Adoráveis homens da neve Há 50 anos a América do Sul sediou pela primeira - e única - vez um mundial de esporte de inverno. O Brasil esteve lá e começou sua jornada nas modalidades de neve

Por Gustavo Longo, do Brasil Zero Grau

Não é raro encontrar pessoas que, ainda hoje, se surpreendem ao descobrirem que o Brasil participa com afinco dos Jogos Olímpicos de Inverno. A falta de neve e, sobretudo, a baixa representatividade dessas modalidades esportivas certamente ajudam a fortalecer esse cenário. Contudo, não é de hoje que o nosso país participa dessas competições. A história do Brasil nos esportes de inverno é bem antiga e completou 50 anos em 2016.

Em 1966, pela primeira – e única – vez, um Campeonato Mundial de Inverno aconteceu no hemisfério sul. Mais precisamente no resort de Portillo, no Chile. O pequeno país sul-americano desafiou a lógica e os interesses de nações mais poderosas, inverteu o calendário esportivo e conseguiu trazer o Mundial de Esqui Alpino daquele ano para o continente. Esse fato provocou transformações em muitos países, inclusive o Brasil. Aqui, um alpinista renomado e pioneiro em gestão esportiva, vislumbrou uma oportunidade única para colocar os atletas brasileiros no mapa das modalidades de neve.

Domingos Giobbi tinha 41 anos na época e já era considerado um dos principais montanhistas brasileiros, sendo fundador do Clube Alpino Paulista (CAP) em 1959. Descendente de italianos, ele também era apaixonado pelo esqui alpino e sempre praticava o esporte em suas viagens pela Europa e América do Sul. Quando o Chile ganhou a sede do Mundial em 1964, ele solicitou uma autorização ao Conselho Nacional de Desporto para levar uma delegação brasileira à competição.

“Ele obteve, naquela ocasião, uma autorização especial para participar do campeonato pelo Clube Alpino Paulista (CAP), do qual também foi fundador, uma vez que não existia na época uma entidade que administrasse esses esportes no país”, relembra Stefano Arnhold, atual presidente da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve).

Até os anos 1950, o esqui alpino era visto no Brasil como uma diversão para quem poderia viajar à Europa ou aos resorts da América do Sul. O primeiro relato de um brasileiro nesse esporte foi justamente com Santos Dumont. O pai da aviação era praticante assíduo e criou, em 1928, uma máquina motorizada que auxiliava os esquiadores a subirem a montanha. Depois, na Segunda Guerra Mundial, soldados brasileiros experimentaram o esqui, facilitando a adaptação na neve italiana de Monte Castelo.

Francisco Giobbi em ação no Mundial realizado em Portillo

Portanto, havia a necessidade de recrutar atletas que soubessem separar lazer de competição. Mas quem seriam eles? Domingos Giobbi buscou jovens brasileiros que moravam na Europa. Dois deles eram seus sobrinhos: Francisco e Luigi Giobbi. Também foram convocados Michael Reis de Carvalho e Sergio Hamburger. O suíço Noldi Giovanoli foi convidado para ser o técnico e Domingos ficou como chefe de delegação do primeiro time nacional de um esporte de inverno.

“Nós morávamos na Europa e competíamos em provas regionais. Eu cheguei a participar de provas FIS até em Kranjska Gora, na antiga Iugoslávia [atual Eslovênia]”, relembra Francisco Giobbi ao Brasil Zero Grau. “Na época eu competia bastante e tinha bons resultados”, prosseguiu.

Com a equipe formada, era hora de se preparar para o Mundial de Esqui Alpino de 1966. Primeiro, os atletas brasileiros ficaram em Farellones, também no Chile, e participaram de algumas competições locais – Francisco chegou a terminar na sexta posição no combinado e foi o segundo melhor sul-americano da disputa. Depois, em Santiago, o Brasil participou da Cerimônia de Abertura, com Francisco Giobbi como porta-bandeira. Só depois os atletas embarcaram até Portillo, na véspera das provas em agosto daquele ano.

