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O Adeus da Cartuxa Os monges da Cartuxa deixam a casa onde residiam há 60 anos, para onde regressaram depois de terem sido expulsos. As despedidas foram duras, mas o calor humano dos eborenses foi chave para tudo se tornar mais fácil.

Reportagem e fotos: Ricardo Perna

Ninguém esperava a notícia. Nem os monges, nem sequer a população de Évora. O Pe. Antão, prior da comunidade, já tinha conseguido fazer ver aos responsáveis que a vida na Cartuxa de Évora, mesmo com monges com uma média de idades próxima dos 90 anos, continuava como se o tempo não tivesse passado por eles. «Aqui nunca faltou uma oração à meia-noite, temos a casa limpa, trabalhamos, somos idosos mas graças a Deus com saúde, todos somos autónomos. E consegui convencê-los disso» nos anos anteriores em que a questão se havia colocado.

No entanto, a necessidade de reforçar outra cartuxa que estava a ficar vazia foi mais forte. O primeiro impacto da notícia não foi tão fácil, e as primeiras impressões demonstravam a real tristeza pela partida. «Gosto muito de viver num edifício carregado com uma história de 400 anos. As portas abrem mal porque os fechos estão gastos, os degraus estão gastos, a parede com buracos, mas isto é história», confessava-nos o Pe. Antão.

«Há 120 monges enterrados aqui, santificaram-se muitos. Iremos para outro mosteiro antigo, mas este mosteiro ajudou-me muito e nunca o esquecerei» - Pe. Antão Lopez, prior da Cartuxa de Évora

Mas aquilo com que nunca sonharam foi com o «carinho» e a «emoção» que a diocese de Évora e várias pessoas em todo o país lhes prestaram nestes últimos dias em Portugal. Em entrevista, o Pe. Antão confessou-se surpreendido com tudo o que se passou.

Quando soube da notícia do encerramento, o arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, disse ao Pe. Antão que fazia questão de se despedir da comunidade presidindo a uma eucaristia, e sugeriu que esta fosse aberta a todos quantos desejassem unir-se na despedida dos monges da Cartuxa. Os monges acolheram bem a ideia, e fizeram mais que "apenas" abrir a igreja da clausura, o que já seria, por si, uma novidade. O convento abriu portas e foi possível a todos os que lá foram visitar os claustros, as outras capelas, o refeitório, espaços que, por norma, estavam reservados aos monges e aos trabalhadores.

«Se, anteontem [a entrevista foi gravada dois dias depois da festa de despedida], a cidade inundou a clausura para a missa, foi mesmo porque nunca tinham entrado aqui. Entraram uns médicos, alguns trabalhadores e pouco mais. Eu tenho família nas Canárias e um primo veio a Madrid e disse que não regressava sem me vir visitar. Foi ao turismo de Évora perguntar e responderam-lhe logo que a Cartuxa não se visita. Ele teve de explicar que era meu primo, e só assim lhe indicaram. O próprio turismo indica aos turistas que não venham», relata, entre sorrisos.

E foi assim que a Cartuxa se viu "invadida" por amigos e conhecidos. Centenas de pessoas juntaram-se ao final de tarde de uma terça-feira no convento da Cartuxa para assistirem à missa e visitarem o espaço. Sorrisos, afetos, muita curiosidade, era o que se podia observar. Mas mais que o lugar, arriscamos dizer que o interesse era mesmo o contacto com os monges. O Pe. Antão, enquanto superior, tem algum contacto com o mundo exterior, e o Ir. António, que atende à porta, também. Mas os outros monges não, e quão engraçado foi perceber que não houve um único momento em que algum deles esteve só, ou em silêncio, naquela tarde.

Amigos, da Cartuxa, fiéis de Évora... ninguém quis faltar à despedida.

A igreja matriz da clausura foi pequena para as centenas de pessoas que se deslocaram até ali. De pé, sem luz ou conforto, à maneira cartusiana, aguentaram todo o tempo da eucaristia. Na homilia, o arcebispo de Évora, que presidia à celebração, enalteceu o legado dos Cartuxos.

«Deus favoreceu Évora com o silêncio generoso, fecundo e habitado pelo seu espírito. O silêncio dos homens cartuxos, os homens bons de Deus. Nunca estávamos sós, contávamos com uma retaguarda orante, absolutamente gratuita, sempre disponível a abraçar todos e cada um dos homens, em comunhão incondicional com as suas dores, sofrimentos, esperanças e projetos»

No final, deixou o apelo a que o espaço continuasse a ser «lugar de acolhimento na aridez e no inverno de todos os que possam sofrer o vazio, a escuridão e o silêncio interior de Deus». «Que a Cartuxa seja sempre uma escada para o nosso encontro com Deus, pelas mãos de Maria. Que a esperança permaneça no nosso olhar que os vê partir, mas que no compromisso guarda em nossos corações o grande testemunho de vida, a grande tradição do silêncio que os nossos queridos cartuxos nos souberam deixar», concluiu.

