Adilson Andrade Um olhar em busca da fé.

A arte se manifesta de várias maneiras, se valendo de diferentes recursos. A dramaturgia utiliza a representação. A música, o som das notas. A literatura cria mundos e significações por meio da palavra. São as formas mais comuns de se expressar artisticamente; mas não são as únicas. A fotografia é uma forma sutil de expressão artística. E é através da imagem, que o fotógrafo-artista sergipano Adilson Andrade se expressa.

Adilson é um fotógrafo sergipano com muitas peculiaridades. Trabalha na assessoria de comunicação da Universidade Federal de Sergipe - onde é encarregado de fazer as fotos da instituição e de seus eventos oficiais - mas é formado em Letras Inglês e foi professor por mais de trinta anos antes de chegar à UFS. Paralelamente, ele tem uma produção autoral conceitual, suas fotos tem um tom poético, espiritual. Seus cliques mostram o mundo fascinante das manifestações culturais e falam da relação do homem com a fé.

Registrar o mundo usando uma máquina fotográfica surgiu como um hobby sem pretensão de ser elevado a uma atividade mais séria. Ele nos conta com simplicidade e doçura como se deu esse despertar para a fotografia:

“Eu acho que todo mundo tem um apego muito grande à imagem. Você lembra de quando você era criança, de um parente distante, de alguém que se foi, pela imagem. Eu nunca pensei em levar o hobby a sério. Então eu sempre fotografei, como todo mundo, em viajem, numa camerazinha pequena.... Aquelas coisas. [...], mas, trabalhando aqui na Universidade Federal de Sergipe, e na assessoria de comunicação - como o ambiente de jornalismo fala muito sobre a imagem, imagem, imagem -, um grupo de colegas começou a estudar, desse grupo, só ficou eu, os outros mudaram o foco, e eu comecei mesmo a pensar em fotografia mais seriamente trabalhando aqui na Universidade há nove anos atrás. E estudei muito, continuo estudando e, cada vez mais me surpreendendo com o quanto eu não sei. ”

Autodidata, buscou o conhecimento sobre a prática fotográfica nos livros, assistindo vídeo-aulas e palestras de outros fotógrafos. “Aprendi na raça”, disse ele, que ressaltou que não tem interesse pela fotografia social e começou fotografando coisas aleatórias: flores, gatos, igrejas. A preocupação era a qualidade da foto.

O trabalho autoral desse artista é inclinado, sobretudo, para a expressão cultural e religiosa do homem. Não é religioso. Acredita apenas em Deus, mas fica impressionado com a devoção das outras pessoas e tem um forte interesse de fotografar as manifestações da fé. Numa busca de entender a sua própria posição diante dessas expressões pensando em toda uma narrativa visual. Procissões, romarias, peregrinações, rituais de penitência e purgação dos pecados. A crença inconteste dos homens numa força celeste, o autoflagelo, despertam profundamente o interesse das lentes de Adilson. Ele que procura com as suas fotos compreender aquilo que admite não possuir:

“Naquele momento em que eu estou fotografando, estou pensando como aquilo se reflete em mim. Todo mundo diz que a arte é autorretrato, que fotografia é autorretrato. Se, fotografando a religião, eu estou me fotografando, qual é a minha posição com relação a fotografia? É a posição antagônica, contrária àquilo: eu não faria isso. Mas como é que essas pessoas fazem? E por que me atrai tanto essa fé? Por que era uma fé que eu gostaria de ter.”

É apegado aos grupos folclóricos de Sergipe. Reisado, Cacumbi, Lambe-Sujos. Acredita que são atividades fortes no estado e, para essas riquezas culturais, também volta o seu olhar, o seu apreço, a sua câmera.

Adilson menciona um projeto fotográfico que tem seu tempo de conclusão estimado em 10 anos, a peregrinação do senhor dos passos e fala que a cada ano ele surpreende-se mais com a tradição "Recentemente em São Cristóvão eu percebi que várias pessoas estavam com uma coroa de espinhos na cabeça e de certa forma é um autoflagelo e fiquei pensando: que fé é essa? Ou, que desejo é esse de pagar esse pecado? ". Segundo ele a peregrinação do senhor morto em São Cristóvão foi muito fraca e com pouca participação popular, que ele atribui aos fatores econômicos e de violência. Em contraponto a uma diminuição da população em determinadas festas, outras manifestações culturais estão em processo de renovação, como, por exemplo, a Procissão do Madeiro, que ocorre na sexta feira santa na cidade de Nossa Senhora das Dores:

"Esse final de semana eu fui a uma reunião com o grupo de religiosas de Dores antes de fotografá-las na sexta-feira santa, é uma manifestação linda que acontece no nosso estado e uma delas me falou que tinham 80 meninas saindo da procissão onde 30 são novatas. E o motivo dessa renovação é que muitas pessoas se casam, tem filhos, vão morar fora, mas sempre têm meninas querendo entrar."

