Loading

Um olhar daqui para frente Telejornalismo em tempos de Covid-19

Há mais de 100 dias com regras de distanciamento social, mais especificamente desde o final de fevereiro, a rotina do mundo virou de cabeça para baixo. Com o surgimento da Covid-19 — doença infecciosa causada por um vírus recém-descoberto — hábitos antes vistos como comuns precisaram ser revistos e, até mesmo, se adequar ao contágio rápido do novo coronavírus.

Nesse contexto, em que o distanciamento social é essencial para ajudar a controlar a pandemia, diversos setores precisaram se reinventar rapidamente. E um deles foi o do telejornalismo, que compõe o quadro de serviços considerados essenciais para a nação, de acordo com uma Medida Provisória (MP) assinada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e publicada no dia 22 de março em edição extra do Diário Oficial da União (DOU).

Com o avanço da pandemia, também cresceu a incerteza diante do novo vírus e quais consequências ele poderia causar. A partir disso, junto de um período onde o jornalismo brasileiro se encontra em descrédito e ameaçado por conta do avanço das fake news e de ataques diários — como episódios ofensivos do presidente da República contra jornalistas e veículos de imprensa, que se tornou algoz para apoiadores do Governo Federal fazerem o mesmo — a cobertura jornalística ganhou novos olhares frente à crise sanitária que se instaurou no país e no mundo.

Estudo da Kantar IBOPE Media revelou um crescimento exponencial na audiência do telejornalismo durante a quarentena — Foto: Flickr

Em resposta a isso, segundo uma pesquisa da Kantar IBOPE Media, foi possível perceber que o jogo de cintura que as empresas de comunicação estão fazendo para conseguir entregar matérias de qualidade em um período tão atípico surtiu efeito, já que o estudo revelou um crescimento exponencial na audiência do telejornalismo durante a quarentena.

A reportagem fez uma comparação da audiência, por meio de dados disponibilizadas no Kantar IBOPE Media, em três dos quatro telejornais de maior audiência da TV aberta brasileira (Jornal Nacional da TV Globo, Jornal da Record da TV Record e Jornal da Band da TV Band). A partir daí, foram analisadas sete semanas marcadas por acontecimentos importantes ao longo da linha do tempo da pandemia de Covid-19 (gráfico abaixo). São eles: (1) Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada sobre casos de pneumonia com causas desconhecidas; (2) confirmado primeiro caso de coronavírus no Brasil; (3) OMS declarou pandemia de coronavírus; (4) Ministério da Saúde é notificado da primeira morte por coronavírus no Brasil; (5) completa um mês da primeira morte pelo novo coronavírus no Brasil; (6) Brasil supera a marca de 10 mil mortos decorrentes do novo coronavírus; e (7) país ultrapassa a marca de 1 milhão de casos confirmados do novo coronavírus.

Dessa forma, a audiência dos telejornais analisados ao longo das semanas cresceu de maneira exponencial, onde na semana 4, quando foi notificada a primeira morte no Brasil, todos os telejornais registraram pico de audiência, sendo o Jornal Nacional da TV Globo (34,2 pontos) o líder entre os três analisados. Em seguida, a audiência, segundo os dados, apresenta uma queda, onde se mantém instável. No entanto, resquícios do período da audiência elevada permaneceram mesmo com a baixa a partir do mês de abril.

Os dados dados foram disponibilizados pelo Kantar IBOPE Media.

O risco

Em tempos de pandemia os serviços essenciais são os mais afetados por estarem na linha de frente de combate ao novo coronavírus. Entre eles: médicos, enfermeiros e, também, os jornalistas, já que levar informação é essencial durante momentos de incerteza, o que ajuda a população a se prevenir de maneira mais efetiva diante de uma ameaça. Entretanto, mesmo tomando os cuidados necessários, os jornalistas ainda correm risco ao se expor em nome da informação, sendo o perigo personificado por uma possibilidade maior de contaminação. Tão perto dos casos, os profissionais da imprensa estão a mercê do contágio pela doença, o que também causa risco para as pessoas próximas aos jornalistas e até mesmo a morte desses profissionais.

Até o dia 1º de julho mais de 180 jornalistas morreram em decorrência da Covid-19 em 35 países. De acordo com informações da ONG Emblem Press Campaign (PEC), a vítima mais velha foi o indiano Gulshan Ewing, 92 anos, que atuava no Reino Unido. Enquanto isso, a mais nova foi a brasileira Letícia Fava, 28 anos, moradora de Jundiaí, cidade do interior de São Paulo.

