Loading

No limiar da sobrevivência

Os ourives de Travassos, concelho da Póvoa de Lanhoso, debatem-se com uma crise que já há muito destabilizou todo o setor. Vivem na esperança de que consiga escapar minimamente ileso da crise que o assolou. Estão tristes, mas conformados.

É uma oficina pequena iluminada e aquecida pelo sol de inverno que entra pela pequena porta encostada. As paredes escuras de pedra perpetuam a história de uma arte talvez esquecida. Joaquim Silva, 66, e Guilherme Silva, 70, têm as mãos de quem hoje ainda estima a tradicional ourivesaria portuguesa.

Estão sentados um ao lado do outro. Foi sempre assim: Joaquim no lado direito e Guilherme à sua esquerda. São dois irmãos que vivem constantemente juntos. Está silêncio pelas suas vozes. O rádio escondido pelo pó é a sua maior companhia embalado pelo chilrear dos canários que ecoam naquele espaço. Zeca Afonso passa na rádio Sim e fá-los regressar ao tempo próspero do “antigamente”: “quando se trabalhava muito”, recorda Guilherme.

Trabalham ali desde que são gente. Os pais obrigaram-nos a aprender a arte: era um futuro imposto. Até atingirem a maioridade tinham de ir para a ‘’banca’’ fazer contas para terços de prata ou ouro. “Gostando ou não gostando tivemos mesmo que ser ourives”, remata Joaquim. Mas o destino destes dois artesãos era o mesmo de todos os outros que nasciam em Travassos. Outrora, pela calçada abaixo, encontrar um ourives era como não se pudesse ser mais nada naquela freguesia. Era o fado daquelas gentes.

O tempo foi passando. Ali começaram, ali ficaram e ali viram tudo mudar. O presente já não é o reflexo do passado que os seus olhos ainda tentam ver. Era o tempo das “vacas gordas”, como caracterizam. Havia muito trabalho. No verão, época de mais afazeres, “estávamos na oficina até de madrugada”. Relembram os terços que meticulosamente encadeavam à mão. Riem-se quando se tentam lembrar quantos é que fizeram. A idade fê-los esquecer. E soltam uma gargalhada.

Joaquim está à procura da quantidade certa de prata fina para começar um novo trabalho, um pequeno coração de filigrana. Pesa e depois derrete as pequeninas bolas de prata para as tornar em liga. Este é o início do processo de criação. Muitos dizem que são os mestres nesta arte. Tornaram-se profissionais sem o saberem naquela velha oficina com mais de 90 anos. “A gente foi aprendendo com o nosso pai. Tinha que ser”, fala Guilherme.

A experiência tornou este processo demorado em algo que os irmãos conseguem fazer quase de olhos fechados.

As rugas e as marcas das suas mãos ilustram a estória de uma maneira única de trabalhar o ouro: a filigrana. Finos fios, delicados e brilhantes de ouro ou prata que se entrelaçam como dois olhares apaixonados. Aparece no século XIX em Portugal. É, portanto, uma arte secular que exige “muita paciência e precisão” dos ourives que a criam manualmente. Os dois grandes pares iguais de óculos com as lentes engarrafadas de Joaquim e Guilherme estão pousados nas suas mesas e são eles que os ajudam aperfeiçoar o trabalho.

A filigrana tem berço em Travassos. “Em Guimarães nasceu Portugal e aqui nasceu a ourivesaria”, afirma Joaquim. Tempos em que aquela freguesia era vista como a mais rica do concelho. Foram as peças únicas da ourivesaria como o talento singular daqueles que as criavam que lhe deram a essência. “Algo que só nós é que tínhamos”.

Entretanto, a arte chega a Sobradelo da Goma. Os irmãos não sabem bem explicar como é que a ourivesaria chega à freguesia vizinha. Uma história até confusa. “Alguém” de Travassos levou a técnica consigo quando se casou com um habitante de Sobradelo.

Algo semelhante aconteceu com Gondomar, no Porto. Um casamento levou a arte até terras portuenses. Joaquim fala numa lenda que tenta explicar o acontecimento. “Não sei se era homem ou mulher ou o que foi, mas foi alguém que para lá levou a ourivesaria”, continua Guilherme. Contudo, Gondomar foi adquirindo uma imagem privilegiada entre os espectadores, tirando alguma atenção à Póvoa de Lanhoso. Tal como Viseu tentou roubar a denominação a Guimarães, a Póvoa também se viu ameaçada por Gondomar. Mas os irmãos não têm dúvida das origens, talvez pelo vínculo e genética que os une.

