Jornalismo Literário Autor Conteudista: Laura Barcha

Módulo 1

Módulo 2

Jornalismo Literário na visão de Mark Kramer

Mônica Martinez

Válter Mendes de Oliveira ia morrer: seus rins não funcionavam mais. Médicos do Hospital das Clínicas de São Paulo o submeteram então — era a primeira vez no Brasil — a uma das mais difíceis operações que cirurgiões do mundo inteiro vêm tentando. Válter Mendes de Oliveira, 41 anos, três filhos, sócio de uma torrefação em São Paulo, é bastante cuidadoso com a saúde. Ele já andou bem ruim e agora tem suas cautelas. Logo cedo, na hora do café, toma a sua pílula diária. É um remédio caro que vem do exterior e que só seis pessoas no Brasil usam.

— Quando me levanto já pago três contos por minha vida. Se acontece de furar um pneu quando ele está sozinho no carro, não troca: pede ajuda. Muita gente estranha aquele homem com quase 70 quilos, cheio de saúde, pedir que lhe troquem o pneu. Porém, todos ajudam de boa vontade quando ele explica a razão: tem um rim só. Mas não é por isso que Válter não troca pneu.

— É por causa dos 98 pontos que eu tenho na barriga. Evito qualquer esforço para impedir uma hérnia. Só pelo rim eu arrastava até um caminhão.

Válter é católico, mas desses católicos que acham que Deus não deve ser incomodado com pedidos pessoais. Por isso, quando foi para o hospital receber os 98 pontos, e — na opinião de sua família — morrer durante aquela operação que nunca tinha sido feita na América Latina, não fez nenhuma promessa. Mas não pôde impedir que outros fizessem por ele. E teve de pagá-las, depois. A primeira, feita por um amigo baiano, era subir a escadaria da igreja do Bomfim, em Salvador. Outra, acompanhar descalço a procissão de São Benedito, em Parati. Velas do seu tamanho, já mandou mais de 100 para Aparecida do Norte. Só falta uma promessa, idéia de um parente lusitano: beijar a imagem da Virgem, em Fátima, Portugal. (trecho da reportagem A vida por um rim, escrita por José Hamilton Ribeiro para a revista Realidade, 1967)

Uma vez começada, dificilmente se interrompe a leitura de um texto com a abertura acima — Válter ia morrer...— , que convida o leitor a mergulhar na narrativa. Por falar em imersão, a do autor na realidade é a primeira das oito características apontadas por Mark Kramer, co-autor de Literary Journalism (Ballantine Books, 1995) para sistematizar um gênero que era definido até pouco tempo mais ou menos como você-sabe-que-é-JornalismoLiterário-quando-você-vê, como diz o autor. Em entrevista à autora em 2006, Moisés Rabinovici, atual diretor do jornal paulista Diário do Comércio, correspondente de guerra de O Estado de S. Paulo por décadas e participante da fase inicial do Jornal da Tarde, define essa imersão como “escrever com a pele, começando o texto pelo fato mais recente ou que mais tocou o profissional”. Esse mergulho na realidade, que tem como um dos alvos um alto nível de exatidão de informação, demanda muita pesquisa e familiaridade com a temática.

Esse mergulho na realidade, que tem como um dos alvos um alto nível de exatidão de informação, demanda muita pesquisa e familiaridade com a temática. A repórter especial Eliane Brum, da revista Época, lembra uma vez em que estava cobrindo o enterro de uma pessoa empobrecida. O calor era intenso e sobre o muro do modesto cemitério um sabiá parou de cantar justamente na hora em que o caixão foi colocado na cova. O fato foi registrado pela jornalista não porque complementava com perfeição a cena, mas por ter acontecido. Para registrá-lo, a repórter teve de estar presente no local, acompanhar o funeral, ter sensibilidade para notar as tramas paralelas e, claro, ter bagagem cultural que permitisse identificar a espécie que estava a silenciar.

A apuração precisa, segundo Kramer, também implica a questão ética do autor tanto com o leitor quanto com a fonte — afinal há apurações que levam um longo período de tempo para serem feitas, o que pode gerar bastante vinculação pessoal. Em ambos deve ficar claro que o jornalista está no local como um profissional, não sendo nem inimigo nem amigo, mas uma testemunha da realidade. Essa atuação ética é segunda característica apontada por Kramer. Para fazê-la, o jornalista deve deixar claro seu método de trabalho. Isso demanda uma conversa prévia na qual expõe a duração prevista da apuração, o enfoque e eventual tamanho da matéria, onde será publicada, se ouvirá outras pessoas e pretende ou não compartilhar o texto antes da publicação, bem como o impacto que imagina que a cobertura pode causar na vida daquela pessoa ou comunidade — ou seja, deve haver transparência no relacionamento com a fonte para que ela possa, inclusive, recusar o convite para participar.