Na sala em que conversávamos, ele apontou na parede um quadro, que retrata uma jovem brincante de reisado com seu chapéu de fitas coloridas, a mão direita na parede de taipa, e o rosto na direção da luz que entra por uma porta que não se vê. Uma foto pensada.

Ao fazer uma fotografia, ele procura causar a quem vai contemplá-la a sensação de estranhamento, ou deslumbramento. Um trabalho planejado, premeditado. Adilson se diz técnico. Não deixa a emoção interferir: “Eu esfriei com o tempo, eu hoje penso mais na técnica, na construção. ”

Uma característica importante para um fotógrafo, segundo ele, é saber quando não fotografar. “Eu não gosto da estética da pobreza, da estética da miséria. Então esse é um momento que quando ela se apresenta para mim, eu recolho a câmera. Não me interessa.”

Em sua experiência como fotógrafo reconhece que existe um problema sensível com relação ao direito autoral. Fotos de sua autoria já foram utilizadas indevidamente por empresas grandes e até mesmo o Governo Federal. Ele relata o que ocorreu com uma determinada empresa de porcelana em outubro de 2016 que realizou um concurso de novos Designers e o vencedor teve como tema: “Motivos dos Lambe Sujos” com louças (pratos) estampadas com as mãos dos Lambe Sujos. No vídeo de lançamento haviam várias fotografias de Adilson sem sua autorização. Adilson não exige muito; que ao menos seja registrada a autoria “Não sou encrenqueiro, mas acho que colocar um crédito na imagem não faz mal a ninguém.”, afirma que entraria com uma ação judicial caso uma foto preterida fosse utilizada, justificando que prejudicaria sua participação em determinados concursos e ressalta:

“O prejuízo é muito grande e abriria um processo por direitos, pois me roubaram um direito”.

Ele sente que os fotógrafos estão vulneráveis e a internet contribui para que isso ocorra, pois permite o acesso indiscriminado às imagens. Nesse sentido, não vê uma mobilização em pró da preservação dos direitos autorais dos fotógrafos e, como ainda não há uma campanha nesse sentido, clama pelo respeito geral:

“Mexeu com um fotografo mexeu com todos, não existe uma campanha tão forte pelo respeito? Então deve ser com tudo, pela imagem, pelo gênero, por tudo. Respeito é respeito”.

Mesmo com o aspecto negativo da exposição do fotógrafo na internet sujeito a ter suas obras usadas sem o mínimo de reconhecimento, o lado positivo seria o reconhecimento e o alcance para suas obras, tanto é que através do facebook, Adilson foi o primeiro fotógrafo sergipano convidado a participar na categoria de palestrante no Festival Internacional de Fotografia (Fest Foto) em Porto Alegre nos dias 11, 12 e 13 de maio de 2017 - Centro Cultural Erico Verissimo.

Em 2011, o fotografo teve uma fotografia premiada no concurso “Declare Seu Amor Por Aracaju”, realizado pela Prefeitura Municipal de Aracaju, intitulada de "O pão deles de cada dia" e outras quatro imagens foram selecionadas para a exposição. Em dezembro do ano passado, ele já havia vencido a VI Mostra de Artes Visuais, organizada pela Coordenação de Promoções Culturais e Esportivas da UFS (Copre). [ leia a matéria completa em http://www.ufs.br/conteudo/1630 ]

Adilson Andrade é daltônico, ou, como ele diz, possui uma espécie de daltonismo. É capaz de distinguir as cores se estiverem bem separadas e definidas. Mas se estiverem próximas e não forem definidas, o seu olhar se confunde. Detalhe que fazia com que na infância, lendo gibis, o menino Adilson tivesse a fantástica impressão que os personagens se moviam. Uma característica curiosa e singular, de um fotógrafo que busca em suas fotos retratar o caminho do homem. O movimento da vida.

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