As mortes de jornalistas por Covid-19 inciariam em março, mês em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou surto de pandemia.

Telejornalismo se reinventando

Para se adaptar à esta nova realidade e preservar a saúde dos profissionais, o meio jornalístico como um todo precisou se reinventar. No telejornalismo essas novas adequações podem ser vistas até por quem está de fora. Um exemplo claro são as novas formas de se fazer entrevista, que podem ser realizadas por videoconferência.

Nem todo o esforço fica visível ao telespectador, porque toda estrutura do telejornal precisou sofrer alterações. Para o professor de telejornalismo William de Oliveira, os profissionais estão usando ainda mais as tecnologias, como o celular, que está cada vez mais presente. "O telejornalismo tem usado bem essas ferramentas. Já usava e agora potencializou mais ainda", observa.

Do Planejamento ...

“O maior desafio da minha carreira” é como a diretora de jornalismo da Record News Espírito Santo, Jadna Duque, define a jornada de trabalho em meio a pandemia de Covid-19 no estado.

Responsável pela produção do Link Espírito Santo, telejornal diário da Record News, e de outros programas da rede, a diretora de jornalismo precisou encontrar novas formas de ajudar a equipe a produzir conteúdo diário dentro da redação. Ela explica que um dos principais desafios neste período está no encontro presencial das fontes com o repórter.

“Um grande desafio é como entrevistar as pessoas, principalmente as fontes, num momento em que está todo mundo com medo. A tecnologia é uma grande aliada nesse momento, estivemos gravando por meio de plataformas ao qual o entrevistado tenha mais afinidade”, explica.

Jadna comenta também que um outro limitante em meio a produção de um telejornal diário é a dificuldade que está em pautar a equipe e destrinchar temas sobre o mesmo assunto diariamente. As redações tiveram que se adaptar para trabalhar com apenas um assunto durante este tempo.

“Imagine pegar um jornal e observar a manchete principal do dia. Com o tempo, essa notícia desce, pois perde o grau de relevância. Hoje é como se a manchete principal fosse sempre a mesma e isso é extremamente desafiador”, destaca.

A profissional ainda conta que o desafio da imprensa é exatamente o de contar histórias a partir de um vírus que tomou conta de todo o mundo. “Quando a gente pensa a cobertura jornalística, onde a gente vai parar e planejar o dia-a-dia na redação, nós pensamos sempre em trabalhar o que está ao nosso entorno”, conclui.

... às ruas

Por precisarem de informação em conteúdo audiovisual, os repórteres de TV precisam ir às ruas, diferente de jornalistas do impresso, online e rádio, que durante a pandemia têm a possibilidade de executar o trabalho por meio de home office.

O ofício, praticado durante o período de risco à saúde, teve que ser repensado e várias mudanças ocorreram em relação ao contato com fontes e aquisição de informações. Segundo o jornalista e repórter da Record News Espírito Santo Rodrigo Schereder, a pandemia afetou bastante o trabalho da equipe de telejornalismo e do conteúdo compartilhado com o público. “Não temos mais o recebimento de convidados na bancada e o noticiário é focado para a Covid-19. Nós fazemos uma cobertura de quase cem por centro da pandemia”.

Em relação à maneira de realizar entrevistas, Schereder conta que a tecnologia contribui bastante com esse momento, por possibilitar o contato com fontes e o feedback dos telespectadores. “Algumas pessoas não se sentem à vontade, então as entrevistas são feitas por telefone ou pela internet. A fonte faz o vídeo e encaminha para o jornal”, afirma.

Ele também acredita que os celulares estão ajudando a dinamizar o acesso à informação. Essa fusão do jornalismo com o meio digital já vinha acontecendo, porém, agora ela está mais viva do que nunca. A pandemia testou a imprensa e a fez investir em novas possibilidades ao usar a mídia e o telespectador como o apoio, que contribui, consequentemente, para um jornalismo mais democrático.

Das lentes ...

Ao contrário dos profissionais que trabalham produzindo reportagens em formato audiovisual para televisão, a cinegrafista Bárbara Greco trabalha produzindo imagens e editando vídeos para o jornal online ESHOJE. Dessa forma, não existe, necessariamente, a necessidade de sair diariamente às ruas, o que segundo a profissional, diminuiu consideravelmente.

