Japuíra: transformação de mulheres, de comunidades O empreendedorismo dos mato-grossenses fomenta o uso do algodão

Idealizado por produtores da Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), em 2004, o Projeto Japuíra já atendeu mais de 3.500 pessoas de 21 cidades do estado. O objetivo inicial foi compartilhar com a população, os benefícios da cotonicultura.

Projeto de capacitação de mão de obra em costura industrial, o Japuíra foi além. Por todo estado se pode escutar histórias sobre a transformação de grupos de localidades de baixa renda, ao garantir que seus integrantes desenvolvessem melhores condições de vida e de desenvolvimento social, próprio e das suas famílias.

As costureiras treinadas pela metodologia do Projeto, são equiparadas às melhores costureiras da indústria têxtil mato-grossense e que estão no mercado de trabalho, há muitos anos. E, como também tem o objetivo de preparar os participantes para o mercado, estes precisam de conhecer formas de aumentar a produtividade, para só assim, tornarem-se competitivos com produtos de baixo custo e qualidade

Estima-se que já foram fabricadas cerca de 1.600.000 peças por mulheres atendidas pelo Projeto Japuíra.

Os cursos e treinamentos são oferecidos em parceria com prefeituras ou entidades beneficentes do estado. O Instituto Mato-Grossense de Algodão - IMAmt - fornece instrutores, máquinas de costura, tecidos e linhas. A contrapartida dos parceiros é disponibilizar o espaço, a infraestrutura para os cursos e mobilizar os alunos para a formação das turmas

Além de garantir a capacitação das pessoas treinadas para a indústria de confecção, o projeto estimula o empreendedorismo, incentivando os participantes dos cursos a formarem cooperativas de costura ou trabalharem por conta própria. Ou seja, além do fomento do algodão, o Japuíra trabalha no crescimento profissional de pessoas que desconheciam quais caminhos poderiam tomar.

Durante os 90 dias de treinamento, as atendidas aprendem a cortar o tecido, costurar e dar acabamento às peças, assim desenvolvem habilidades práticas para elaboração do produto têxtil final, os vestuários e outros produtos, seria a atividade fim. Para poderem empreender, elas também recebem treinamentos específicos sobre gerenciamento e comercialização, a atividade meio.

Desde setembro de 2012, O Instituto Brasileiro do Algodão - IBA - repassa recursos para os insumos necessários que viabilizam o aprendizado e mantém as atividades do treinamento. Apoia na compra de máquinas industriais de costura, bem como da manutenção dessas, sempre visando expandir a capacidade de atendimento e criando oportunidade para a continuidade do trabalho de cada grupo.

Como resultado, até o final de 2017, serão capacitadas mais 300 pessoas, por meio de cerca de 20 turmas.

Entre os municípios já contemplados com o Projeto Japuíra, há localidades em que o algodão nem era produzido, como Nortelândia, Nova Olímpia e São José do Povo.

Cidades produtoras de fibra também possuem grupos treinados e em treinamento, como Poxoréu, Juscimeira, Pedra Preta, Guiratinga, Campo Verde, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Rondonópolis.

Em algumas dessas localidades, foram previamente definidos algumas temáticas a serem trabalhadas, como o caso de Campo Verde, onde o treinamento focou na confecção de roupas com tecido jeans, e em Sorriso, onde se voltou para as roupas íntimas.

Mas, independente de uma moda específica, nas 528h de treinamento, as mulheres atendidas também se capacitam para trabalharem com facção de calças, saias, camisetas, bermudas, malhas, e moda íntima, citada acima.

Para poderem empreender com toda essa diversidade de produtos, diferentes tipos de máquinas industriais foram instaladas em cada localidade: overlock, interlock, pespontadeira, travete e reta, entre outras.

Atendidas do Projeto Japuíra de Nortelândia-MT junto com o coordenador do Projeto Japuíra, Osmar Rodrigues
"Para nós, que nos dedicamos ao Japuíra e acreditamos na capacidade desse projeto de mudar a vida das pessoas para melhor, é uma grande satisfação quando se inicia ou se conclui mais um treinamento. Há uma demanda muito grande em Mato Grosso por esse tipo de mão de obra" - Osmar Rodrigues - coordenador do Projeto Japuíra
Japuíra é uma ave típica da região do Pantanal. Nessa espécie, o macho recolhe os galhos e folhas, mas a fêmea é quem produz, do começo ao fim, o ninho dos filhotes.

As costureiras de novas vidas explicam seus caminhos

Projeto Japuíra: Nortelândia-MT

Ângela Santana da Silva: coordenadora de grupo

Ângela Santana

Nascida em Sorriso-MT, Ângela morou alguns anos em Nortelândia, mas retornou para a cidade natal, onde ficou por 10 anos. Com o pai doente, resolveu voltar para a Nortelânida. Foi morar num sítio no assentamento Barreirão, na região rural do município.

Um dia "a menina do balcão de emprego" perguntou se ela não gostaria de aprender a costurar.

