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Território de memórias Entre tantos contos, mitos e histórias de meias verdades mal contadas por quem sempre teve como objetivo oprimir toda e qualquer cultura diferente, 5 jovens faveladas escolheram contar as histórias de suas ancestrais.

Entre tantos contos, mitos e histórias de meias verdades mal contadas por quem sempre teve como objetivo oprimir toda e qualquer cultura diferente, 5 jovens faveladas escolheram contar as histórias de suas ancestrais. Agora elas estão nas paredes de um museu, e tudo foi vivido, pesquisado, pensado e produzido pelas mãos de mulheres que enfrentam diariamente as dores de múltiplas violências, mas que aprenderam a transformar luto em arte.

Foram 7 meses de processo e experiências individuais e coletivas, o que torna tudo mais complicado, já que são realidades parecidas, mas com singularidades e pontos de partida diferentes. O quinteto contou com a ajuda de uma mulher-guia que escolheu mergulhar fundo nas águas turvas do quase esquecimento, para dançar ao lado das jovens em pleno maremoto.

Quando as memórias começaram a emergir, algumas meninas começaram a se afogar. Foram momentos desesperadores e agonizantes, mas a sorte é que elas aprenderam a boiar. Respirando, flutuando, se acalmando.. e mesmo de olhos fechados, sabiam que não estavam só.

Passada a experiência, as jovens perceberam que estavam prontas para falar sobre essa vivência. Começaram então a produzir livremente a partir dos desejos de seus corações. Colagens, textos, fotos, áudios, vídeos, pinturas, mapas, álbuns, fios, trabalhos, reuniões infinitas comendo banana, bis e guacamole.

Correndo com o tempo, finalmente estão na reta final do processo e convidam você a se emaranhar nos fios de histórias que formam a rede que sustenta cada uma diariamente.

Texto produzido por: Julie Oliveira

Em 2018 algumas meninas Mareenses foram convidadas para participar de um evento que aconteceria pela primeira vez na América Latina, chamado Festival Internacional de Mulheres do Mundo, ou popularmente conhecido como WOW. A proposta era que as jovens se tornassem Wowseiras e fizessem uma ação no Píer Mauá durante os três dias de festival. Com a ajuda de algumas profissionais, as jovens decidiram criar saias que contavam a história do território a partir de cinco mulheres importantes da Maré, além da criação de poemas que foram lidos para pessoas avulsas que estavam no festival.

Depois do festival as jovens perceberam que eram potentes separadamente, mas juntas eram ainda mais. Decidiram continuar o grupo fazendo pesquisas e ações pontuais como wowseiras. 2019 foi o ano em que as jovens mergulharam nas histórias de mulheres de suas famílias, com o suporte de Juliana Sá, que acompanhou o grupo desde o período do festival. Foram realizadas entrevistas, reflexões, atividades e buscas para compreender melhor quem são as mulheres que fazem parte de suas vidas, antes de enxergá-las como mães, avós e tias. Em paralelo com esse processo, o grupo teve uma experiência de Avaliação Vocacional, uma espécie de terapia em grupo, que ajudou tanto individualmente quanto coletivamente. Trabalhar o presente nunca fez tanto sentido. Perceber como a pressão que vivem atualmente afetam diretamente em suas decisões as fizeram refletir nos motivos que levaram suas ancestrais a tomarem tais decisões que, até então, eram incompreendidas pelas jovens. O processo foi longo e profundo, mas não houve nenhuma finalização, já que no início de 2020 o mundo teve que lidar com a pandemia do Covid-19.

Em agosto de 2020, as Wowseiras iniciaram uma nova fase de finalização de processos com uma nova mediadora chamada Luana Bezerra. A bailarina propôs atividades corporais que trabalharam a confiança em si e no outro, além de concentração no interior e reflexão no passado para a construção de um novo futuro. A metodologia de trabalho e pesquisa foi diversificada, já que cada menina tem habilidades específicas e afinidades com certas artes. Livros, textos, música, audiovisual, colagens, pinturas e muito mais. Nomes como Bell Hooks, Maya Angelou, Kaê Guajajara, Nego Bispo, além de documentários, séries e produções independentes foram inspirações e referências para as jovens.

