Apaixonados pelas redes Gerações de pescadores desenham a história da pesca em florianópolis

Carolina Vaisz

Mar tranquilo, pouco vento e algumas pessoas caminhando pela praia. O cenário paradisíaco se completa com os olhos do vigia, atentos ao azul que quase não se move. Com muita precisão ele consegue perceber que a calmaria irá se transformar em um turbilhão. Em um instante já sabe que chegou a hora de avisar os outros pescadores. Apitos e assovios convidam a canoa a entrar mar adentro, indo em busca da notícia boa para aqueles que ainda dependem do modo artesanal para o próprio sustento, assim como os seus pais e os pais de seus pais. Notícia boa para toda a comunidade: o cardume chegou e com ele está vindo toda a história de gerações de pescadores, apaixonados pelo mar; apaixonados pelas redes.

Peixe à vista

O sotaque e o jeito de sorrir e levar a vida não escondem: Agnaldo Garcia, 47, carrega em suas veias o sangue pescador. Desde 1987 nos mares, o que não falta é uma boa história para contar. Basta se aprochegar por um instante e ouvir as marés por onde passou. Cada detalhe da história ilustra um pouco mais esse universo, tão cativado em Florianópolis.

A pesca para mim é tudo. Vou passear com a família, tô pensando no mar. Vou fazer um churrasco com os amigos, eu não consigo parar de pensar na pesca. É tudo pra mim.

A atividade tradicional da região é praticada por diversas gerações de famílias vindas dos Açores junto com a sua cultura. Uma dessas gerações, é a de Agnaldo. Seus bisavós Portugueses vieram para o Brasil e aqui continuaram exercendo o trabalho da pesca. Passando de pai para filho, o amor pelo balanço do mar chegou até ele não somente como uma forma de trabalho de gerações, mas também como uma necessidade.

Com nove anos Agnaldo perdeu seu pai, e desde então ele e as duas irmãs começaram a trabalhar para levar comida para casa. Com 16 anos ele parou os estudos e decidiu encarar a pesca como profissão.

"A gente tinha que lutar, e eu acreditei que a pesca seria meu ramo e então comecei."

No início, foi com barco industrial para pesca em outros estados, mas a captura do peixe estava baixa, o que o motivou a voltar para casa e mudar a direção do seu remo, agora partindo para a pesca artesanal nas praias. Nascido nos Ingleses, ele alterna as pescas entre a sua colônia natal, a Barra da Lagoa e Ponta das Canas, assim como diversos amigos e parentes. Por onde passa, todos o conhecem, e se o grau de parentesco entre esses pescadores não está no sangue, está no amor pelo mar.

O mar, para mim é a coisa mais linda que tem na natureza. Eu amo o mar. Quero estar sempre olhando para ele.

“Se um amigo chega agora e me diz: Agnaldo vamos pescar? Eu pego minha tarrafa ali e vamos lá na praia pescar”. Em dias de trabalho, ele chega a ficar de 12 até 72 horas sem voltar para casa. Quando o cardume está grande, os barcos fazem a captura até completar a capacidade de carga, retornam para a costa, descarregam os peixes e já seguem de volta para mais uma empreitada em busca do produto.

O contentamento em estar perto das águas é tão grande, que até em momentos adversos o mar é a melhor escolha para Agnaldo. Em uma das saídas de pesca de espera, em que a canoa sai da beira da praia e chega até o cardume através do remo, o mar estava muito revolto, com ondas que desestabilizavam a pequena embarcação.

"Aí veio uma onda, o mar cresceu de lado, e pra safar um amigo meu, estendi o remo pra ele. A canoa virou e eu fiquei pra baixo dela, com o pé preso na rede, não conseguia sair". Depois de lutar muito para se desprender, Agnaldo conseguiu soltar seu corpo da rede e se apoiar na canoa, mas a essa altura já havia tomado alguns goles de água. "Como a gente é pescador e tem uma experiência, não me apavorei, e o mar foi me trazendo pra terra".

Ao chegar em terra, foi socorrido pelos companheiros de atividade, que já haviam chamado socorro médico. Quando Agnaldo viu o helicóptero do resgate chegando, levantou apressado e começou a correr na praia, mostrando que estava bem. "Eu é que não ia entrar no helicóptero. De água eu não tenho medo, mas de ar, aí sim".

Histórias de um ano recorde

O pescador conta que a temporada de 2016 foi produtiva, mas que a não liberação da pesca em escala industrial prejudicou a atividade. “Abriu a pesca da tainha a gente espera que vai vir um cardume, que cada ano que passa vai aumentar o cardume de peixe, então cuidamos o clima, pra ver se vai ser bom, entendesse? Tem clima melhor pra praia, ou melhor pra alto mar. Daí a gente escolhia qual ir. Esse ano eu acertei. Deu peixe, deu. Deu peixe na praia na parte de cerco mas também em alto mar", conta Agnaldo.