A rádio anuncia as 12h. Joaquim sentou-se agora na banca, arregaçou as mangas e colocou uns óculos mais pequenos sobre os primeiros. Pega numa velha pinça e talha ou, em português bem-dito, define a forma da peça, o coração idealizado. Até ali chegar foi preciso a liga passar pelo cilindro, de modo a obter a espessura necessária para o produto final. Deixa o cilindro e seguem-se as fieiras ‘’para puxar pela matéria’’. Isto faz-se num tabuleiro suportado numa das paredes que sustenta todo o trabalho. “Não sei porque é que lhe chamaram assim”, ri-se. Segue-se a fórmula que constitui o processo. Mas já não é assim.

Quem lhes tirou a dedicação

A ourivesaria nem sempre viveu num mar de rosas e hoje está cheia de espinhos. Foram surgindo constrangimentos que a redefiniram, fazendo dela um ofício em decadência, onde já nem o dom dita a ordem.

A adaptação da arte às tecnologias rompeu com a tradicional técnica de fabrico. Nas oficinas de hoje as balanças são digitais, o cilindro não perdeu a cor e as máquinas talham as peças. A rapidez, a quantidade e a facilidade lideram os pensamentos dos fabricantes que se cingem ao mundo industrial numa espécie de Ode Triunfal. As mãos dos ourives já não contam histórias. O sentimento e dedicação que um artesão expressava em cada peça já não fazem parte da essência da filigrana. “Estas coisas das máquinas vieram desgraçar o manual”, exprime Guilherme.

A maioria das peças são agora injetadas. É uma “máquina chinesa” que faz a filigrana. O preço mais barato destes artigos compensa a falta de detalhes, precisão e perfeição que não conseguem ter. Fala-se numa diferença muito grande. Joaquim procura entre os papeis por um coração de ouro feito por ele. Diz que vale 550 €. “Se fosse feito pelas máquinas valia 350 €”. E justifica: “As pessoas querem as coisas, mas querem tudo o que for barato”.

Sobradelo da Goma preza-se hoje por ter mais oficinas certificadas de ourivesaria do que Travassos. Há cinco estabelecimentos e na original freguesia do ouro apenas três. Guilherme ressalva este facto e explica que estas são mais sofisticadas pelos instrumentos de trabalho. Estão modernizadas.

As máquinas tiram-lhes a dedicação.

Guilherme levanta-se da cadeira e puxa por uma caixa velha cheia de papéis soltos de jornais. O pó e as folhas de jornal em volta deles protegem fios de filigrana entrelaçados em peças com um valor sentimental único. Parecem estar esquecidos. Não por eles. “Pelas pessoas”. Tira um relicário grande em prata. Um trabalho moroso de há muitos anos. Diz que venderam muitos artigos semelhantes aquele. “Grandes”, “médios” ou “pequenos”. “Para se dar a Nossa Senhora” ou para uso próprio. Hoje não se lembra do último que fez.

Alguns dos trabalhos dos irmãos

Tem agora nas mãos um terço cuja forma da filigrana foi inventada por eles. A procura por aquele artigo, antigamente, derivava da importância que a religião assumia nas vidas portuguesas. As senhoras traziam todas um na carteira, sob a cabeceira da cama ou para dar nas comunhões dos netos ou sobrinhos. Mas agora não é assim. Já não se reza. “Antes rezava-se muito por terços de prata, agora não se reza nem por terços de prata, nem por pau, nem por nada” e soltam uma gargalhada.

Não há números que comprovem a decadência do trabalho que estes ourives foram tendo ao longo dos anos. Ainda assim, Joaquim constata que as pessoas já não querem saber do ouro e da prata. Dizem que já não estão na moda. Relembram a altura em que a Sharon Stone, “aquela atriz americana”, utilizou um coração de filigrana oferecido quando esteve no Porto. Procurou-se muito por algo parecido. “Querem o que estiver na moda e o que for barato”, justifica Joaquim.

Também o desinteresse lhes tirou a dedicação.

O assunto mais sensível para os dois irmãos é o medo que passa por todos aqueles que se dedicam à ourivesaria. É nele que encontram a maior razão para a desvalorização da arte e, consequentemente, para o abandono. Surpresas desagradáveis de alguém desconhecido, escondido em vestes pretas que lhes leva tudo sem permissão. Guilherme e Joaquim na pessoa de todos os ourives vulneráveis e indefesos aos “ladrões”: “os maiores culpados de tudo”.

Os dois irmãos dizem que todos os outros reclamam por segurança que ninguém lhes garante. Estão entregues à própria sorte de, se algum dia alguém lhes aparecer, sobreviver. Num espaço de sete anos o Jornal de Notícias reportou 15 assaltos à mão armada.