O processo durou 8 meses. Foram encontros cautelosos e intensos, com momentos de cuidado, carinho, produção e lanche, que sempre foi algo que as meninas priorizaram muito, já que as mesmas perceberam o quando a reunião em família acontecia quando envolvia muita comida. Era uma demonstração de amor comer junto, e assim foi feito em todos os encontros. Mas em meio a bananas, maçãs, bis, bolachas, sucos e água de coco, existia conversas profundas e compartilhamento de coisas que provavelmente não seriam ditas se não houvesse um momento confortável para isso.

Finalmente as produções se materializaram nas paredes do Espaço Normal, localizado na Favela Nova Holanda, Complexo da Maré. O dia foi intenso, com muitos altos e baixos, mas super importante para o grupo. Foi um dia marcante para todas, inclusive o divisor de águas do que a Coletiva era e o que gostaria de se tornar.

O entendimento de que eram muito mais que um grupo dentro de uma instituição veio à tona, e a decisão de ser independente ficou mais certa do que antes. Não cabiam mais em caixinhas ou propostas que não faziam sentido, e precisavam descobrir a individualidade do grupo através de ações e projetos pontuais e pessoais. A parceria se encerra, mas a trajetória da Coletiva Maré de Nós está apenas começando.

Texto produzido por : Julie Oliveira

Stefany Vital da Silva, a reinvenção de criar no que eu não me enxergo.

Moradora do Complexo da Maré, Rubens Vaz.

Filha de dois nordestinos, apaixonada pela arte e possibilidades de se reinventar.

Desenvolve trabalhos manuais e digitais a partir da sua vivência pautando questões que envolvem uma outra moda possível, ancestralidade e novas narrativas de afeto.

Idealizadora de um Brechó focado em peças jeans, chamado Jeans Ancestral e tem o foco em produzir colagens que envolve todos os seus processos e fragmentos passado em um olhar futuro.

SER, SABER E SENTIR

Quem somos?

O saber carrega o poder de regaste de dentro para fora.

Sinto em mim os medos, dos choros, alegrias, lutas, conquistas de meu povo do passado e que carrego no futuro.

Saber que no caminho vou de encontro com minhas múltiplas versões, não somos um só.

Ecoamos pois a ressonância do chão que pisamos nos conecta em vida, há vida.

Inácia Vital dos Santos, Maria do Carmo Vital dos Santos, Luzia Vital dos Santos e Stefany Vital da Silva.

A n t ô n i (o) m o d e s e m p r e

Nada dura para sempre, quantas vezes eu quis eternizar momentos que vivi com você?

Eternizei em você minhas cartinhas na ausência nos dias dos pais, nos abraços calorosos, nas vezes que só me observava.

Lembra da vez que ligou no meu aniversário? Na ausência, não tenho sequer memória do dia que tenha me ligado.

Quantas vezes mergulhei em mim mesma para encontrar pedaços, caminhos e traços que lembrassem um vestígio seu.

A minha maior lembrança que em encontros de famílias tem sido reconstruída é quando pessoas que estavam tão próximas de você, resgata uma memória, uma roupa, uma ação.

Me acostumei em ouvir e respirar para te sentir, da última vez eu procurei me desculpar, pensei em aberturas para desculpas e soube que a minha desculpa foi de um dia ter me sentido aliviada com a sua ida.

Tenho na minha lembrança poucas vezes que estivemos juntos, na praia do Flamengo, só lembro do seu rosto e como a sua fala era rígida de falar para o outro e pouco via você falando com o outro.

Me lembro de como era grande, e seus olhinhos de gato puxado eram fofos e intimidador. Eu ficava me questionando como um olhar podia guardar tanto do que eu sou.

Sobre a ausência, daqui tô aprendendo a lidar, é um mergulho onde haverá mar calmo e maré alta.

Nova, por volta dos 12 anos, já lidava com a ausência e me acostumei a não sentir tão de perto a exclusão e a perda.

A minha forma de eternizar e durar para sempre é manter tudo vivo, tudo amarelo, tudo vibrante. O para sempre não existe pois tudo está em movimento, não conseguimos tomar banho na mesma água do rio.

Em cada movimento, eu encontro uma maneira de te manter aqui. VIVO

A vida, há vida em meio ao chão e o corpo. Stefany Silva
SABER

Julie Oliveira

Manuara de nascença e Mareense de coração, Julie Oliveira leva um estilo de vida criativo e transforma tudo em arte, seja em forma de texto, colagens, fotografias, dança ou teatro.

Amante da literatura, busca incentivar a leitura na vida das pessoas e compartilha no projeto “Biblioteca Azul” histórias que leu, inventou ou descobriu em suas longas e eternas pesquisas de memórias territoriais da Maré e seus moradores.

