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José Goldemberg e a criação da International Energy Initiative

José Goldemberg, cientista e intelectual brasileiro, é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos principais defensores das energias renováveis nos países em desenvolvimento. Em certo momento de sua trajetória, seu caminho enquanto pesquisador se confunde com a história da International Energy Initiative (IEI), ONG que ele criou ao lado dos pesquisadores Thomas B. Johansson, Amulya Reddy e Robert H. Williams. O time, inclusive, foi laureado com o Prêmio Ambiental Volvo em 2000, considerado o Nobel das Ciências Ambientais.

Nesta página trazemos uma homenagem à trajetória deste cientista brasileiro em sua busca por um mundo mais sustentável, mostrando seu papel fundamental para a criação da IEI Brasil, da qual é fundador emérito. Seus ideais enquanto pesquisador se cruzam com o objetivo da IEI, que procura avançar nos debates sobre energia, equilibrando eficiência econômica, equidade social e sustentabilidade ambiental.

Ao falar de Goldemberg, estamos falando de um homem polivalente. Ele foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da CIência (SBPC), reitor da Universidade de São Paulo (USP), Secretário de Ciência e Tecnologia da Presidência da República e, recentemente, se tornou professor emérito da USP, entre outros cargos de destaque.

Sua atuação enquanto cientista foi reconhecida mundialmente por meio de prêmios internacionais como o Planeta Azul, da Asahi Glass Foundation, do Japão -- o mais importante da área de meio ambiente, e o Zayed Future Energy Prize, dos Emirados Árabes.

Nascido em 27 de maio de 1928 na cidade de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, ele é o quarto filho de Jacob e Bertha Goldemberg, imigrantes judeus que vieram da Rússia. Casado pela segunda vez, pai de quatro filhos e avô de seis netos, em agosto de 2015, aos 87 anos, José Goldemberg foi nomeado presidente da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O ENCONTRO DA "GANG OF FOUR"

Apesar de todo o reconhecimento adquirido ao longo dos anos, Goldemberg afirma que, no início da carreira, se considerava “um físico nuclear totalmente convencional”. O intelectual brasileiro explica: “Eu fazia pesquisa em física nuclear e o meu sonho era publicar na [revista] Physical Review”.

No entanto, ele tem a percepção de que, na década de 1970, enquanto, no Brasil, estava instaurada a ditadura militar, houve um despertar maior para o papel social da ciência. “Naquele período, naturalmente, muitas pessoas acabaram sendo envolvidas no turbilhão político e institucional da época, porque era um período de exceção, e a gente acabou sendo atraído por preocupações que não eram de apenas fazer ciência pela ciência”, afirma.

De fato, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o final da década de 1960 e início de 1970 foi um marco na área ambiental em todo o mundo. Em 1962 o movimento ambientalista foi impulsionado com a publicação do livro “A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson. A obra trouxe um alerta sobre o uso de pesticidas químicos sintéticos na agricultura. Com o crescimento da preocupação com a sustentabilidade e o uso saudável do planeta, em 1972 a ONU realizou a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo (Suécia).

Goldemberg lembra que, nesse período, seu interesse como físico na atividade nuclear foi diminuindo. “Em 1977, por razões pessoais, devido à atmosfera difícil que estava ocorrendo no Brasil, com o regime militar, resolvi passar um período nos Estados Unidos. Eu já tinha trabalhado por lá, em outras instituições. Mas, desta vez, fui para a Universidade de Princeton. Lá era um lugar onde as pessoas trabalhavam na área de energia, no que hoje é considerada energia e ambiente. Era um lugar pioneiro para isso, onde esses princípios sobre eficiência energética foram estimulados pela primeira vez”, relembrou.

Mais tarde Goldemberg se tornaria um membro atuante da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da qual foi depois presidente, entre 1979 e 1981. Ele também presidiu a Associação Brasileira de Físicos (ABF) de julho de 1975 a julho de 1979.