Apesar da sorte grande, as embarcações foram proibidas de fazer a captura. A delimitação da área legal de pesca é controlada por mapas de bordo. Por suspeitas de fraudes já registradas no ano anterior, o Ministério da Agricultura alega que os mapas que demonstram a área de atuação das embarcações estava inadequado, não concedendo a licença.

"Se fosse capturar tudo que a gente viu, menina, eu acho que beira ai uns 40 anos, 50 anos que não se vê tanto cardume de peixe"

Mesmo com as complicações nas embarcações de maior porte e de pesca em alto mar, a safra de tainha em 2016 foi recorde para o estado de Santa Catarina. A contabilidade final do ano ainda não foi fechada, mas já passam de 2.700 toneladas. Em 2007 o total chegou a 1.138 toneladas.

"Agora as tainhas já foram embora, estão lá pelo Rio de Janeiro. Então a gente parte para a captura da anchova". Agnaldo explica que a alta da anchova ainda não chegou. Os pescadores acreditam que em outubro, perto do fim da temporada a início da procriação, os cardumes de anchova devam chegar em Florianópolis para a alegria da comunidade. Sem problemas no ano anterior, a captura desse peixe foi totalmente liberada em 2016.

A comunidade e as redes

Presente na cultura local desde o século XVII, a pesca em Florianópolis é um evento, tanto para quem aprecia a arte da retirada dos peixes, quanto para quem está louco para comprá-los fresquinhos direto dos pescadores.

Na pesca de alto mar, após a captura, as embarcações chegam perto da costa e atracam ao lado de uma pequena canoa, para onde transportam em uma, duas ou até três viagens uma quantidade surpreendente de tainhas ou anchovas, peixes que predominam as temporadas na região.

Seu Alcídio, pescador da colônia dos Ingleses, conta que em alguns dias a chegada do barco é como festa "todos ficam na volta, olhando e cuidando para ver se conseguem comprar algum peixe". Mas a disputa é grande, já que a maioria da carga é destinada à indústria. Ainda assim, há quem consiga seu peixe, como a Lourdes, que trazia junto com o seu sorriso e as suas mãos já fracas da lida, algumas tainhas na mão:

"Ah, eu venho aqui sempre que dá, o peixe é fresquinho. Sou filha de pescador e acho que a comunidade aqui devia valorizar mais esse trabalho, que é uma arte né, um dom."

Outra forma de interação entre pescadores e população é na retirada das redes. Em formatos mais artesanais e manuais, os pescadores formam uma fila de força e puxam para fora da água as tramas que envolvem mantos prateados, repletos de pescados. Quem auxilia nesse momento, compartilhando um pouco de força, leva para casa algumas unidades das tão desejadas tainhas, uma forma de demonstrar a gratidão e perpetuar o ritual tão típico.

A cada ano que passa, a quantidade de pessoas interessadas em cultivar essa tradição diminui. Agnaldo explica que é uma profissão difícil, "não é fácil ser pescador. Tem que estar no sangue. Tem gente que vai uma vez e não vai mais, não consegue ir". Para ele, o mundo hoje é outro. Ensinou suas filhas que o estudo deve vir em primeiro lugar, sem nunca esquecer de tudo que a vida oferece. Ele acredita que há outras formas de se envolver com a pesca, como fazendo pesquisas e análises.

Se estamos entrando em uma última geração de pescadores não é possível prever ainda. Essa vivência de geração em geração que veio de Açores na colonização desenhou a história da Ilha. Agora é preciso preservar e cuidar do ambiente para que essa rotina continue existindo, para que a comunidade continue indo buscar o peixe fresco na beira do mar.

ENTRE TRAMAS E DESAFIOS

Apesar das dificuldades encontradas hoje, a paixão é crescente. Através dos seus olhos, profundos e sonhadores, Agnaldo não consegue pensar em ficar longe do mar. A pesca, que um dia trouxe o sustento da sua família, hoje é gravada como uma memória de seu pai, que deixou um legado para a próxima geração.

Apesar do interesse decrescente da comunidade, das confusões com alvarás, liberações e da baixa renda resultante da atividade, Agnaldo é um homem de fé na pesca. A esperança não abandona o olhar daquele que entende que não há preço que pague o prazer de estar entre as tramas de uma rede repleta de peixes. A cada ano que passa ele acredita que as pessoas vão preservar esse bem, que o que mais faz, é fazer o bem.

"Lá na pesca tu não pensas em nada. Parece que o mar é tão sagrado, que dá tanta energia boa, que só pensa mesmo é em estar ali"
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Carolina Vaisz

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