Jornalismo Literário pede acesso fácil e constante à fonte para gerar a familiarização necessária, daí os eventos rotineiros serem um campo fértil e inesgotável para boas pautas. Kramer lembra também o pacto entre leitor e jornalista. Estamos no campo da realidade e ainda que o profissional reconstrua o que se desenrola de acordo com sua bagagem sociocultural, o leitor espera que o jornalista seja honesto o suficiente para relatar o que vê. Caso contrário, estaria lendo ficção ou um livro baseado em fatos reais. Isso significa não inventar nem alterar nada. Em Jornalismo Literário, quem conta um ponto não aumenta um ponto. Citações e pensamentos, por exemplo, devem ser verificados da forma mais simples que existe: perguntando à fonte.

A terceira característica apontada pelo estudioso americano vai na contra-mão dos jornalismo tradicional contemporâneo, obcecado com manchetes sensacionalistas e celebridades, de preferência internacionalmente conhecidas. Para Kramer, jornalistas literários devem prestar atenção e escrever sobre acontecimentos rotineiros, lançando luzes sobre fatos que aparentemente passam despercebidos. [...]

Voz autoral é a quarta característica proposta por Kramer. Segundo o autor, o jornalista literário tem personalidade. Como pessoa integral que é, pode ter traços tão díspares como intimidade, franqueza, ironia, estranhamento, confusão, até ser julgador ou um tremendo gozador. Aliás, é essa voz íntima que, manifestada de forma mais implícita do que ostensiva, gera um campo de conexão com o leitor.

Por extensão, estilo é a quinta característica nesse rol. Nesse quesito, o excesso infelizmente é bastante comum. Libertos da pseudocientífica mordaça do jornalismo tradicional, que se pretende imparcial e impessoal, boa parte dos jornalistas que deseja fazer Jornalismo Literário lamentavelmente usa e abusa de uma linguagem artificial e rebuscada. O que é uma pena, pois precisão é uma das grandes vantagens do texto jornalístico. [...] Em Jornalismo Literário, menos continua sendo mais — mão pesada nunca teve vez entre os leitores.

Na concepção de Kramer, a posição móvel do autor vale ouro no Jornalismo Literário, sendo a sexta característica por ele apontada. Ele está livre da tradicional narração em terceira pessoa para fazer experimentações quanto ao ponto de vista. Aliás, o limite nesse quesito é a competência autoral — e a liberdade não deixa de ser assustadora. Nesse ir e voltar para contar bem uma história, um elemento-chave é a digressão, aquela arte de contar algo indiretamente relacionado para enriquecer a narrativa e voltar ao ponto, findo o desvio. Mas, atenção! Para ser eficaz, esse recurso tem de ser usado nos pontos culminantes da narrativa, como o capítulo de sábado de uma boa novela. Se a digressão estiver no lugar errado, o leitor pára a leitura, vai fazer outra coisa e não volta mais.

A sétima característica é a arte de conferir uma estrutura adequada à história, uma vez que, segundo Kramer, narrativa primária, histórias e digressões se misturam para ampliar e para recompor os fatos. Isso porque se trata de uma forma jornalística principalmente narrativa, isto é, no qual a história é apresentada por meio de cenas que se desencadeiam em seqüencia, como um bom romance.

Finalmente, a oitava característica apontada por Kramer é a criação de sentidos, obtida principalmente com o uso de símbolos e metáforas para facilitar a conexão com o leitor. Todo o trabalho do jornalista é perdido se o leitor não tiver idéia do que ele está falando e, também, se não souber de onde e para onde está sendo conduzido. A história precisa ter um fio condutor e ressoar na experiência pessoal do leitor, que tem de sentir a catarse de chegar a algum lugar depois de ter aceitado acompanhar o protagonista da história por várias cenas, ordenadas de forma a revelar gradativamente a situação.

https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/1984-6924.2009v6n1p71/10418

Link ao texto completo de Mônica Martinez. Jornalismo Literário: a realidade de forma autoral e humanizada

Módulo 3

O Conceito: uma estrela de sete pontas

Felipe Pena

Afinal, o que é jornalismo literário? Não se trata apenas de fugir das amarras da redação ou de exercitar a veia literária em um livro-reportagem. O conceito é muito mais amplo. Significa potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lide, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos. No dia seguinte, o texto deve servir para algo mais do que simplesmente embrulhar o peixe na feira.

Ficou confuso? Então, vou desenvolver cada um desses temas para facilitar a compreensão. É o que eu chamo de estrela de sete pontas, pois são sete diferentes itens, todos imprescindíveis, formando um conjunto harmônico e retoricamente místico, como a famosa estrela.

