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Luta contra a fome: o trabalho de um Banco Alimentar Por Cátia gonçalves

Numa manhã de sexta-feira, o ambiente no armazém do Banco Alimentar Cova da Beira é calmo. Quatro voluntários aguardam uma entrega da fábrica de papel. O objetivo é receber livros que serão depois trocados por alimentos. O telefone do Banco toca com frequência.

Existe uma certa urgência naquele ambiente sereno. O Banco Alimentar Cova da Beira apoia a região do interior desde 2002. Os desafios de tentar fazer a diferença numa zona carente e desertificada do país são muitos. Paulo Pinheiro, um dos fundadores do Banco Alimentar Cova da Beira, relembra o momento em que se apercebeu do quão necessária era a sua ajuda.

O diretor conta que durante a primeira campanha do Banco Alimentar Cova da Beira, em maio de 2002, crianças foram brincar para o armazém. Uma delas, descrita como magra e com grandes olhos, mostrava-se especialmente feliz. Quando lhe perguntaram a causa do seu contentamento, a criança afirmou que ia ter direito a uma maçã, depois de jantar, algo que não era comum.

Paulo Pinheiro relata esse momento como a chamada à realidade. ‘'Eu tenho sorte. E isto define o que estou aqui a fazer. Estou a tentar dar sorte a alguém’’, diz.

O Banco Alimentar da Cova da Beira, assim se chama pela vontade de Paulo Pinheiro a não limitar horizontes. Embora se localize no concelho da Covilhã, atua em toda a região da Cova da Beira, já se tendo expandido para Norte. É, atualmente, o Banco Alimentar com a maior área geográfica a nível nacional.

A pandemia da COVID- 19 obrigou a que vários estabelecimentos fechassem portas. Durante cerca de dois meses, famílias permaneceram em casa, sem qualquer rendimento. O Banco Alimentar Cova da Beira, juntamente com todos os outros do país, luta diariamente para ajudar esses casos. O diretor explica que na primeira semana de isolamento obrigatório, o número de pedidos foi superior ao de todos os anos que constituíram a crise de 2007 em simultâneo. O principal para a equipa, é ‘’nunca deixar alguém com muitas necessidades para trás. ‘’

Para o pequeno Banco Alimentar da região interior, as adversidades obrigam à criatividade. Paulo Pinheiro explica que a norma dos Bancos Alimentares é recorrer à recolha de desperdício alimentar. Contudo, a indústria agroalimentar permanece no litoral, deixando o interior no esquecimento. A falta de uma carrinha de transporte impossibilita cargas frequentes de alimentos. Atualmente, o Banco Alimentar Cova da Beira não recebe qualquer ajuda da segurança social ou do Município.

A pandemia obrigou a que a ‘’campanha saco’’, onde se distribuem sacos a clientes à porta dos supermercados, não decorresse este ano, sem a qual cerca de 35 toneladas de alimentos não vão entrar nos armazéns. Mas o Banco Alimentar não baixa os braços e, para além dos donativos em dinheiro que o Banco recebe, os voluntários tencionam ‘’ir à luta’’ e fazer jus ao compromisso que mantêm com diversas organizações.

O Banco Alimentar Cova da Beira tem de momento, cerca de dezoito voluntários. Número modesto, mas motivo de orgulho para ao Banco, que desde os seus inícios move pessoas exclusivamente pela causa. ‘'Aquilo que é importante para o Banco Alimentar é a causa, o que nós fazemos e acreditar nela.’’

Entre os voluntários, existem pessoas de todos os quadrantes políticos, religiosos, de todas as idades, etnias e géneros. Diferentes em todos os aspetos, mas após a entrada no armazém, formam um só. São voluntários do Banco Alimentar.

Alexandre, voluntário no Banco Alimentar Cova da Beira há cerca de dez anos, refere que a importância do voluntariado, passa também pela sensibilização dos outros para o papel dos Bancos Alimentares. Sublinha a urgência do Banco Alimentar na região, e que a falta de recursos exige um trabalho complementar. ‘’O esforço em criar ideias é grande, mas tentamos converter essas ideias em alimentos’’.

As campanhas são vistas como um momento de diversão e felicidade. São mobilizados cerca de 650 voluntários que se dividem por secções. As relações de amizade tecidas entre os grupos, são relembradas.

‘’Somos um grupo de amigos que se junta duas vezes por ano para celebrar um momento onde todos nós sentimos que estamos a fazer algo por alguém que não conhecemos, mas sabemos que é alguém que necessita e merece apoio’’, explica Paulo Pinheiro

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Segundo o Banco Alimentar Cova da Beira, existem três tipos de apoiados fundamentais: As crianças, os idosos e pessoas com doenças crónicas. O trabalho da organização passa sobretudo por tentar ajudar o primeiro grupo, ao criar um desenvolvimento harmonioso para as crianças, em que a pobreza não seja um fator de exclusão para futuras oportunidades.

‘’O Banco Alimentar é, para muitas pessoas, o farol de esperança.’’

Apesar dos poucos recursos, o Banco Alimentar Cova da Beira continua o seu trabalho, de modo a combater o desespero. ''Não podemos deixar que as pessoas desistam delas próprias’’.

Quando questionados sobre o objetivo do Banco Alimentar a longo prazo, a resposta foi simples: ‘’Queremos deixar de ser necessários.’’

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Cátia Gonçalves
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