O Mundial de Portillo foi uma grande festa. Como ficamos no mesmo hotel, tivemos a oportunidade de conviver com os melhores atletas do mundo. Isso é algo que não aconteceu em outras competições

No Mundial, como era de se esperar, nenhum atleta sul-americano conquistou medalha – aliás, ainda hoje o continente luta para quebrar esse tabu nas principais competições de inverno. Francisco Giobbi foi o responsável pela melhor participação brasileira ao terminar em 24º a prova do combinado, sua especialidade.

“O Mundial de Portillo foi uma grande festa. Minha principal lembrança é que todas as delegações ficaram no mesmo hotel, o único que existia na região. Assim, tivemos a oportunidade de conviver com os melhores atletas do mundo. Isso é algo que não acontecia em outras competições”, afirma Francisco.

Desde então, o Brasil não parou de evoluir nos esportes de inverno. Em 1970, Francisco Giobbi voltou a participar do Mundial de Esqui Alpino, dessa vez em Val Gardena, na Itália. O país também participou das edições de 1974, 1985, 1987 e 1989, ano do surgimento da Associação Brasileira de Ski, embrião da CBDN. Isso permitiu que o país participasse dos Jogos Olímpicos de Inverno em 1992 e estimulasse outras modalidades de neve, como snowboard, esqui cross-country, freestyle e biatlo.

O próprio esporte no continente evoluiu muito com o único Mundial de Esqui Alpino realizado na América do Sul. Em 1968 surgiu o Sul-americano de Esqui Alpino, com atletas do Brasil, Argentina e Chile. No ano seguinte, em Bariloche, Francisco conquistou uma controversa medalha de prata na prova do combinado. "Eu venci a prova do downhill, mas como houve um pequeno avalanche, o resultado não foi considerado na somatória do combinado e fiquei com a prata. Mas isso daí já é outra história".

Sozinho, contra o espírito de equipe de oito atletas argentinos e a maior experiência de vinte chilenos, mais afeitos ao local da competição, o brasileiro Francisco Giobbi, único representante nacional, conquistou três medalhas - duas de prata e uma de bronze - no II Campeonato Latino-Americano de Esqui, disputado no sábado e domingo nas montanhas de Portillo, no Chile.¹
  1. Trecho de um jornal brasileiro à época, relatando a conquista de Francisco Giobbi
Fotos da equipe brasileira. Em cima, da esquerda para direita: Francisco Giobbi, Noldi Giovanoli (técnico suíço), Michael Reis de Carvalho, Luigi Giobbi e Sergio Hamburger. Ao lado, retorno da equipe italiana e brasileira. Embaixo, momentos de descontração: os atletas sozinhos antes do Mundial (à esquerda) e com as chilenas Verena e Anita Voat já em Portillo.

Chilenos superaram tufão e avalanches para convencer "primeiro mundo"

Não foi fácil trazer o Mundial de Esqui Alpino para a América do Sul em 1966. "A Federação Chilena precisava convencer os países do 'primeiro mundo' de que poderia acomodar e organizar um campeonato desse tipo. Foi difícil convencê-los de que um país pequeno poderia fazer tudo isso - e com apenas um hotel! Obviamente existiam dúvidas", comentou Claudio Wernli Küpfer, integrante da delegação de esqui alpino do Chile na época.

Esse feito pode ser creditado a duas pessoas. Reinaldo Solari, presidente da Federação Chilena de Esqui à época, foi responsável pela diplomacia, negociações com a Federação Internacional de Esqui (FIS) e organização do campeonato. Já o norte-americano Henry Purcell, gerente-geral do resort de Portillo na ocasião, tornou-se no principal entusiasta e protagonista da surpreendente candidatura do Chile para sediar o torneio.

Eduardo montalva, presidente do chile, abre o Mundial de Esqui Alpino em Portillo

O objetivo, claro, era promover o resort e seu novo centro de esqui, inaugurado em 1961. A ideia era reunir os melhores atletas da modalidade para competirem no local. Como fazer isso? Só existia dois eventos em que a elite do esqui alpino se encontrava: Mundial e Jogos Olímpicos. Como a organização das Olimpíadas envolvia outras modalidades, Purcell encampou a campanha para trazer o Mundial de 1966. "Naquele momento, percebemos que Portillo e os esquiadores da América do Sul necessitavam de algo que os colocassem no mapa", admitiu o gerente-geral de Portillo em seu livro O Espírito dos Andes.