Sua missão é falar sobre o mundo a partir de seu olhar, e para isso criou o projeto “Pelos Olhos Dela”, que contém textos sobre a vivência de uma indígena favelada. Suas palavras são afiadas como os temas que aborda, como raça, classe, gênero e ancestralidade.

A solidão é sua casa, mas às vezes se aventura por caminhos afetuosos onde esbarra com pessoas que cuidam e ensinam o melhor da vida.

Em movimento

Nesse processo eu lidei com a ausência. A falta de provas, registros, memórias. Como lidar com a falta? Como saber quem realmente sou se não sem quem veio antes de mim? Às vezes acho que nosso povo não tem nem o direito de saber quem são seus ancestrais.

Fiz a pesquisa a partir das memórias e conhecimentos da minha mãe, Aparecida Távora Chaves, e algumas pequenas histórias que ouvi vez ou outra em rodas de família. Não é certeza que tudo aconteceu da forma como me foi contado, e é por isso que acredito ter direito de inventar para continuar (re)existindo.

Dedico tudo que fiz às matriarcas da minha vida.

Para todas as Cidas, Marias, Odetes e Valdetes.

Nunca acreditei em coincidências.

Sempre soube que as coisas acontecem por um motivo, com um propósito maior.

Agora entendo.. Não é que eu seja A escolhida, tipo aquele filme de Matrix. Sou apenas a sequência de gerações poderosas e sábias. Talvez seja por isso que sou essa mulher inconstante e inquieta, que busca encontrar memórias ancestrais em todo e qualquer tipo de forma, inclusive, em mim.

Perdi as contas de quantas vezes me olhei no espelho tentando enxergar vocês. As horas que passei pensando se minhas manias eram de alguém da família. As inúmeras páginas em diários antigos que falavam sobre uma falta que eu nunca entendi. Não era como uma saudade, até porque, nem conheci vocês. Mas a dor da ausência sempre esteve presente.

No meu esconderijo azul ouço o tiquetaquear do relógio e desejo voltar no tempo só pra encontrá-los. Seria capaz até de ficar no lugar das Marias para que elas não sofressem tudo aquilo. Confesso que existe um pontinho de raiva por não entender os motivos dos segredos. Seria tão mais fácil se tivessem contado a história para alguém, e esse alguém contasse para seus filhos e depois os filhos dos filhos soubessem, até chegar em mim.

Mas não culpo vocês. Não consigo imaginar a metade da dor que ocupava seus corpos e almas. Então me desculpem pelo momento de egoísmo. Não foi minha intenção. É por isso que estou aqui registrando todo o pouco que sei sobre vocês, e escrevendo junto a minha história, para que os próximos meios tenham acesso ao passado-presente.

Só posso agradecer a todos que vieram antes de mim. Os que abriram caminho para que hoje eu pudesse caminhar. A todas que resistiram aos males e se mantiveram vivas em espírito. Obrigada por me amarem tanto, mesmo não me conhecendo.

Assim finalizo essa carta. Espero que minhas palavras tenham força para viajar o tempo-espaço e alcance vocês de alguma forma, para que saibam o quanto sou grata por ser fio-extensão.

Não gosto da vulnerabilidade. Acho que vem da minha criação.. quer dizer, não temos tempo a perder quando se trata de correr atrás do pão de cada dia. Acorda, toma nescau enquanto se arruma, estuda, trabalha, faculdade, outro emprego, prova, teatro, freela, teste surpresa, demandas e mais demandas, chega em casa, estuda mais um pouco, resolve últimas pendências urgentes, toma banho, come e dorme. Repete.

Não existe brecha para a calmaria quando se é uma menina favelada e racializada.

Mas como não temos controle da vida, a Coletiva aconteceu. E com ela, inúmeras experiências onde tive que lidar com o caos que a vulnerabilidade trás. E o pior.. diante de outras pessoas. Só que foi tudo tão diferente e acolhedor, que mesmo nos períodos caóticos, me senti confortável com meu corpo, alma, rasuras e feridas a ponto de permitir ser tocada e curada pelas mãos de minhas irmãs de processo.

Estive ciente em todos os momentos que o que estava vivendo era necessário, já que afeto é algo que não estava presente nos meus dias durante anos da minha vida. Quando experimentei o amor nos toques e palavras, percebi o quanto precisava ser enxergada, não apenas vista.

