Loading

Cresce preocupação com o desperdício de alimentos

Guilherme Oliveira e Nelson Oliveira, da Agência Senado

Publicado em 12/9/2018

Na briga contra o desperdício de alimentos, o brasileiro decididamente não mete a colher. Com o auxílio de robôs, um minucioso e inédito levantamento de dados em blogs e redes sociais como Facebook e Twitter, indicou recentemente que 75% das menções a esse tema partiram de instituições públicas e privadas. O envolvimento dos indivíduos ainda é muito pequeno.

— O desperdício de alimentos é assunto tabu. É preciso pensar em estratégias de comunicação para sensibilizar e engajar o público nessa causa — observa Carlos Eduardo Lourenço, professor de marketing da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele é um dos pesquisadores envolvidos num amplo e inédito levantamento sobre desperdício e perdas de alimentos apresentado no dia 20 de setembro durante seminário realizado na sede da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Brasília.

A pesquisa, que tem uma etapa quantitativa, aponta que a tradicional dupla arroz e feijão, "símbolo da culinária brasileira", é objeto de aproximadamente 38% do montante de alimentos jogado fora no Brasil. Foram ouvidas 1.764 famílias de diferentes classes sociais e de todas as regiões brasileiras, por demanda dos Diálogos Setoriais União Europeia—Brasil, em projeto liderado pela Embrapa e apoiado pela FGV.

O ranking dos alimentos mais desperdiçados mostra arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%) com os maiores percentuais relativos ao total desperdiçado pela amostra pesquisada.

— A família brasileira desperdiça, em quantidade relativamente grande, até mesmo alimentos mais caros e proteícos, tais como carne bovina e frango, um dado que nos surpreendeu — avalia Lourenço.

Arroz e feijão estão entre os ítens mais desperdiçados no Brasil, inclusive nos restaurantes (foto: Marcos Oliveira/ Agência Senado e Banco de Imagens Miguel Manso)

Entre os motivos do desperdício apontados pelos pesquisadores está a busca pelo sabor e a preferência pela abundância dos consumidores brasileiros. O não aproveitamento das sobras das refeições é o principal fator para o descarte de arroz e feijão.

De acordo, com os responsáveis pela pesquisa, "os dados evidenciam que o Brasil precisa atuar em diferentes elos da cadeia para evitar perdas e desperdícios de alimentos. Ações de comunicação e educação nutricional são fundamentais para conscientizar e conectar o consumidor com o alimento, assim como tecnologias e capacitações técnicas para redução de perdas de alimentos no campo.

É o que prevê a Estratégia Nacional de Combate às Perdas e ao Desperdício de Alimentos, aprovada recentemente pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan). O órgão trabalha nessa perspectiva mais ampla, envolvendo quatro eixos: pesquisa e inovação; comunicação e capacitação; políticas públicas; e legislação. Atuar diretamente com o consumidor final é outra meta.

Na fase qualitativa do levantamento, 62 consumidores foram entrevistados em supermercados, lojas de conveniência e feiras livres por um grupo de pós-graduandos europeus das Universidades de Bocconi (Itália), St Gallen (Suíça), Viena (Suíça) e Groningen (Holanda). O objetivo foi avaliar hábitos de compra e consumo de alimentos dos brasileiros, a partir do olhar dos europeus".

— Eles ficaram impressionados com a quantidade dos alimentos adquiridos pelos brasileiros. As compras informadas como semanais, alimentariam a família por cerca de um mês. Nas lojas de conveniência, onde normalmente se adquire poucos volumes, os carrinhos utilizados eram enormes e enchiam-se com facilidade. Essa preferência pela mesa farta contribui fortemente para o aumento do desperdício de alimentos” — destaca o professor da FGV.

Conforme o pesquisador, foram selecionadas pessoas que, além de consumir, fizessem as compras e o preparo de suas refeições em casa. As entrevistas e observações foram documentadas em fotografia.

— Ficamos surpresos em ver que as famílias jogam muita comida fora. É relativamente comum ir para o lixo metade de uma panela de arroz, entre uma refeição e outra — relata Lourenço.

O Brasil, entretanto, não é um caso isolado. América Latina perde 127 milhões de toneladas de alimentos todos os anos. Um quinto das carnes, um quarto dos cereais e mais da metade das frutas e verduras ficam pelo caminho e não são consumidos. Os números são da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Problemas estruturais de produção e logística respondem por parte desse cenário, mas o consumidor final também tem sua parcela de culpa — e não apenas no que diz respeito a comida estragada. No Brasil, pesquisa recente encomendada por uma multinacional revelou que 60% dos habitantes têm o hábito de descartar alimentos ainda em boas condições.