Para isso, projetou e construiu novos teleféricos, quartos e instalações de lazer para os atletas, nivelou a pista de esqui, instalou sistemas de comunicação e melhorou o sistema de transporte, sobretudo na capital Santiago, ponto de entrada para as delegações. Em agosto de 1965 estava tudo pronto para a realização de uma competição que serviria de teste para as instalações. Até que a natureza quase arruinou os planos chilenos.

Em 15 de agosto de 1965, dias antes do evento-teste, um tufão vindo do Pacífico Sul e com ventos de 200 km/h provocou avalanches em Portillo. Todos os teleféricos, inclusive os recém-construídos, foram destruídos. Treze das 24 torres foram derrubadas, assim como a estação de base e de retorno dos competidores. Cinco esquiadores amadores morreram e os atletas profissionais que já estavam no local ficaram ilhados e foram obrigados a esquiarem até a estação de trem mais próxima - distante 32 quilômetros.

A tragédia ressuscitou as dúvidas da FIS sobre a capacidade do Chile em realizar a competição. Henry Purcell, por sua vez, não se deu por vencido e comunicou à federação internacional de que tudo seria reconstruído até o Mundial, no dia 4 de agosto de 1966. "Durante todo o verão de 1966 tivemos que refazer tudo. Foi um trabalho muito caro", relembra.

Mas ele não esteve sozinho nessa jornada. A Fábrica Poma, responsável pelos teleféricos, enviou o engenheiro polonês Janck Kunzynski para reconstruí-los pessoalmente. A pista foi redesenhada com conselhos de Othmar Schneider, ex-atleta campeão olímpico de esqui alpino. Monty Atwater, um dos maiores especialista em avalanches, foi contratado para trabalhar exclusivamente durante o Campeonato Mundial. O exército chileno ofereceu um regimento de alta montanha para nivelar as pistas - não existia máquinas e os soldados desceram com os próprios esquis para realizarem este serviço.

Tanto esforço foi recompensado. No dia 4 de agosto de 1966, com a presença do presidente chileno Eduardo Montalva e uma temperatura que garantiu a neve "perfeita" até o encerramento do torneio, no dia 14, Portillo iniciava a disputa do primeiro - e até hoje único - Mundial de esporte de inverno na América do Sul.

Com Jean Claude Killy e Marielle Goitschel, França domina quadro de medalhas

Capa da revista Paris Match com as três estrelas francesas: Annie Famose, Jean Claude Killy e Marielle Goitschel

A França dominou o Mundial de Esqui Alpino em Portillo. O país europeu conquistou nada menos do que 16 das 24 medalhas possíveis, sendo sete dos oito ouros. O único triunfo não-francês foi do italiano Carlo Senoner, campeão no slalom masculino. Guy Périllat, no slalom gigante masculino, e Annie Famose, no slalom feminino, ajudaram a consolidar a supremacia francesa, mas foram outros dois atletas que impulsionaram este bom desempenho.

Foi no resort chileno que Jean Claude Killy conquistou seus primeiros títulos internacionais. Com 22 anos na época, ele venceu o downhill e o combinado, superando seu compatriota Léo Lacroix. A partir de então ele venceu a Copa do Mundo de esqui alpino em 1967 e 1968 e conquistou as três medalhas de ouro em disputa nos Jogos Olímpicos de Grenoble, em 1968. Até hoje, ele é reconhecido como um dos melhores esquiadores de todos os tempos.

Se Killy era um novato entre os homens, Marielle Goitschel já era titular da equipe francesa e uma das favoritas no Mundial de Portillo. Ela chegou ao Chile credenciada pelo título olímpico em 1964 e pelas três medalhas de ouro em Mundiais anteriores. Nas pistas chilenas não decepcionou, despedindo-se do evento com três medalhas douradas (downhill, slalom gigante e combinado) e uma prata, no slalom. Entretanto, ela teve que esperar alguns anos para reunir os três ouros. Isso porque a vencedora do downhill na pista chilena foi a austríaca Erica Schinneger. Contudo, na véspera dos Jogos de 1968 descobriu-se que, na verdade, Erica era um homem transgênero. Ele próprio renunciou ao título, deixando Goitschel na primeira posição.

Delegação brasileira no desfile de abertura em Santiago
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Gustavo Longo
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