Precisava ser entendida, não apenas escutada.

Precisava ser cuidada, não apenas cuidar.

Precisava me respeitar, não fingir que estava bem quando claramente vivia no meio do caos.

Esse processo foi feito de amor, dor, acolhimento, memórias, falta, medo, brigas, sorrisos, força, dança, corpo, chão, suor, ritmo, escuro, vento, confiança, insegurança, palavras, bis, banana e água de coco.

Também foi feito de deságuas. Não está escrito o quanto chorei. Principalmente ao entender que estava tudo bem viver o terror.. nada acontece por acaso. Foram meses de muito aprendizado, escuta, silêncio, atenção e intuição. Não foi fácil ter que lidar com as verdades duras da minha história, mas foi necessário. Cara a cara com o nada que ocupava um espaço gigante na minha vida.

Foi uma delícia vivenciar esse período de descobertas e produção ao lado de mulheres incríveis que admiro tanto e que fazem parte da minha vida de forma plena e completa. Sei que é apenas o primeiro de muitos ciclos, e agradeço por ter tido a oportunidade de me renovar.

Sou Rayanne Felix, sou cria da Maré, atualmente moro na Comunidade Nova Holanda, sou formada em segurança do trabalho, sou produtora, escritora e pesquisadora por amor. Tenho um projeto chamado Sociedade Das Poetisas Vivas, onde compartilho pensamentos, vivências e sentimentos.

Atuar na Coletiva Maré de Nós é um processo de cura, onde me encontrei novamente com minhas raízes através do processo de pesquisa ancestral. Nesse processo, pude reconhecer a história de mulheres da minha família, que por mais que convivam comigo, não falam sobre si, muitas vezes porque precisam estar falando sobre outras coisas e pessoas.

Vocês foram e são para que eu pudesse ser

Escolhi falar sobre essas mulheres porque, elas para mim são exemplo de todo caminho que percorro. Elas me ensinaram basicamente tudo que eu sei, então, às vezes eu aprendia quatro vezes a mesma coisa, porque cada uma me ensinava de um jeito, isso fez com que eu criasse minha própria maneira de ver e fazer coisas, porque existia uma pluralidade de saberes em mim, que foi passada por elas. Acredito que as histórias delas devem ser contadas e, enquanto eu existir, farei questão de propagá-las para o mundo.

Natália Gabriele: Minha mãe.

Maria Cristina: Minha avó materna

Maria de Lourdes (minha avó paterna)

Ilda Felix (minha bisavó materna)

Olá vó, como a senhora está?

Queria tanto sentir seu cheiro, perguntar coisas que só a senhora saberia me responder, perguntar razões, ações e decisões, que hoje impactam na minha vida. Mais ainda, queria te dar orgulho. Queria poder te levar pra passear e aprender a dirigir pra te levar pro médico.

Por que você foi embora antes de eu chegar? Talvez tudo seja um plano, e eu me veja em você.

Um dia, quando eu te encontrar, vou dizer tudo que eu sempre quis, fazer carinho nos seus cabelos e pedir pra senhora cantar pra eu dormir.

Quando eu te encontrar, vou preencher um espaço que você deixou.

O processo de pesquisa foi intenso, da mesma maneira que foi leve. Consegui fazer dele uma forma de aprendizado, não só da história de mulheres da minha família, mas também sobre mim mesma.

Nesse processo, me conectei também com minhas amigas, que participaram dele junto comigo, isso foi igualmente bom, visto que havia tempo que não estávamos juntas em processos.

Ao longo desses meses, pudemos aprender sobre corpo, respeito e ancestralidade. Esses meses foram marcados por intensidade e leveza, ao mesmo tempo.

Lorena Froz, 19 anos.

Nascida em Belém do Pará, de família nordestina, mas moradora da Nova Holanda desde que aprendeu a falar, apesar de hoje residir no Parque União, ambas favelas da Maré. Técnica em Meio Ambiente pelo Colégio Pedro II, Graduanda de Engenharia Ambiental e Sanitária UERJ. Idealizadora do Faveleira, plataforma de educação ambiental periférica, de “cria pra cria”, no Instagram. Articuladora e Mobilizadora Territorial da Redes de Desenvolvimento da Maré e estagiária de sustentabilidade da empresa Pet Five Brands.

