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Missas em tempo de Pandemia Com a suspensão das missas comunitárias, os sacerdotes rezam sozinhos ou em frente a uma câmara por todos os que, em casa, se vão unindo a eles em oração.

Texto: Ricardo Perna | Fotos (de arquivo): Ricardo Perna e João Lopes Cardoso

O final das missas comunitárias decretada pela Conferência Episcopal Portuguesa, e um pouco por todo o mundo, não significou o final de todas as missas. Em todo o país, muitos sacerdotes rezam, diariamente, a missa, sozinhos, ou em pequenos grupos, no caso das comunidades religiosas.

O tempo de pandemia, obriga, assim, a uma mudança nos hábitos e rotinas de sacerdotes e bispos em todo o país, de modo a fazerem face às limitações impostas pela pandemia do novo coronavírus. Neste sentido, a Família Cristã foi à procura de sacerdotes e bispos que pudessem testemunhar como é o seu novo dia a dia.

D. Jorge Ortiga preside à eucaristia no Paço Episcopal, acompanhado de D. Nuno Almeida, bispo auxiliar, e o Pe. Paulo Terroso, do Gabinete de Comunicação da diocese.

No Norte, D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, foi o primeiro prelado português a anunciar que transmitiria diariamente a eucaristia a partir do Paço Episcopal, presidida por ele ou por D. Nuno Almeida, bispo auxiliar. Uma decisão que procura viver fazendo uma «experiência de unidade» com o povo que, não estando presente, acompanha diariamente a eucaristia. São cerca de 1200 pessoas que, todos os dias, acompanham em direto a celebração, e os vídeos que ficam disponíveis posteriormente já atingiram quase as 50 mil visualizações, segundo dados da arquidiocese, um «estímulo», nas palavras do arcebispo, que falou à Família Cristã por telefone e afirmou que este «pode ser um sinal de regresso à dimensão espiritual da vida».

«É um número muito significativo e é a certeza que o nosso povo está a viver como que uma sede espiritual no modo e na maneira de responder a esta situação inesperada, que está a exigir das pessoas comportamentos novos»

O que mais tem tocado o arcebispo de Braga é a experiência de «uma Igreja que se exprime na comunhão» espiritual. «Esta realidade da comunhão espiritual é aquela que me tem tocado mais pessoalmente, por sentir que estou sozinho, mas ao mesmo tempo que, por trás de mim, tenho esta multidão de cristãos, que sentem a necessidade de celebrar a fé, louvar a Deus e pedir graças. É uma experiência interessante, porque a comunhão não é apenas uma comunhão de presença das pessoas, é uma comunhão espiritual muito forte», afirma.

O Pe. Duarte da Cunha, numa missa em Santa Joana Princesa, antes da suspensão decretada pela Conferência Episcopal Portuguesa.

Em Lisboa, o Pe. Duarte da Cunha, pároco de Santa Joana Princesa sentiu-se na necessidade de transmitir diariamente a eucaristia online precisamente por essa experiência de comunhão que os seus paroquianos lhe pediam. «Há muitas missas já [online], mas há uma relação de proximidade e conhecimento das pessoas da paróquia e amigas, que se gostam de encontrar. Celebrando eu missa todos os dias, para mim, espiritualmente, é mais forte saber que estou acompanhado, ainda que desta forma», explica, em entrevista à Família Cristã por telefone.

O Pe. Duarte da Cunha desempenhou durante anos o cargo de Secretário-geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE)

Para o Pe. Duarte da Cunha, a experiência destes tempos é difícil. «A redução da missa a algo que se vê na televisão é sempre uma redução, não é a mesma coisa, e a missa tem um valor que é maior que as palavras que o padre possa dizer», diz o sacerdote, que explica que o feedback que lhe chega é, apesar de tudo, muito positivo. «No domingo chegaram a estar 180 pessoas a visualizar, e sabendo eu que algumas eram famílias que assistiam... devem ter estado 300 ou 400 pessoas na missa. Algumas famílias que têm pequenos oratórios em casa punham o ecrã no altarzinho e estavam ali em frente do altar na missa... as famílias têm rezado muito e estes meios também ajudam para isso», conta.

Em Fátima, o Pe. Carlos Cabecinhas lidera uma das duas equipas de sacerdotes que assegura as celebrações diárias

Em Fátima também se sente, e muito, o desaparecimento de peregrinos dos espaços de oração. O Pe. Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, lidera uma das duas equipas que assegura diariamente missa com transmissão online, e fala de uma experiência «dolorosa». «Uma das coisas que causa dor e tristeza é celebrar a missa não tendo o povo de Deus diante de nós. Não porque não queira participar, mas porque não pode, tendo em conta a circunstância que estamos a viver. É algo que é vivido, a nível pessoal, com alguma dor, o facto de estar a celebrar sem assembleia, o facto de não podermos ter diante de nós o povo de Deus que gostaria de ter o consolo de participação neste momento difícil que estamos a atravessar», revela o sacerdote, em conversa telefónica com a Família Cristã.

A Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima foi o local escolhido para a transmissão da missa diária

Positivo tem também sido a resposta das pessoas. O Santuário de Fátima indica que as missas diárias têm uma audiência combinada entre Youtube e Facebook (as transmissões são duplicadas em ambas as plataformas) de cerca de 5 mil pessoas em direto só nas missas, sendo que no terço a audiência online aumenta ainda mais. Apesar de já terem experiência de terem as suas celebrações a serem transmitidas, a resposta das pessoas tem impressionado o reitor do santuário. «Creio que esse é o aspeto positivo e que nos enche de ânimo nesta fase. Percebermos o quanto as pessoas têm procurado valorizar a vivência deste tempo do ponto de vista cristão, nomeadamente acompanhando as muitas ofertas de celebração que um pouco por toda a parte foram surgindo», refere o Pe. Carlos Cabecinhas.

O reitor recebe muitas mensagens, «por SMS ou e-mail», com ideias e sugestões, mas sobretudo a agradecer, «um agradecimento pela possibilidade que damos às pessoas de poderem atravessar este momento de tribulação com o conforto das celebrações que lhes são oferecidas». «É muito interessante que as pessoas sintam a necessidade de nos fazer chegar esta sua opinião e parecer este testemunho sobre a forma como estão a viver estes momentos», refere.

Por esta altura, todas as igrejas do país estão vazias de fiéis. O decreto da Conferência Episcopal Portuguesa e o estado de emergência decretado pelo Presidente da República a isso obrigam...

A experiência de celebrar sem ninguém à frente

Mas nem todos os sacerdotes celebram online. Muitos fazem-no no recato da sua igreja paroquial, sós, perante bancos despidos de gente e sem câmara a transmitir. É o caso do Pe. Francisco Mendes, pároco na Charneca de Caparica, na diocese de Setúbal. «Não posso dizer que seja uma experiência particularmente gratificante: um padre diocesano, como eu, praticamente vê a sua vida em função daqueles de que cuida em nome do Bispo. As vozes, o convívio, as iniciativas, as crianças, os casais, os jovens… Dou comigo a celebrar e a sentir o vazio destas presenças todas», confessa, referindo que celebra «por eles e em nome deles – eu sei bem disso – mas a Igreja-Comunidade que vive num determinado lugar, numa terra concreta, é obviamente estruturante da vida de cada batizado e ainda por mais razões da vida do pároco», diz.

O Pe. Francisco Mendes , pároco na Charneca de Caparica, diocese de Setúbal

O Pe. Francisco Mendes fala de uma «Quaresma com jejuns inesperados e difíceis» para todos, inclusive para os sacerdotes que gostavam de celebrar com a assembleia dos fiéis à sua frente. «Sei que há gente unida em oração naquele momento e em outros momentos do dia, com uma enorme pena de não poderem estar presentes e comungar, mas unidos. E sei porque os conheço, porque sei bem o que valem em tempos normais, e não esmorecem neste também», confia, referindo que continua a receber intenções de missa, embora «se tenham reduzido a menos de dez por cento do habitual».

O sacerdote publica fotos de espaços da sua igreja paroquial, acompanhadas das homílias que prepara e publica no perfil pessoal e no perfil da paróquia.

A importância de recuperar a tradição da Comunhão Espiritual

Impossibilitados de acompanhar fisicamente a Eucaristia, os fiéis não conseguem receber o Sacramento da Comunhão, o que tem permitido recuperar uma tradição da Igreja que estava mais abandonada, a comunhão espiritual. «S. Tomás de Aquino distinguia a comunhão espiritual como o objetivo último da comunhão sacramental. No fundo, comungamos sacramentalmente com o desejo de estarmos unidos a Deus, mas ao mesmo tempo é possível comungarmos sacramentalmente sem atingirmos esse fim, porque por vezes comungamos sem estar em estado de graça, ou distraídos, e acabamos por não alcançar esse estado de comunhão de Deus. Ao mesmo tempo, ele também dizia que é possível esta comunhão espiritual ser feita sem a comunhão sacramental, com o desejo de chegar à comunhão perfeita, que é sacramental e espiritual», explica o Pe. Duarte da Cunha.

Neste momento, as pessoas são convidadas a fazer uma afirmação de comunhão com Deus, através da comunhão espiritual, e desejar ardentemente que a comunhão sacramental possa chegar o quanto antes

D. Jorge Ortiga também tem falado muito da comunhão espiritual nas suas homilias, e refere que é uma tradição que importa recuperar. «Não podemos ser tradicionalistas, no sentido de guardarmos costumes, mas há muita tradição que tem consistência espiritual muito grande, e que importa recuperar. O que falava da comunhão espiritual é mais uma dessas tradições, que significa que podemos estar unidos uns com os outros, comungando o que gostaríamos que fosse físico, mas não é», refere o prelado.

A necessária preparação de falar para uma assembleia que não se conhece

Para quem transmite a sua missa online, os desafios de preparação são necessariamente diferentes de quem celebra sozinho. O Pe. Francisco Mendes não deixa de fazer homilias, que partilha depois na página de Facebook da paróquia. «Raras vezes escrevi homilias nestas quase duas décadas de padre. Preparadas são, sem dúvida, mas não escritas, porque sempre senti que me roubava a espontaneidade de reagir ao olhar e à forma como vejo a assembleia. Agora, está a ser o modo como posso dar ao povo da paróquia, pelo menos àqueles que as procuram, um pouco da minha reflexão sobre a palavra e a forma como ela é importante hoje, para vida de cada um. Ainda para mais neste tempo estranho e difícil», sustenta.

O Pe. Duarte da Cunha confirma que a preparação é mais intensa, até porque, refere, «o ambiente está muito mais calmo, e chego sempre uma hora antes da missa». «Estou ali a rezar as laudes, e acabo por me preparar mais, não sei se é por ter mais ou menos audiência, mas é porque a minha principal função agora é rezar, e tenho de rezar mais. Que isso me serve para preparar, claro que sim», afirma.

Preparar-se para falar para uma audiência online é, por si, um desafio. O Pe. Duarte da Cunha diz que, «quando não estão à minha frente [os fiéis], tenho de estar a imaginar como reagem (risos), mas olha, estas coisas têm de ser feita com alguma despretensão: oferece-se a Deus, faz-se o melhor possível, falamos às pessoas do coração, a partir do que estamos a experimentar, e o Senhor fará o resto», confia. O Pe. Carlos Cabecinhas confirma que a preparação é «diferente». «É diferente preparar porque estamos a preparar uma celebração para uma assembleia que é o mais vasta possível e da qual não conseguimos perceber toda a sua amplitude, e por isso a própria reflexão que propomos tem de ser o mais alargada possível, para que possa ser significativa para todos, e depois é completamente diferente na celebração, porque uma coisa é ter uma assembleia que reage, outra coisa é celebrar numa igreja completamente vazia, com pessoas que sabemos que nos acompanham, mas que nós não vemos», explica.

O Pe. Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima

Para D. Jorge Ortiga, a maior «responsabilidade» acarreta maior «exigência». «Uma coisa é estar a celebrar para as pessoas das nossas aldeias, gente humilde e simples, outra é não sabermos a quem iremos chegar. Aqui a responsabilidade é muito maior, na interioridade com que vivemos esses momentos», refere.

«Aquilo que se pretende é a perfeição na celebração e na arte e modo de a comunicar para que expresse o amor de Deus nos mínimos detalhes, naqueles pormenores por onde Deus pode passar»

É por isso que defende uma «atenção aos mínimos detalhes». «Aquilo que se pretende é a perfeição na celebração e na arte e modo de a comunicar para que expresse o amor de Deus nos mínimos detalhes, naqueles pormenores por onde Deus pode passar», diz, acrescentando que «não basta a parte técnica, essa, penso, temos dedicado uma atenção muito grande, mas depois o modo como a celebração é feita, com atenção a todos os pormenores, não apenas a rubrica pela rubrica, mas o cuidado em não desperdiçar e não perder nenhuma oportunidade para comunicar o essencial».

Um desafio para o futuro

Os tempos difíceis de pandemia obrigaram a uma nova forma de viver a fé, mais espiritual e menos física na presença da Eucaristia. Um desafio que o novo coronavírus trouxe, mas que pode deixar soluções e ideias para o futuro.

No Santuário de Fátima, o Pe. Carlos Cabecinhas reconhece que a pandemia veio «acelerar» projetos que já estavam a ser pensados. «Não é algo que tenha surgido neste contexto de crise, é uma reflexão que há muito vimos fazendo internamente. Aquilo que esta situação provocou foi o precipitar de soluções para darmos uma resposta imediata, mas para nós esta é uma situação que não será inconsequente, pois pretendemos continuar a desenvolver esta dimensão de contacto com os peregrinos, com os que se queiram ligar a Fátima através destas plataformas que a tecnologia hoje nos oferece», garante o reitor do Santuário.

Já D. Jorge Ortiga não quer «levantar nenhuma hipótese nesta altura», mas afirma que «vai surgir desta crise uma vida nova». «Vai surgir no mundo da economia, vai ser inevitável, e vai surgir no mundo do trabalho, da comunicação, e da Igreja, naquilo que ela é de fazer a experiência de Cristo, também terá de acontecer. Não tenho dúvidas, é uma questão de nos concentrarmos e ler atentamente o que isto nos quer dizer, ter atenção aos sinais dos tempos e as interpelações que eles nos lançam», defende.

Por um lado, o arcebispo de Braga considera que «Deus vai voltar a ser importante na vida das pessoas». «Vai enriquecer a nossa fé, dar consistência a muita gente que tinha a sua fé adormecida, que vai reconhecer que uma coisa pequenina como é um vírus transtorna a vida de todos, e que importa dar valor ao que tem valor», afirma D. Jorge.

As missas online têm sido acompanhadas por milhares de pessoas todos os dias

Para além disso, vai dizendo que esta experiência de comunhão espiritual, com transmissões online, não pode ser desperdiçada. «Para as nossas comunidades, como desafio de futuro», defende, «este coronavírus vai-nos trazer a necessidade de alterarmos muitos hábitos e maneiras de ser, e penso também que o nosso povo está a aprender, ou poderá estar a aprender, um novo modo de viver a fé».

D. Jorge lembra que «um dos problemas que temos é a celebração da eucaristia todos os domingos, que as pessoas querem, nas suas comunidades». «Isto já não é possível, neste momento, e não será possível no futuro», avisa, e por isso acha importante as pessoas convencerem-se que «a fé tem de ser vivida comunitariamente, presencialmente, mas poderá ter outro sentido». «O que importa é que o amor a Jesus Cristo, a adesão à sua pessoa, aconteça», defende.

Tudo num tempo futuro, que exige uma reflexão atual, aproveitando este tempo de «paragem». «É um tempo de pausa, mas também de interrupção do trabalho habitual, mas uma pausa que tem de estar cheia de reflexão para transformar a vida pessoal de cada um, a própria Igreja com a sua renovação da estrutura, e da própria sociedade. São os três âmbitos onde a transformação tem de acontecer, e vai acontecer necessariamente, porque não temos outra hipótese», conclui.