Em um mundo de população crescente e recursos escassos, que se esgotam cada vez mais rápido, a questão da perda recorrente de comida ganha urgência. Segundo a FAO, a humanidade já desperdiça um terço de tudo aquilo que produz para se alimentar, num total de 1,3 bilhão de toneladas jogadas fora.

Um terço de toda a comida produzida no planeta acaba jogada no lixo (foto: Mônica Clica)

A redução do desperdício global de alimentos pela metade é um dos objetivos da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). É uma meta ambiciosa. Conforme uma estimativa da firma de consultoria Boston Consulting Group, se persistir o ritmo atual até o ano de 2030, a perda deve ultrapassar os 2 bilhões de toneladas.

Se vier a cabo, isso significará um baque de 1,5 trilhão de dólares (mais de R$ 6 trilhões, na cotação atual) na economia mundial. Esse valor inclui o gasto de energia para produzir a comida não utilizada e as despesas com comercialização e armazenagem. Representa também o chamado custo de oportunidade: tudo aquilo que não está sendo produzido com o espaço físico e a infraestrutura ocupados por alimentos que virão a ser perdidos.

O representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, destaca que esse impacto econômico pode ser sentido diretamente pelas pessoas sempre que vão ao supermercado:

— Os produtos ficam mais caros porque custo do desperdício é embutido no preço final para o consumidor. Quando desperdiçamos, estamos fazendo um mal a nós mesmos. Se tivermos mais eficiência, com certeza vamos ter preços menores.

Além disso, Bojanic chama atenção para o fator ambiental. O apodrecimento de alimentos que ficam pelo caminho e não recebem o tratamento adequado liberam no ar e no solo gases e substâncias poluentes, tais como o gás carbônico, o gás metano e o ácido nitroso:

— As emissões de gases do efeito estufa por desperdício de alimentos são equivalentes às de todo o parque automotor do mundo inteiro — alerta.

Caso brasileiro

O caso brasileiro é particularmente desafiador porque reúne graus diferentes de obstáculos, segundo explica Gustavo Porpino, analista da Secretaria de Inovação e Negócios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa):

— Os países mais desenvolvidos concentram o desperdício na etapa de consumo. Problemas derivados da logística inadequada são vivenciados pelos países mais subdesenvolvidos.

No Brasil, problemas de logística são uma das principais causas para o desperdício (foto: Agência Brasília)

Com sua peculiaridade, o Brasil acaba precisando se desdobrar em várias frentes para garantir o melhor aproveitamento da sua produção: aprimorar a infraestrutura e transformar os costumes cotidianos da sua população.

Alan Bojanic destaca que outra peculiaridade do país refere-se à mera contabilização do problema. Segundo ele, ainda não temos instrumentos para dimensionar corretamente a perda de alimentos em âmbito nacional:

— No Brasil temos um problema sério de números. Não é fácil saber exatamente as perdas que acontecem. Temos que fazer uma amostragem. Alguns municípios e universidades têm feito [estudos], mas até agora não vi um que dê uma estimativa geral mais ou menos precisa da quantidade de perda e desperdício.

Estrutural

A perda de alimentos nas etapas pré-consumo pode acontecer em diversos momentos: na colheita, na armazenagem, no processamento ou no transporte. Cada fase tem as suas particularidades.

Gustavo Porpino observa que a infraestrutura do país não tem acompanhado o avanço produtivo no campo, criando gargalos prejudiciais:

— A produção de alimentos no Brasil cresceu exponencialmente nas últimas três décadas, mas os investimentos em agrologística para escoar a safra não foram suficientes

Esses gargalos são diferentes para cada nível de produtor, representando um grau ainda maior de sofisticação para o problema:

— Os pequenos e médios produtores têm dificuldades de acessar o conhecimento existente por meio da assistência técnica e da extensão rural, porque a rede pública nos estados enfrenta contingenciamento de recursos. Também há dificuldade de acesso ao mercado. Por outro lado, grandes produtores precisam atender aos elevados padrões de qualidade exigidos pelos compradores, as redes varejistas, e parte das perdas é derivada destas exigências de uniformidade no padrão estético.