"Falei para mim mesma, ‘gente, eu tenho que aprender’. Olhava para a minha mesa e via um monte de tecido, e eu nem sabia colocar a linha na máquina. A professora falava que confiava em mim e que eu conseguiria. Eu olhava e pensava: será que eu vou conseguir trabalhar aqui?"

Como chegou com o treinamento já em andamento, todo mundo tinha alguma experiência. Ângela olhava e copiava o que as outras faziam. Com o tempo já começa a olhar para um novo futuro.

Percebeu que havia máquinas e outras mulheres interessadas a ingressar no Japuíra. Conversando com a coordenação, propôs a criação de um segundo grupo para a cidade de Nortelândia. Há três anos, ela é a coordenadora destas outras costureiras do núcleo.

"Eu penso que quando fazemos algo com amor, algo que queremos aprender, nós conseguimos. Hoje eu corto e costuro para fora, para outras cidades do Mato Grosso"

No vídeo abaixo, Ângela conta um pouco dessa sua trajetória e das mudanças de suas companheiras de Japuíra:

Vídeo gravado no dia 21 de setembro de 2016

Cleonice Dias Magalhães

Uma das primeiras atendidas no Projeto Japuíra de Nortelândia, Cleonice trabalhava como cozinheira do hospital da cidade durante 10 anos. Filha de costureira, ela descreve a sua vida no pouco mais de 6 anos que aprendeu uma nova carreira.

Vídeo gravado no dia 21 de setembro de 2016

Edileuza Santos

Moradora da cidade vizinha de Arenápolis-MT, na verdade apenas uma ponte a separa de Nortelândia, Edileuza se emociona ao falar da mudança que ocorreu na sua vida, e na vida de sua família

Entrevista: Edileuza Santos

Como o Japuíra entrou na sua vida?

Em Arenápolis eu trabalhava como voluntária e fui fazer uma visita para as crianças da APAE - Associação de Pais a Amigos dos Excepcionais. Chegando lá, me deparei com o pessoal do IMAmt. Eles explicaram que haviam trazido máquinas e estavam começando a ensinar a costurar. Fiquei curiosa e perguntei: “- E o preço?? Quanto é??”. Perguntei porque normalmente é caro. Não é um curso barato. Já tinha 30 dias que havia começado.

E você já tinha alguma experiência com costura?

Eu? No primeiro dia eu tremia de medo. Mas fiquei e gostei. Em 20 dias já estava fazendo coisas que normalmente demora uns 90 dias para fazer. Infelizmente em Arenápolis o programa não foi para frente, como aconteceu aqui em Nortelândia. Fiquei sabendo que aqui além do curso com as máquinas estavam dando curso de jeans. Mais do que depressa vim para cá. Resolvi ir atrás da profissão que eu quero para mim.

E como você foi recebida pelo grupo de Nortelândia?

Tive que passar pelos 30 dias de experiência. Mas fiquei feliz. Mesmo sem produção na época, e sem ganhar nada, eu fiquei, e fiquei com muita disposição de batalhar.

Dá para perceber que naquele momento você sabia o que queria mesmo.

Eu era do lar. Eu estava incomodada com aquilo. Queria alguma coisa a mais. E aqui encontrei uma nova família. Passamos a maioria do tempo por aqui. Quando começamos a produzir para fora, chegou a ter dias que saíamos às 22h daqui, sempre animadas. Tínhamos que cumprir os prazos. Tudo mudou. Da água pro vinho, pois agora sou independente.

E isso refletiu em casa?

Com certeza. Não precisava mais ficar pedindo dinheiro para o marido para fazer as compras. Agora eu tenho o meu. Tenho o meu e ajudo. Tenho uma filha que faz duas faculdades. Ele assumiu uma e eu assumi a outra.

Você está pagando uma faculdade com o que ganha no projeto?

E o melhor, a que eu pago é a que ela está terminando. Ela faz estética e biologia. Quando ela passou para estética ela me perguntou o que faria. Qual escolheria. Eu disse, vai fazer as duas. Continua uma e começa a outra.

E como você se vê em 3, 5 anos?

Vai ser tudo de bom. Tudo em paz. Antes não era, era uma coisa obscura. Hoje não. Hoje eu sei o que eu quero. Hoje eu sei o caminho.

No Projeto Japuíra o algodão tece vidas, um tecer que vai além da costura. A transformação está em cada olhar, em cada sorriso, em cada aprendizado.

Vídeo gravado no dia 21 de setembro de 2016

Com essas histórias, vemos como o algodão concretiza sonhos. Mostra um caminho trilhado para o empreendedorismo social, que contribui não apenas para a vida das mulheres atendidas, mas também para o desenvolvimento do Mato Grosso.

Galeria de Fotos

Atendidas no Projeto Japuíra de Bauxi-MT

Referências

  • entrevistas com atendidas e gestoras dos Projetos Japuíra das cidades de Nortelândia e do núcleo de Bauxi, em Rosário Oeste, realizadas no dia 21 de setembro de 2016
  • www.iba-br.com
  • www.imamt.com.br
  • www.ampa.com.br
  • www.abrapa.com.br
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IBA - 2016
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