Para o pesquisador, Princeton foi o cenário de um encontro marcante. “É que estavam, naquela ocasião, também em Princeton fazendo estágio, um professor de uma universidade sueca (University of Lund, Suécia), Thomas B. Johansson , e um professor da Índia, de Bangalore, que era o professor Amulya Reddy. Todos nós trabalhávamos em um grupo que existia na universidade, no centro de energia e estudos ambientais, que era coordenado por Robert H. Williams ”. O acontecimento marcaria para sempre as carreiras dos quatro cientistas e formaria as bases da International Energy Initiative.

Goldemberg definiu aquela ocasião como “absolutamente excepcional”. Ele explica: “Bom, porque tinham dois representantes de países industrializados: dos Estados Unidos, que era o Williams, e da Suécia, que era o Thomas; e dois que vinham de países em desenvolvimento, o Amulya e eu, da Índia e do Brasil, que eram e que são os países em desenvolvimento mais importantes do mundo, que têm maiores possibilidade, maiores desafios”.

Goldemberg, Williams, Johansson e Reddy em Princeton (EUA), 1978

Não demorou muito para que os quatro cientistas, grupo que Goldemberg chama de “gang of four” (a “gangue” dos quatro), percebessem que havia ali um interesse comum de pesquisa, de ideais e de preocupações sociais. Eles também constataram que havia certa dificuldade de comunicação entre os pesquisadores de países em desenvolvimento que gostariam de trabalhar com os temas ligados à energia e meio ambiente, já que não havia uma rede de contatos bem estabelecida para isso.

Ao longo dos anos, a amizade e a parceria entre esses quatro pesquisadores cresceu e trouxe contribuições relevantes para as pesquisas ligadas às energias renováveis, à eficiência energética e à sustentabilidade. Um dos frutos mais conhecidos talvez seja o livro “Energy for a Sustainable World” lançado em 1988.

Goldemberg avalia que a obra teve um impacto grande na área de energia, já que ela trouxe um novo paradigma para o setor energético. Essa percepção foi reforçada pelo reconhecimento do Prêmio Volvo 2000, que premiou os quatro pesquisadores, destacando sua contribuição com a publicação do “Energy For a Sustainable Development”.

Uma das grandes contribuições dos quatro pesquisadores é a popularização do conceito de "leapfrogging", o salto tecnológico na área de energia. Eles argumentaram que países em desenvolvimento não precisavam passar pelo mesmo caminho tecnológico dos países desenvolvidos, podendo dar “saltos” tecnológicos se utilizando de processos mais eficientes.

Em uma entrevista à revista Pesquisa Fapesp, Goldemberg citou alguns exemplos desse "salto tecnológico", como o telefone celular, que, com a instalação de uma antena, pode atender a uma região rural com menos custos, se comparado com a telefonia fixa, que precisa de cabos e leva mais tempo se implementar sua infraestrutura. Outro exemplo apontado na entrevista foi a questão do álcool: "O Brasil desenvolveu um combustível renovável para substituir a gasolina. Não estamos repetindo a trajetória do passado." afirmou.

Para o pesquisador, desde a criação da IEI e o lançamento do livro, muita coisa mudou no debate sobre o cenário energético mundial:

Além do encontro da “gang of four”, outro acontecimento também marcaria a carreira de Goldemberg. Em 1978, um artigo seu foi publicado pela revista Science, no qual ele demonstrava que o uso de biocombustíveis produzidos a partir da cana-de-açúcar poderiam reduzir a utilização de combustíveis fósseis no Brasil. Sua visão demonstrava os benefícios que essa atitude poderia trazer ao meio ambiente, deixando clara a sua preocupação com a utilização de energias renováveis. A partir daí Goldemberg se consolidaria como referência internacional no setor de meio ambiente, energias renováveis e eficiência energética.

Página da revista Time, que destacou Goldemberg como um dos heróis do meio ambiente em 2007

A CRIAÇÃO DA IEI

Ao longo dos anos, Johansson, Amulya Reddy, Robert Williams e Goldemberg perceberam que suas preocupações sociais e ambientais aumentavam. Desta percepção nasceu o desejo de criar uma ONG que funcionaria também como uma rede, uma comunidade. Essa ideia foi fortalecida após a publicação de "Energy for a Sustainable World".

