ídolo de fogo um ensaio sobre a ira

Alguns ídolos cultuamos num belo altar, mas não o ídolo de fogo. O ídolo de fogo tem um lugar especial e oculto, seu altar habita nosso peito. Em meu peito, bem sei o quanto queima, o quanto o venero, o quanto arde seu ímpeto de raiva e indignação. O senso de injustiça que me aflige é primordial e lapidou-se na chaga de ter nascido entre homens, no berço da sua violência e de sua infindável ignorância e ganância. Ah sim, ele arde até as lágrimas, um rancor antigo e renitente.

Ainda assim, cerceio a revolta, retenho os santos, cultuo os sábios e seus bons altares; sublimes horizontes da fé na humanidade confinam meu espírito numa alma domesticada, de olhar feroz e inconformado. Esse olhar que se ultraja com as falácias religiosas, de uma fé infantil e ingênua; que almeja perpetrar o bem a despeito de todo o mal, que tenta e tenta e tenta, para sucumbir no desânimo da duvidosa justiça divina e da crueldade dos homens, da sua hipocrisia, das suas mentiras.

Entre afagos de uma espiritualidade panfletária e choques da realidade bruta do mundo, me debato e sepulto meus altares destrutivos sem saber a quê recorrer. A mediocridade das redes não se demora a solucionar esse conflito milenar: mas como? É só acreditar, o mundo é um vasto campo de margaridas e begônias; somos belos, limpos e perfeitos; basta acreditar, basta crer, basta querer. Como se a realidade não avançasse em nossas portas, não arrombasse nossas casas e destruísse nossos jardins, como se fôssemos incólumes, super-homens.

Esse é o Deus de fogo que contenho em meu peito. Contenho, pois muitos outros deuses me habitam e no furor desse Marte que me inflama, há também a mão suave da prudência, da tolerância. Esta sabedoria que aplaca a ilusão de abater todos os ímpios, de devastar a opressão e combater a tirania, de alastrar a fogueira de ódio e destruição na busca de uma paz utópica; ou, ainda mais amiúde, de condenar as ofensas pessoais, a maledicência, a desonra; ou, meramente, impor nossa mesquinharia e arrogância em um mundo que não podemos dominar por nossas próprias leis.

Dormir, ou insurgir-se contra um mar de provocações? Quem poderia responder que não se inflame desse torpor? Lindo seria se fôssemos todos puros e nobres de alma, no entanto, perecemos numa mente confusa e egoísta. Por vezes, a flama será tão intensa que talvez aniquile nosso próprio ódio, sem destruir algo além de um ego imaturo, e, na brasa morosa dessa ruína, possamos descobrir o poder da compaixão.

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Izis Cavalcanti
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