Segundo a FAO, 28% da perda anual de alimentos se dá ainda na fase de produção (medida como fração do total de calorias desperdiçadas). Outros 17% ocorrem durante o transporte. Deficiências estruturais e burocracia estão entre as causas apontadas para justificar as falhas na distribuição.

Segundo Bruno Batista, diretor-executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), todos os modais mais utilizados para o transporte de cargas sofrem com alguma defasagem peculiar: nas rodovias, falta pavimentação e duplicação; nas ferrovias, a integração física entre diferentes regiões é dificultada pela falta de uniformidade; os rios possuem uma ampla gama de problemas, incluindo até mesmo a ausência de cartas náuticas atualizadas:

— Há dificuldades na implementação dos investimentos programados, em virtude da lentidão na elaboração de planos, de incorreções nos projetos e das dificuldades de condução de processos licitatórios. A participação do setor privado, apesar dos avanços regulatórios atuais, enfrenta obstáculos decorrentes de insegurança institucional — lamenta ele.

Esses problemas estruturais são responsáveis por acidentes e atrasos que acarretam a perda de produtos no caminho. Também há gargalos nos pontos de distribuição e recebimento, em especial nos portos:

— Os equipamentos e as instalações portuárias são, em geral, obsoletos. Há problemas de profundidade devidos à falta de dragagens de manutenção. Destacam-se também a morosidade na obtenção de licenças ambientais e a burocracia envolvida no desembaraço das cargas nos portos.

A Agência Senado procurou a Secretaria Nacional de Portos e o Ministério do Meio Ambiente, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.

Onde acontece o desperdício

Fonte: Elaboração própria/Embrapa

Legislação

O Brasil não desenvolve nenhum tipo de política nacional de combate ao desperdício de alimentos estruturada em lei. Não é por falta de tentativa: há iniciativas com essa preocupação tramitando há mais de 20 anos. O tema, porém, nunca foi fortemente encampando no parlamento.

Um símbolo dessa lentidão é a chamada Lei do Bom Samaritano, um projeto do Senado apresentado em 1997 e que até hoje não foi aprovado em definitivo. O seu intuito é incentivar pessoas e empresas a doarem alimentos em excesso para instituições de caridade. Para isso, o texto propõe isentar o doador de responsabilidade civil ou penal em caso de dano ao futuro beneficiário.

O projeto da Lei do Bom Samaritano passou no Senado, mas ainda aguarda apreciação pela Câmara dos Deputados. Mesma situação vive a proposta, mais recente, de criação da Política Nacional de Combate ao Desperdício de Alimentos. Ela normatiza o processo de doação de alimentos sobressalentes. Aprovado em 2016, está na Câmara à espera de um relator.

Além da desburocratização do processo de doações, outra possível via de atuação do Legislativo é a desoneração de tecnologias que prolongam a vida útil dos alimentos, como embalagens inteligentes.

Propostas aprovadas no Senado objetivam diminuir o desperdício ao facilitar a doação de alimentos (foto: Pedro França/Agência Senado)

Doméstico

A FAO calcula que, na América Latina, maus hábitos em casa respondem por quase um terço de todo o desperdício alimentar anual. Para Gustavo Porpino, da Embrapa, isso tem a ver com a tradição regional:

— A cultura latina valoriza a abundância na mesa. O preparo de porções fartas é um traço cultural forte, que sinaliza para a família que pode haver fartura na mesa mesmo em tempos de crise. Isso contribui para aumentar a propensão de haver desperdício de alimentos.

A nutricionista Andrezza Botelho acompanha de perto os hábitos alimentares dos seus pacientes. Ela acredita que os brasileiros têm uma tendência enraizada a passar da conta no seu dia-a-dia.

— Dependendo da casa, é até ofensivo se não sobrar — observa ela.

Em sua página na internet, Andrezza dá dicas para o máximo aproveitamento dos alimentos. Ela explica que essa preocupação tem, além de importância social e ambiental, um impacto positivo sobre a saúde:

— As pessoas não prestam atenção no que estão comendo. Quando fazemos o registro das refeições, os pacientes não lembram o que comeram no dia anterior. É preciso saber se servir para matar a fome, não o apetite. Quantificar o que se está comendo é o objetivo das consultas.

