Uma das coisas que mais escuto quando falo sobre o meu trabalho é: Ah, eu também queria ser fotógrafo. E normalmente respondo algo que raramente é compreendido: Acho que não. E digo isso porque sei de uma coisa:

(Tempo para você me xingar, dizer que eu sou louca, e bravejar que você sonhou com a profissão desde pequenino, ou seu vizinho, ou primo, ou sua mãe.)

Respira. Vou explicar.

A profissão é um sintoma, o maior deles, de quem queremos ser na vida. Não é necessariamente o que se faz trabalhando naquela área, mas quem você se torna, que valores experimenta, o salário que tem, a rotina que vivencia e, principalmente, a sua “vocação”, um compromisso em realizar algo maior.

Somos ensinados a escolher o que vamos fazer e não o motivo disso.

Talvez, por essa razão, temos hoje tantos profissionais frustrados em suas profissões. E também os que, por diversas dificuldades, são frustrados por não conseguir ser o que sempre sonharam.

Por exemplo: Sonhar ser um médico pode ser, lá no fundo, sonhar em salvar vidas. E se essa for a essência da escolha, a medicina é um dos caminhos possíveis, mas não o único. A rotina do médico lhe agrada? Plantões, estudo, dificuldade salarial em diversas áreas, lidar com o público, entre outras tarefas? Talvez trabalhar na praia, salvando pessoas de afogamentos, seja mais apropriado. Ou ainda trabalhar com pesquisas na própria área médica, ser bombeiro, entre várias outras profissões que se prestam ao mesmo propósito: salvar pessoas. Sonhar ser juiz pode ser sonhar em tomar grandes decisões, ter poder. E isso pode ser experimentado em outras atividades como, por exemplo, ser empresário.

A ideia de exercer essa profissão passa por liberdade, por criar coisas belas, por contar histórias. Qual o seu motivo?

Um dia antes do falecimento da Alice, minha primeira e tão preciosa filha, eu saí do hospital e fui em uma livraria bem pertinho, comprar um livro. Voltei e fiquei falando com ela, que dormia profundamente, que não consegui comprar nenhum título, apenas um caderno e uma caneta. Sentia que no fundo, ao invés de “ouvir”, eu precisava “falar”.

Desde criança o que eu mais gostava de fazer era isso: dizer algo. Sempre quis emitir opiniões, pensar e falar, falar muito, o tempo todo, e preferencialmente contra a corrente. Dizer coisas novas, pensar em outros pontos de vista. É, sem dúvida, o meu maior prazer. E demorei muito mais do que gostaria para entender que esse era o motivo da comunicação, da fotografia: eu quero me expressar, e quero fazer isso olhando sempre para o outro lado da moeda. Quero falar ao mundo coisas diferentes.

Depois de um longo período de luto e muita confusão, finalmente isso surgiu, veio à tona, e me permitiu tomar boas e difíceis decisões. A minha fotografia é a minha voz, meu grito. E claro, eu poderia experimentar isso em outros caminhos, mas a rotina do fotógrafo me interessa, então eu sei que estou na estrada certa.

Eu desejo, para o seu 2017, que você realmente encontre, não o que deseja fazer, mas o motivo pelo qual deseja fazer. Só assim as dificuldades encontradas não serão barreiras, aquelas desculpas para não alcançar o seu sonho vão cair por terra, e você vai trabalhar duro, perder noites, suar frio em muitos momentos, mas eu garanto que a sua jornada vai valer à pena.

Feliz ano (realmente) novo.

P.S.: As fotos são antigas, quando ainda estudando, virava noites tentando entender como a luz do flash se comportava de diversas formas. Ainda hoje faço estudos de luz, e essa é a parte que ninguém vê da profissão. Dá pra ver que o making of não é tão bonito quanto o resultado. ;-)

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Gabi Mateus

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