sabia se ia cair de um degrau para o outro”, conta.

Cadeira que leva o nome de Ramirez no Estádio Nilton Santos (Foto: Arquivo Pessoal)

Sócio torcedor há 10 anos, desde que o plano foi lançado, Ramirez espera que seu time melhore, que venham jogadores mais bem preparados, além de mudanças internas, as quais podem ajudar bastante o clube. “Todo mundo tem torcida para lotar estádio. Basta ter time, ter vontade e mostrar empenho. Estou com 52 anos e espero com 104 ainda estar sentado lá, torcendo para o Botafogo”, conclui.

Foto do banner: Vitor Silva (BFR)

Credits:

Caio Almeida, Júlia Ramos e Thatiana Cordeiro. Foto do banner: Vitor Silva (BFR)