Gustavo Porpino e Andrezza Botelho: desperdício doméstico têm raízes culturais (fotos: Beto Jeon e Divulgação/Andressa Botelho Nutrição Inteligente)

A mudança de hábitos passa por toda a relação com a comida, desde as compras até o preparo. A nutricionista instrui os pacientes a sempre organizarem uma lista com os itens necessários, para que não haja excesso no supermercado. A exceção são as frutas e verduras frescas – segundo Andrezza, é preciso “respeitar a safra” e adaptar o paladar ao que estiver disponível em cada época do ano.

Ir para a cozinha é outra prática recomendada — e não apenas para guardar as compras:

— Oriento o paciente a separar algumas horas no fim de semana para cozinhar, porcionar e congelar. Quando outra pessoa faz, você não tem a percepção do alimento.

O aprendizado de várias técnicas de cozinha e das possibilidades dos alimentos ajuda a evitar o desperdício. Em vez de se jogar fora os talos e ramos dos vegetais, por exemplo, é possível incorporá-los em outras receitas, transformá-los em temperos e até extrair deles uma variedade de nutrientes.

A mudança de hábitos domésticos em relação ao tratamento da comida não precisa vir do dia para a noite. A autônoma Nicole Berndt tem experimentado ao longo dos últimos dois anos a transformação da sua rotina familiar para reduzir a produção de lixo. Isso envolve uma nova relação com a alimentação, e é um processo gradual.

Nicole conta que, em 2016, começou a buscar produtos mais saudáveis e naturais para combater alergias que estava desenvolvendo devido a um período de estresse na sua vida profissional. Nessa procura, tomou contato com movimentos e iniciativas de estímulo à redução do desperdício:

— Sempre pensei que eu fosse uma pessoa ecologicamente correta, que reciclava. Fui me dando conta de algumas estatísticas e percebendo que estamos usando recursos finitos do planeta como se nada estivesse acontecendo — relata ela.

Nicole integrou a família ao esforço e, juntos, foram aos poucos introduzindo novas práticas. Ela fabrica os próprios cosméticos e itens de higiene pessoal, como pasta de dente, por exemplo. Ela destaca que não existe casa absolutamente sem lixo, mas sempre há espaço para a redução.

Nicole Berndt: combate ao desperdício passa por mudanças no consumo e reciclagem de produtos (fotos: Joni Pereira/ Blog Casa Sem Lixo)

A guerra ao desperdício chegou à comida a partir da percepção de que era preciso se livrar das embalagens:

— Mudei a forma de consumir. Parei de frequentar grandes supermercados e fui para lojas a granel, onde posso comprar coisas que são compotáveis e levar potinhos para pegar os produtos. Compro a quantidade que eu preciso, apenas o que usamos. É muito difícil estragar.

Ao comprar mais ingredientes e produtos frescos, Nicole afirma que passou a conhecer melhor aquilo que a sua família ingere, além de ter se aproximado dos produtores. O novo costume também fez bem para o bolso. Como agora a família tem noção do que precisa e leva para casa apenas o necessário, o orçamento doméstico foi poupado em cerca de 40%.

Nicole relata suas experiências no blog Casa sem Lixo, onde compartilha dicas para uma vida com menos rejeitos. A principal sugestão que ela dá para quem quiser embarcar nesse estilo é não radicalizar:

— Comece por onde é mais fácil. Às vezes cozinhar é um prazer, mas às vezes a pessoa não está acostumada. Mexer com alimentação é mexer com hábitos, algo que ninguém quer. Tem que ser gradativamente, não de uma hora para outra.

Dicas para evitar o desperdício em casa

  • Prepare uma lista de compras e leve para casa apenas o que precisa.
  • Mantenha na parte da frente do armário produtos com menor tempo de validade. E atrás, os que durem mais.
  • Faça uma inspeção periódica na geladeira e, ao consumir, dê preferência a produtos que estão próximos do vencimento da validade.
  • Seque frutas, legumes e verduras que serão guardados na geladeira. Isso faz com que demorem mais para apodrecer.
  • Aproveite folhas, sementes, talos e cascas, que podem ser usados no preparo de receitas.
  • Planeje o preparo das refeições, para evitar excesso de sobras.
  • Nas refeições, sirva apenas o que vai comer.
  • Congele os alimentos não consumidos em uma refeição ou transforme as sobras em novos pratos.
  • Divida com outras pessoas aquilo que não for consumir.

Report Abuse

If you feel that this video content violates the Adobe Terms of Use, you may report this content by filling out this quick form.

To report a Copyright Violation, please follow Section 17 in the Terms of Use.