Aquilo que fica e se guarda na memória

Chegamos à Cartuxa dois dias depois da despedida. Voltou o silêncio ao espaço, conseguimos distinguir todos os sons da natureza, mas o que mais impressiona continua a ser o silêncio pacificador que emana daquelas paredes. O Pe. Antão conversa e desabafa que nunca falou «com tanta gente» como nestes últimos dias da Cartuxa. Depois do rebuliço das despedidas, falamos já com o corpo a descomprimir. Os monges partem dia 31 de outubro, e não levam nada na mala, fica tudo como está no espaço que irá receber as Irmãs Servidoras do Senhor assim que houver pequenas obras de ajuste para dar mais conforto às irmãs. Porque até dentro da realidade da clausura o radicalismo da propostas cartusiana deixa marcas. Não há proposta como esta.

Falamos da despedida, mas também falamos do modo de ser cartuxo. Este "banho" de multidão não foi a primeira vez que estes monges contactaram com o mundo exterior em muitos anos. Todos os dias eles pensam e refletem sobre o mundo, numa medida bem mais profunda que muitas das pessoas que habitam esse mundo e o vivem todos os dias.

A vida na Cartuxa está longe de ser fácil. «Os monges rezam em conjunto três vezes na igreja: à meia-noite, na missa de manhã e nas vésperas de tarde. Quatro horas em que cantamos juntos, o resto é na cela. A Cartuxa tem 18 celas, embora só aqui estivessem quatro monges atualmente, com mais dois sacerdotes a fazer experiências de oração», como é habitual receberem.

Esta não é uma clausura como outra qualquer da ordem cartusiana. S. Bruno concebeu as Cartuxas como espaços isolados do mundo, não apenas na filosofia de vida, mas também na geografia. A cartuxa de Barcelona, para onde estes monges vão, fica a 25 kms da cidade mais próxima, mas a de Évora foi "engolida" pelo crescimento da cidade. Mesmo que os monges consigam manter a vida cartusiana dentro do mosteiro, a proximidade com a cidade cria uma relação que se foi acentuando ao longo dos anos e que tornava esta Cartuxa única no mundo. «Temos muitas pessoas que nos dizem que ouvem o sino da meia-noite e rezam uma Ave Maria por nós, porque sabem que estamos a rezar a essa hora», relata o Pe. Antão.

Essa relação foi sendo fortalecida também porque todos os domingos se celebrava missa às 10h, para quem desejava vir de fora para a eucaristia. «Essa capela recebe 50 ou 60 pessoas, e temos pessoas que vêm de longe para assistir. Recebemos amigos que vêm de longe porque trabalham connosco, ou vizinhos ou pessoas que não gostam das missas da paróquia com música ou guitarras, e aqui eu celebro missa toda rezada, e as pessoas gostam desta simplicidade», revelava o Pe. Antão.

Esta proximidade das pessoas revela-se também na quantidade de pedidos que recebem de oração. «Ao contrário de outros mosteiros da Cartuxa, aqui há muita religiosidade popular e muito pedido de oração, por telefone, carta ou e-mail. Anónimos, pedem que reze pelo filho que tem o casamento em crise, ou o marido que está a morrer, nem se identificam, por vezes. Rezamos por todas as intenções que nos são pedidas, nas várias missas que temos. E algumas pessoas ligam-nos mais tarde a falar sobre o que sucedeu e como a graça foi atingida», conta o Pe. Antão. «Nunca pergunto o nome a ninguém, mas contactam-nos a pedir pelo marido que está doente, pelos filhos que se estão a separar, e não preciso de saber o seu nome nem a gravidade da doença. Quando pedimos a Deus por quem nos encomenda, pedimos de uma forma geral, e assim rezamos por todos os que sofrem desses males, a oração é mais ampla. É uma oração muito universal», revela.

Dos 23 mosteiros que a ordem cartusiana tem em todo o mundo, fecham o de Évora e o feminino de Espanha. Apesar disso, a ordem cresce nos países da Ásia e da América do Sul com um número cada vez maior de vocações.

Na despedida sempre difícil, os monges da Cartuxa sabem que a sua memória não irá desaparecer da lembrança do povo português. Mas pedem que, mais que a memória, seja o estilo de vida de oração que continue a ressoar dentro do coração de cada fiel. «Não quero que sejam todos cartuxos, mas que rezem mais e nos imitem um pouco nesta dedicação à oração. Lembrando-se que existe este tipo de vida, que continuem a aumentar na sua os valores que conheceram e admiraram. Que na vida de cada cristão haja um pouco mais de cartuxo, que sejam mais imitadores dos cartuxos neste aspeto da oração e santidade pessoal. A nossa vida é de sacrifício e união com Deus. Que as pessoas rezem mais sabendo que havia aqui monges que cantavam 4 vezes por dia a Deus», pede.

«Um dia, mostrei o mosteiro a um arquiteto e falámos apenas de arquitetura. Expliquei o porquê das celas estarem orientadas assim, por causa do sol da manhã e da tarde, e outras coisas. Quando saímos, disse-lhe que esperava não lhe ter dado um sermão, e ele respondeu-me que ficou espantado por saber que nos levantávamos à meia-noite para rezar e que ele ia apenas à missa ao domingo e já a pensar no futebol. Sugeri que pensasse mais na missa e que pudesse ir mais vezes, e é isto que, depois de nos conhecerem, eu pediria ao povo português.»

Fica a memória dos cartuxos, enquanto o espaço, vazio a partir de agora, aguarda um novo «silêncio orante» que irá ser trazido pela congregação das monjas Servidoras do Senhor. Para o nosso leitor, deixamos também um retrato de como é o interior da Cartuxa e como era a vida dos que agora deixam esse espaço e se mudam para Barcelona.