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A arte de "Preencher Vazios" Por Diana Ramos

Uma simples observação quotidiana tRANSFORMOU-SE no meu trabalho

Quantas vezes nos deparamos com edifícios antigos, cujas fachadas, de azulejos tipicamente portugueses, estão degradados? Esta realidade não ficou indiferente a Joana de Abreu. Na altura, frequentava o mestrado em Arte e Design para o Espaço Público na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Precisava de um tema para o projeto da tese, mas nada lhe surgia. No percurso diário que realizava de regresso a casa - da faculdade até à estação de S. Bento para apanhar o comboio -, deparou-se com uma fachada com azulejos em falta. O problema deixou-a inquieta: decidiu pegar na questão e transformá-la no seu projeto. Assim, nasceu "Preencher Vazios".

O significado por detrás do projeto

O objetivo da iniciativa passa por "chamar à atenção para a necessidade de preservar o património azulejar português, que tem sofrido uma perda progressiva de azulejos nos últimos anos". A artista usa a madeira como material, não só por ser mais barato, mas também porque a sua intenção não é encontrar uma solução definitiva para o problema, mas antes consciencializar. Preenche os vazios, durante o dia, e nunca teve problemas, porque, depois de explicar do que se trata, as pessoas compreendem e, algumas até ajudam e intervêm. Para já, só opera nas cidades do Porto e Lisboa, mas sublinha que, em viagens, arruma um pequeno conjunto de blocos na mala para poder deixar a sua marca no país que visita.

Intervenções na Baixa do Porto (1ª fotografia), no Largo do Contador Mor (2ª fotografia) e na rua Eduardo Coelho (3ª fotografia). Fonte: Instagram do Preencher Vazios

"Preencher Vazios"

A escolha dos espaços é aleatória. A intervenção pode ser o resultado de um encontro ocasional da artista com um 'vazio' e despertar a sua atenção, como pode ser fruto de sugestões de seguidores. Assim que vê a oportunidade de uma nova intervenção, tira as medidas (com o que tiver à mão) à superfície e tira fotografias ao padrão do azulejo. No Photoshop altera esse padrão e acrescenta frases com que se foi encontrando ao longo da vida. A impressão fica a cargo de uma empresa de grafismo. Chegados os moldes, cola-os à madeira e dá um acabamento em verniz.

Por ser uma "intervenção efémera", Joana não sabe quanto tempo os blocos podem ficar fixados na fachada. O máximo de durabilidade são dois anos, mas, devido às características muito singulares do espaço, que cada intervenção preenche, alguns não chegam a atingir este tempo. Existem, ainda, aqueles que saem do espaço precocemente, porque são roubados por quem acha serem peças de cerâmica.

O antes e o depois na Rua da Alegria, no Porto. Fonte: Instagram do Preencher Vazios

"Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes", lê-se no Largo do Contador Mor

O 'cimento' entre o azulejo velho e o bloco novo é o padrão. Contudo, para criar um contraste e chamar a atenção do maior público possível, a artista altera as cores para tons mais vibrantes. Nas placas, coloca também a hashtag #preenchervaziospara que as pessoas que encontram a intervenção e, cuja curiosidade for despertada, possam acompanhar o seu trabalho nas redes sociais. Para atrair turistas ou transeuntes estrangeiros, a designer faz algumas peças de autores portugueses traduzidas para a língua inglesa.

Painel na rua Poço dos Negros, Lisboa

No que diz respeito a autorizações, Joana não pede permissão aos proprietários dos edifícios, nem ao município. Nas frases que utiliza, cita sempre o autor correspondente. Caso o escritor/músico ainda seja vivo, a artista notifica-o que vai utilizar a sua expressão, como foi o caso do azulejo com um excerto da canção de Carolina Deslandes. A designer tem também por hábito apanhar fragmentos de azulejos, que tinham como mais provável destino o lixo, e guarda-os como uma recordação.

Para rentabilizar os custos que a intervenção cívica acarreta, Joana faz também peças que podem chegar à casa do público. Com os mesmos padrões que utiliza no projeto, a artista vende ímanes, pins, postais, brincos, cadernos e agendas. E, para que as pessoas acolham um pouco da cultura do azulejo no seu lar, a designer aceita encomendas personalizadas. Para além disso, em conjunto com outras entidades, realiza workshopsque permitem que o público aprenda todos os passos, para, tal como Joana, "preencherem vazios".

Fotografias por Diana Ramos.

Joana de Abreu tem 26 anos e é de Valongo. Tem um ateliê, na baixa do Porto, onde trabalha como designer e produz convites e lembranças para casamentos. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a artista opera o projeto "Preencher Vazios" sozinha. A intervenção não tem financiamento e todos os custos que esta gera, são sustentados pela designer.

Perfil de @preencher_vazios

No futuro, Joana de Abreu ambiciona lançar um livro fotográfico que recolha todas as suas intervenções e a história do projeto "Preencher Vazios". Para acompanhar o trabalho da artista, pode seguir as páginas do projeto no Facebook e Instagram.

Created By
Diana Ramos
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Credits:

Joana Abreu e "Preencher Vazios"

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