Memória Encarnada
Minha bisa apesar de aparecer pouco propriamente dita é alguém que representa um pilar nesta pesquisa, é dela que tudo se inicia, nela que tudo ganha vida, mas é pra ela também que até hoje eu venho tentando voltar e retomar para entender quem de fato sou eu e qual meu papel no mundo. Minha bisa é uma mulher muito miudinha, bem velhinha, mas não se deixe enganar por sua estrutura aparentemente frágil.
Vó, de você me faltam palavras para descrever. foi com você que eu conheci o amor e a vida! Maria José era enfermeira de uma cidade muito pequena no interior do maranhão, chamada Santa Helena onde viria a surgir todo o meu principal núcleo familiar.
Linnda da Silva Camelo (é assim que vocês a conhecerão) é uma mulher forte, nordestina e que eu admiro muito, a mulher que me deu o sopro da vida. “O corpo-casa tatuado, que foi minha primeira morada, mas também o corpo que sempre esteve com você e nele está marcado cada memória ou dor, cada lembrança, tudo está nele. E essa gaiola é para nunca se esquecer da sua tatuagem de renascimento, hoje dona de aí, se permita voar, conhecer e explorar. Já que Liná dos Santos morreu, dedico essa fala ao Universo Linda Camelo.”

“Eu queria que um dia essa carta voltasse, chegasse, viajasse - não sei bem a palavra certa - até a minha querida vó que eu jamais conheci em vida apenas em alma, apenas no meu olhar para dentro de mim, foi lá que a encontrei. Hoje eu a encontro na minha pele, nos meus cabelos, na textura deles que eu acho que são como os dela. Na cor do meu cabelo que não parece com o da minha mãe, talvez um pouco com o do meu pai, mas me conforta mais saber que são iguais a aquela que eu amo em vida mesmo tendo conhecido apenas sua morte.

Eu sei que ela sempre esteve comigo, desde de muito nova eu sinto que ela já sabia que eu viria. Minha mãe conta que a minha vó morreu antes de saber da gravidez de minha mãe, mas então porque eu sinto que ela já sabia? Mas então porque desde que me entendo por gente eu tenho um laço com essa figura que eu gosto de pensar que é minha mãe de alma? Quem de fato é então essa figura? Esse ser que me ninava em dias de medo e chuva, em dias de ausência de luz? Quem é então esse alguém que eu sentia me abraçar e acolher em dias de extrema felicidade? Prefiro pensar que era ela.

Se um dia essa carta chegasse até ela eu só queria dizer que sinto saudade e que a amo.”

“Eu queria que um dia essa carta voltasse, chegasse, viajasse - não sei bem a palavra certa - até a minha querida vó que eu jamais conheci em vida apenas em alma”

Esse processo foi muito importante e acredito que não só para mim mas para meus anteriores e meus futuros. Um processo árduo de entrar em si mesma e descobrir múltiplas faces da minha estória enquanto mulher nortista-carioca. Aqui pude refazer laços ainda mais fortes, juntar nossos nós e nos fortalecer nas nossas diferenças. Aqui pude achar refúgio e caminho. Sou grata por esse processo, por esse começo-meio.

Tive comigo as pessoas certas que precisariam estar para meu crescimento pessoal e profissional. Não trocaria nem mesmo as dores e angústias do processo por efêmeros momentos de alegria, pois foi na dureza do pedregulho de se olhar que houve esse parto de descobrimento e amor.

Jornalista, pesquisadora, fotógrafa, famosa defensora de bandido, favelada, uma mulher em uma relação instável com a lúpus. Nascida e criada no complexo da maré desde 10 de Abril de 99. Filha e neta de baianos indígenas e quilombolas. Tendo uma gigantesca influência da mãe e da avó materna na sua criação, o amor pela literatura veio das duas . Lenços, cordões e brincos fofos fazem parte da personalidade dessa mulher, que sabe fazer pontos simples no croche mas se renega a dizer isso em voz alta. E eu sou uma prima distante de Beyoncé. E por favor leiam “O caminho de casa” de Yaa Gyasi e que todos nos o encontremos e que a dor de viver na diáspora diminua.

Minha avó em 3

Dona Edinha narra 3 fases da sua vida: a infância onde criou os irmãos, onde teve a ausência paterna e materna. A criação dos 3 filhos vivos,antes e depois da morte do primeiro marido. E a sua contribuição na criação das 3 netas e o seu sonho para o futuro.