“Nós achamos, então, que foi uma ocasião apropriada para criar o IEI, o International Energy Initiative, que encorajaria cientistas, não necessariamente apenas físicos, mas engenheiros, cientistas da área de biologia, a se preocupar com problemas de energia e ambiente”, relembra o pesquisador brasileiro.

A ONG foi oficializada em setembro de 1991, nos Estados Unidos. Goldemberg explica que a IEI foi concebida com base em alguns pilares:

A IEI, enquanto ONG, teve papel importante no financiamento e no auxílio de pesquisas em países em desenvolvimento. Isso foi possível porque foram criados escritórios regionais, como explica o professor Goldemberg:

Os fundadores da IEI quando receberem o Prêmio Ambiental Volvo, em 2000

Goldemberg acredita que, hoje, a principal missão do IEI no Brasil é não deixar que o nosso setor energético se carbonize.

“Olha, o Brasil tem uma matriz energética muito atraente, viu. Porque cerca de 45% é energia renovável. O problema não é avançar, o problema é retroagir”, analisa.

A REVISTA ENERGY FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT (ESD)

Ao longo de suas pesquisas, o grupo percebeu que não havia muito espaço para que cientistas de países em desenvolvimento publicassem seus artigos. Na época, os quatro fundadores da IEI se comunicavam por boletins e cartas e os encontros ocorriam em eventos do setor. Até que eles perceberam que haviam mais pessoas interessadas em publicar suas pesquisas na área de energia e ambiente com foco naqueles países:

De fato, passaram-se alguns anos até a publicação nascer, em maio de 1994. A revista, hoje, recebe artigos de pesquisa sobre energia em países em desenvolvimento, recursos energéticos, desenvolvimento sustentável, políticas e tecnologias, e é publicada por meio da Elsevier, uma das editoras líderes do mundo.

Goldemberg ressalta que a ESD tem se consolidado como uma referência na área de energia e sustentabilidade, lembrando que seu Fator de Impacto (FI) 2016 subiu para 2,790. “Ela está chegando perto de publicações importantes”, ressaltou.

O cientista brasileiro chegou a criar, entre 2012 e 2014, o Amulya K.N. Reddy Prize - Best Paper, com o objetivo de premiar os artigos submetidos à revista que promoviam os objetivos da IEI e que continuavam os ideais de trabalho do professor Reddy, falecido em maio de 2006. A doação para a premiação foi oferecida pelo próprio Goldemberg.

“Logo depois que recebi o "Zayed Furture Energy Prize" ofereci US$ 5.000 dólares para premiar os melhores dos trabalhos publicados a cada ano no ESD como homenagem ao Amulya. A doação foi feita durante três anos e depois parou por falta de interesse dos editores”, explica.

A IEI Brasil

Aqui no Brasil, a história da IEI começou nos anos 1990, quando o escritório regional para a América Latina estava sediado na Universidade de São Paulo (USP). Gilberto Jannuzzi, professor do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), atualmente diretor executivo da IEI Brasil, conta um pouco da história da instituição:

Em 2001, José Goldemberg transferiu a diretoria executiva para Jannuzzi . Com isso, a sede física da IEI-LA migrou para o Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (NIPE) da Unicamp. Em agosto de 2016, o escritório regional da América Latina se transformou em IEI Brasil, da qual José Goldemberg se tornou fundador emérito.

A mudança no estatuto trouxe mais autonomia para a instituição, conforme explica o professor Jannuzzi:

Desde então, a IEI Brasil realiza pesquisas focadas na utilização de energias renováveis e de eficiência energética no Brasil. A instituição mantém os pilares estabelecidos por José Goldemberg e pela “gang of four”, com o objetivo de contribuir para a construção de um mundo mais sustentável.

***Todo o texto e o material audiovisual presentes nesta página foram levantados no acervo pessoal de José Goldemberg, bem como em uma entrevista com o cientista realizada pela jornalista Sarah C. Schmidt na sede da FAPESP, em São Paulo, dia 05 de julho de 2017. Texto e diagramação: Sarah C. Schmidt

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