“Nosso trabalho, resumidamente, fica na redação. Poucas vezes eu saí para alguma coletiva, completamente adaptada a essa nova situação, ou para fazer foto de dentro do carro em longas distâncias, evitando aglomerações”, explica Bárbara, que ainda completa dizendo que está trabalhando por meio rodízio, onde a equipe se encontra reduzida na redação do jornal, para manter o distanciamento.

Em razão dessa situação, a única cinegrafista mulher no Espírito Santo conta que a tecnologia está sendo utilizada ainda mais a favor da produção de conteúdo jornalístico em vídeo. De acordo com Bárbara, o celular está sendo um grande aliado durante o período de pandemia.

“Por meio dele [celular] que a gente consegue ter acesso a imagens e vídeos, por optar não por sair da redação [...] Isso facilita muito essa comunicação de, às vezes, a gente enviar perguntas para as pessoas e elas responderem por vídeo ou fazer uma videochamada. Até mesmo imagens de apoio conseguimos pelo celular. Mas claro, não é a mesma coisa, a captação do áudio, a imagem... Tudo isso fica comprometido. Mas na atual circunstância costuma salvar bastante”, ressalta.

No entanto, quando necessário sair, Bárbara relata que cumprir o distanciamento no exercício da profissão é complicado. “Na hora de gravar uma sonora, em uma coletiva de imprensa, pelo menos, é muito desafiador, porque os cinegrafistas estão sempre coladinhos. É desafiador conseguir fazer isso respeitando o limite de espaço”.

... às telas

Na pandemia o editor de imagens — profissional que constrói as reportagens que são veiculadas pelos telejornais — também teve a rotina de trabalho alterada em diversos aspectos, como no uso do material recebido de casa, que, segundo o editor de imagens da TV Tribuna, afiliado ao SBT no Espírito Santo, Kenney Cupertino, é de extrema importância.

O profissional afirma que as equipes, com intuito de evitar o contágio pelo novo coronavírus, não podem adentrar as casas para realizar imagens, o que dificulta a tentativa de mostrar a rotina das pessoas em tempos de pandemia. Com esse obstáculo, a solução foi pedir para os próprios telespectadores mostrassem o dia a dia. No entanto, os editores ainda enfrentam um problemas: educar a população a gravar da melhor maneira para as reportagens em vídeo.

Dessa forma, Cupertino afirma que o advento das redes sociais educou as pessoas a gravarem vídeo vertical. “Chega muito material na vertical para a gente, muitas vezes selecionado e requisitado, e muitas vezes sugestões e denúncias. O meu trabalho na ilha de edição é deixar o material agradável de uma maneira que possa passar na televisão”, conta.

O profissional também destaca a seleção do material, onde põe na balança a qualidade da imagem e a importância da informação. Para evitar problemas na imagem, o profissional comenta que, na maioria das vezes, tenta orientar a população em relação a produção de imagens. “Damos dicas para [os telespectadores] gravarem em lugares iluminados e sem muito barulho”, explica.

... Tudo mudou. Mas, é para sempre?

O futuro pós-pandemia ainda é uma incógnita já que neste momento há mais perguntas do que respostas. Ainda assim já é possível supor que essa experiência provocará, como já vem provocando, mudanças em todas as esferas da sociedade. No jornalismo, algumas dessas mudanças já podem ser estimadas.

Entretanto, o professor alerta que nem tudo permanecerá, e que o convencional ainda é importante. Algumas adaptações são provisórias para realizar o trabalho diante deste cenário, como o contato direto entre repórter e fonte. "A coisa do repórter estar frente a frente com a fonte, olho no olho, vendo as expressões, fazendo pergunta... Isso está em voga ainda, isso existe. Sempre que puder eu vou estar de frente para a minha fonte", completa Oliveira.

O professor de telejornalismo ainda reconhece a dificuldade de prever qual o legado desse período para o jornalismo, mas acredita que a informação passará a ser mais apurada. Na visão dele, o jornalismo assumirá uma postura mais responsável para combater a desinformação e as fake news.

"Nós somos um porto seguro para que a pessoa consiga obter uma boa informação" — William de Oliveira

REPORTAGEM

Daniela Esperandio, Matheus Passos, Pedro Pimenta, Rafhael Pardin, Victoria Singui

REVISÃO

Matheus Passos

EDIÇÃO DE ARTE

Victoria Singui

GRÁFICOS

Rafhael Pardin

EDIÇÃO DE VÍDEO

Daniela Esperandio

PROFESSOR ORIENTADOR

Paulo Soldatelli