Não são só os ourives que têm medo. As pessoas não querem mais ouro. Não se sentem seguras ao comprar, porque são também vítimas dos assaltos.

E os ladrões tiraram-lhes a dedicação.

A caminho da decadência

A ourivesaria nacional portuguesa tem os dias contados. O setor está a perder força e a mover-se para o declínio. A falta de incentivos e apoios assolaram aquela que se tornou a “língua morta” do artesanato.

Há quem ainda sobreviva aos dias negros carregados de desgosto sem outra alternativa. “Que remédio”. Esta é a resposta que Joaquim dá quando questionado acerca do gosto pela profissão. Brinca e diz que, por troca, gostava de ser reformado, mas admite “só valia a pena se fosse jovem e com a vida pela frente”. Riem-se alto.

E é desta forma que encaram a vida. Às gargalhadas, que enchem a oficina e constituem o mote para viver um dia a seguir ao outro. Estão conformados com o futuro que se avizinha. “Estamos no fundo do poço”. Sentem-se a travar uma crise sozinhos sem apoio da autarquia povoense e do governo.

Travassos viu nascer a arte da ourivesaria e morrerá também com ela. Os irmãos têm-na como vítima da decadência do setor. “Travassos está morto”, dizem firmes. Culpam a falta de incentivo, não sentem que o município se preocupa com os artesãos, porque “nunca ninguém esteve aqui e falou connosco”. Imaginam a freguesia que os viu nascer daqui a 20 anos e pensam que só terá “meia dúzia” de gentes e o medo tornar-se-á uma realidade daquele local. Eventualmente, a fuga será a solução. E Travassos será “só monte”, prevê Joaquim.

Com ou sem monte, esta é já é uma realidade que se avizinha nesta freguesia. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), entre os anos 2001 e 2011 houve as seguintes mudanças.

Do outro lado da moeda, a Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso. A filigrana está entre três marcas que o município utiliza para elevar o nome do concelho. André Rodrigues, vereador da Cultura e Turismo, acredita que mostrar a ourivesaria como produto endógeno “faz com que tenha mais potencialidade de vendas, para que a arte não tenha tendência a desaparecer”. Reconhece que o número de artesãos tem diminuído e, para combater esta verdade, a autarquia da Póvoa e a de Gondomar desenvolveram um trabalho de ‘’certificação da arte’’, isto é, toda a filigrana artesanal que seja produzida nos dois municípios terá uma etiqueta e uma marca que garantem a autenticidade manual.

Este é o caminho para que, juntamente com a Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN), consigam adquirir o título de património nacional para a arte. Mas o trajeto não fica por aqui e vai além-fronteiras. Cabe à DRCN estabelecer parcerias com outros países que se dedicam à filigrana (Colômbia, Itália, Espanha e Brasil) para apresentar uma candidatura conjunta e única a património imaterial da humanidade à UNESCO. O município está a remar ‘’para preservar a arte e não deixar que ela seja esquecida’’, garante André Rodrigues.

Contudo, esta ideia é algo hipotético e que até lá há longo caminho a percorrer. E, no entretanto, a ourivesaria como ADN do concelho poderá desvanecer, questionando a veracidade do slogan “Terra da filigrana”. O vereador não vê a situação como problema.

André Rodrigues alerta para a necessidade de desassociar a filigrana da agricultura e etnografia. Para tal, os ourives devem trabalhar com designers de luxo e assim alcançar o mercado da alta joalharia. Justifica esta estratégia, porque integrará os artesãos no mercado. “E o mercado de luxo interessa-nos, porque é aquele que nos consegue mostrar e proporcionar um grande valor acrescentado às nossas peças”, reconhece.

É preciso apostar muito na internacionalização do produto, abrir ao máximo o leque de potenciais compradores para que a filigrana nunca termine. Mas isso é um trabalho que não cabe ao município fazê-lo, porque não tem capacidade para tal nem são essas as nossas responsabilidades.

O pequeno coração que Joaquim iniciara já está preenchido. Falta soldá-lo, para que a peça fique terminada. O trabalho que naquela manhã desenvolveu é o de tantas outras mãos que ainda asseguram a sobrevivência da tradicional ourivesaria portuguesa. Os dois irmãos representam a minoria quase sem voz e que se sente entregue à própria sorte. Não há “salvação” para a arte deles.

E se ensinar os filhos a arte pudesse ser uma solução para o abandono, Joaquim e Guilherme acenam que não. “Ensinar um filho a ourives é ensinar a não fazer nada”, lamenta o irmão mais novo. Hoje são a quarta geração de ourives. E última.

Ficha técnica:

Liliana Faria Silva, Rita Gomes e Sofia Lopes

Agradecimentos:

Joaquim Silva, Guilherme Silva e Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso