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Caminhada chama a atenção para necessidade de tratamento de impulsos suicidas Evento foi realizado no Parque da Cidade, em Brasília, como parte de grande mobilização Nacional

Nelson Oliveira, da Agência Senado

Durante a concentração para a III Caminhada pela Vida, realizada na manhã de domingo (10), no Parque da Cidade, em Brasília, a equipe de apoio do Samu foi surpreendida por um pedido de atendimento que em tudo se relacionava com o objetivo da marcha: alertar para o suicídio, problema de saúde pública que acomete cerca de doze mil pessoas por ano no Brasil.

De acordo com o relato da coordenadora da caminhada, a médica psiquiatra Ana Paula Faber, um rapaz com fortes sintomas de depressão foi levado pela mãe até os socorristas , que ouviram dele menções a pensamentos suicidas.

— Por sorte, ele foi encaminhado para um atendimento especializado e agora tem chances de se recuperar — diz a psiquiatra, que é mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) e integra a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr).

A marcha faz parte das mobilizações do Setembro Amarelo, quando entidades como a ABP, a ABPR e o Conselho Federal de Medicina (CFM) se unem para ampliar a consciência e as ações institucionais destinadas à prevenção dos atos contra a própria vida. Outras instituições, a exemplo do Centro de Valorização da Vida (CVV), da Legião da Boa Vontade e do Exército, se juntam a esse esforço.

— O fundamental é vermos o suicídio como o resultado de uma doença psíquica, que na maior parte dos casos configura depressão [patológica], combinada ou não ao consumo de álcool e outras drogas, em contextos de desajuste familiar ou social e com possível carga de herança genética em certo número de casos —conceitua Ana Paula.

Segundo a psiquiatra, o reconhecimento do quadro psíquico adverso é o ponto de partida para a estruturação de um tratamento capaz de conduzir o paciente em segurança a um novo padrão de emocional e municiá-lo de defesas contra seus próprios impulsos auto-agressivos.

Ana Paula Faber (ao centro, com André Trigueiro): na maior parte dos casos, o suicídio é o resultado de uma doença psíquica não tratada.

Outras contribuições importantes podem ser dadas por familiares bem orientados, grupos de apoio formais e informais e práticas espirituais que deem ao indivíduo a sensação de “pertencimento” e não reforcem culpa ou acusações de covardia.

O que os participantes da marcha expressaram durante o evento foi justamente a ideia de que a vida vale a pena, apesar das incertezas e contrariedades, e que há formas positivas de lidar com as vicissitudes. A propósito, o jornalista André Trigueiro, convidado especial da marcha, entoou ao final do encontro os versos da canção ‘O que é, o que é’, do compositor Gonzaguinha: “Eu sei, eu sei / Que a vida devia ser / Bem melhor e será / Mas isso não impede / Que eu repita /É bonita, é bonita / E é bonita”.

Em contraponto a essa atitude, visões sombrias a respeito da existência podem ser cultuadas e se espalhar de maneira contagiosa, conforme a coordenadora da caminhada. Ela cita as mortes de adolescentes que resolveram seguir os passos de Chester Bennington, vocalista da banda norte-americana Linkin Park morto em 20 de julho passado. O cantor, que tinha 41 anos, morreu no dia do 53º aniversário de outro vocalista, Chris Cornell, integrante da banda Soundgarden e que também havia se suicidado.

Se a idolatria e a mitificação podem ser indutores de atitudes auto-destrutivas, um ambiente familiar mórbido favorece igualmente o ato extremo de dar cabo da própria vida. Nesses casos, nem sempre é possível definir o que é genética ou que é influência ambiental, de acordo com Ana Paula.

A cobertura equivocada do tema suicídio por parte da imprensa é um fator a piorar as chamadas “condições ambientais”. Ana Paula reforça as orientações a Organização Mundial de Saúde (OMS) e da ABP no sentido de que a mídia, ao noticiar um caso de suicídio, exima-se de dar detalhes sobre as vítimas e da ocorrência, de modo a não sugestionar pessoas que estejam passando por problemas emocionais ou já tenham histórico de impulsos autodestrutivos.

— O ideal é que se apure em que condições psíquicas se deu o suicídio, para mostrar que, na maioria dos casos, há uma patologia em curso, mas que pode ser curada – orienta a psiquiatra.

Esse recorte é enfatizado por ela quando analisa o projeto que está na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado no qual se propõe a criação da Semana Nacional de Valorização da Vida. O autor da matéria, senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), sugere que a semana, sempre próxima ao dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, seja “um momento no calendário para que o conjunto da sociedade e os órgãos do poder público possam se concentrar na reflexão sobre o tema, avaliar os avanços já alcançados e formular estratégias para vencer os desafios ainda existentes”.

O “objetivo central” é contribuir para diminuição da incidência de suicídio no Brasil e para “o combate a todas as suas possíveis causas”, entre as quais o bullying, os transtornos mentais, os problemas familiares e sociais. Procurar-se-á ainda combater variantes do suicídio como a automutilação e a exposição danosa às redes sociais.

— Valorização da vida é algo muito amplo. Somos favoráveis a que tenhamos uma semana oficial de prevenção suicídio para que fique muito claro o que está em questão — opinou a psiquiatra, que chamou a atenção para a subnotificação de suicídio decorrente de falhas de organização de prontos-socorros e da interferência de familiares que querem evitar constrangimentos e mesmo a perda de benefícios relativos a planos de saúde e seguro.

Mesmo com a semana oficial na condição de proposta, os eventos para marcar o Setembro Amarelo continuam a ser realizados em todo o Brasil.

Em Brasília, terão lugar uma centena de ações, de acordo com o coordenador local do voluntariado do CVV, Gilson Moura

Aguiar. Ele chama a atenção para as diversas formas de acessar o serviço: por telefone, por email e por canais telefônicos alternativos como o Skype.

Saiba mais:

Movimento Setembro Amarelo, Dia mundial de Prevenção ao Suicídio

Educação Emocional

Associação Brasileira de Psiquiatria

Rede Brasileira de Prevenção ao Suicídio

Transtornos mentais e dependência química

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídios

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