Vamos começar pelo primeiro: potencializar os recursos do jornalismo. O jornalista literário não ignora o que aprendeu no jornalismo diário. Nem joga suas técnicas narrativas no lixo. O que ele faz é desenvolvê-las de tal maneira que acaba constituindo novas estratégias profissionais. Mas os velhos e bons princípios da redação continuam extremamente importantes, como, por exemplo, a apuração rigorosa, a observação atenta, a abordagem ética e a capacidade de se expressar claramente, entre outras coisas.

A segunda ponta da estrela recomenda ultrapassar os limites do acontecimento cotidiano. Em outras palavras, quer dizer que o jornalista rompe com duas características básicas do jornalismo contemporâneo: a periodicidade e a atualidade. Ele não está mais enjaulado pelo deadline, a famosa hora de fechamento do jornal ou da revista, quando inevitavelmente deve entregar a sua reportagem. E nem se preocupa com a novidade, ou seja, com o desejo do leitor em consumir os fatos que aconteceram no espaço de tempo mais imediato possível.

Seu dever é ultrapassar estes limites e proporcionar uma visão ampla da realidade, que é a terceira característica sugerida. Mas não entenda por visão ampla um pleno conhecimento do mundo que nos cerca. Qualquer abordagem, de qualquer assunto, nunca passará de um recorte, uma interpretação, por mais completa que seja. A preocupação do jornalismo literário, então, é contextualizar a informação da forma mais abrangente possível, o que seria muito mais difícil no exíguo espaço de um jornal. Para isso, é preciso mastigar as informações, relacioná-las com outros fatos, compará-las com diferentes abordagens e, novamente, localizá-las em um espaço temporal de longa duração.

Em quarto lugar, não necessariamente nessa ordem, é preciso exercitar a cidadania. Um conceito tão gasto que parece esquecido. Tão mal utilizado por quem não tem qualquer compromisso com ele que caiu em descrédito. Mas você não pode ignorá- lo. É seu dever, seu compromisso com a sociedade. Quando escolher um tema, deve pensar em como sua abordagem pode contribuir para a formação do cidadão, para o bem comum, para a solidariedade. Não, isso não é um clichê. Chama-se espírito público. E é um artigo em falta no mundo contemporâneo.

A quinta característica do jornalismo literário rompe com as correntes do lide. Para quem não sabe, o lide é uma estratégia narrativa inventada por jornalistas americanos no começo do século passado com o intuito de conferir objetividade à imprensa. Segundo Walter Lippman, autor do célebre Public Opinion (1922), tal estratégia possibilitaria uma certa cientificidade nas páginas dos jornais, amenizando a influência da subjetividade através de um recurso muito simples. Logo no primeiro parágrafo de uma reportagem, o texto deveria responder a seis questões básicas: Quem? O que? Como? Onde? Quando? Por quê? A fórmula realmente tornou a imprensa mais ágil e menos prolixa, embora a subjetividade não tenha diminuído. A opinião ostensiva foi apenas substituída por aspas previamente definidas e dissimuladas no interior da fórmula. Para a socióloga Gaye Tuchman, por exemplo, a objetividade nada mais é do que um ritual de auto-proteção dos jornalistas. E a pasteurização dos textos é nítida. Falta criatividade, elegância e estilo. É preciso, então, fugir dessa fórmula e aplicar técnicas literárias de construção narrativa.

A sexta ponta da estrela evita os definidores primários. Eles são os famosos entrevistados de plantão. Aqueles sujeitos que ocupam algum cargo público ou função específica e sempre aparecem na imprensa. São as fontes oficiais: governadores, ministros, advogados, psicólogos, etc. Como não há tempo no jornalismo diário, os repórteres sempre procuram os personagens que já estão legitimados neste círculo vicioso. Mas é preciso criar alternativas, ouvir o cidadão comum, a fonte anônima, as lacunas, os pontos de vista que nunca foram abordados.

Por último, a perenidade. Uma obra baseada nos preceitos do jornalismo literário não pode ser efêmera ou superficial. Diferentemente das reportagens do cotidiano, que, em sua maioria, caem no esquecimento no dia seguinte, o objetivo aqui é a permanência. Um bom livro permanece por gerações, influenciando o imaginário coletivo e individual em diferentes contextos históricos. Para isso, é preciso fazer uma construção sistêmica do enredo, levando em conta que a realidade é multifacetada, fruto de infinitas relações, articulada em teias de complexidade e indeterminação.

http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R1506-1.pdf

Link ao texto completo de Felipe Pena. O jornalismo literário como gênero e conceito

Created By
Maria Beatriz Cruz
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