Essa foto sempre foi algo muito importante pra minha mãe, talvez por ser o único registro que tenhamos da “geração principal” completa. Meu bisavô morreu antes de eu nascer, minha bisavó morreu quando eu tinha de 8 para 9 anos e minha irmã tinha 6 meses. Depois foi meu tio Zé Migonga. Meu tio tinha uma das melhores risadas do mundo e um coração enorme, pena que o rim dele não se desenvolveu. Às vezes, se eu fechar os olhos e me concentrar bem, eu ainda consigo ouvir a risada dele enquanto eu ganhava alguma partida de dominó dos meus primos.

Tia Joselita (Zelita) era a famosa tia cozinheira. A mulher fazia a melhor cocada do mundo!

Tia Lucia fazia a melhor comida do mundo quando a gente ficava triste. Se eu fechar bem os olhos eu também consigo ouvir meu avô paterno me chamando na porta de casa.

Minha avó é uma figura muito importante na minha vida. Quando minha mãe não podia estar, ela estava. Sempre foi assim. Lembro que em todas as datas comemorativas minha família se reunia, nós somos uma família grande; bem, éramos. Minha avó sempre me ensinou que a morte faz parte do ciclo da vida e que ela é a única certeza que temos na vida. Tudo nasce e tudo morre uma hora.

Cada um dos sete irmãos tinha uma cópia dessa foto. Não sei como minha mãe conseguiu a cópia dela, talvez quando tio Zé morreu ela pegou a foto pra si. Tio Zé era como um pai para a minha mãe, meu avô morreu quando ela tinha 7 anos e os seus filhos são como irmãos. Quando Eliza, a filha mais velha, morreu foi como se o espírito que unia a gente, que ficou com ela depois que meu tio se foi, tivesse morrido junto. Quando a notícia da morte dela chegou, lembro de só ouvir minha mãe repetir que ela tinha perdido o “bebê” dela. O apelido de Eliza era bebezão.

Eliza foi outra pessoa da família que teve grande influência sobre mim. Ela foi a primeira a entrar em uma universidade, ela puxava minha orelha durante o vestibular e nunca me deixou desistir.

Aqui em casa tem um quadro dessa imagem, pendurado na sala e limpo semanalmente. Tem um carinho gigante naquela imagem, olhando para ela não parece que ninguém envelheceu. Não parece que todo mundo que está nela e continua vivo estão com cabelos brancos, com dores e com saudades e nem que os que nasceram depois também sentem.

A cópia da minha avó fica na primeira gaveta do armário dela, ao lado do óculos que fica em cima das toalhinhas. Eu nunca tinha mexido na cópia dela e nem mencionado o assunto. Ela criou os seis irmãos, não teve direito à infância e nem pôde estudar. Quando ela teve as netas, sempre fez por onde pra gente poder ter o direito de escolha, menos nos estudos, aqui é obrigação. Minha avó quando viu o quadro pela primeira vez chorou baixinho, eu só sei que ela chorou porque eu estava do lado dela segurando a sua mão. Nós sempre ficamos assim, e vi lágrimas discretas pelo rosto dela.

Vovó sempre foi durona e severa, sempre ensinou o que é certo e o que é errado, me ensinou a tabuada, a fazer feira e como escolher um peixe - nosso prato favorito quando estamos juntas -, e por mais que eu esteja aqui o tempo todo eu nunca vou conseguir suprir a falta que ela sente deles.

Esse ano eu aprendi a diferença entre saudade e falta. Saudade você consegue resolver, se for saudades de alguém você pode ver essa pessoa e melhorar esse sentimento, mas e a falta? Você não consegue resolver, pois ela continua lá… vazia. E por mais que você tente preencher o buraco dele, ele continua lá. Eu queria conseguir preencher esses buracos que minha família sente, mas eu nem sei como preencher o meu.

Esse ano eu fiz uma pergunta muito importante durante uma reunião da coletiva, talvez muito importante pra mim mesma, que eu participo: qual é o seu céu? Eu ainda não descobri o meu, mas talvez lá no dos meus tios tenha um samba, cerveja gelada e peixe. Talvez meu tio tenha guardado um lugar para cada um, Tia Zelita e tia Lucia estejam brigando pra saber se tem comida o suficiente pra todo mundo e a Eliza esteja matando saudades da família e tenha recebido a mãe dela lá. E eu espero fortemente que eu esteja orgulhando eles e os escutando quando minha intuição aparecer. Como diz a Ryane Leão: intuições

são suas ancestrais

soprando nos seus ouvidos

segredos de sobrevivência.

E eu espero estar ouvindo todos eles, afinal meu corpo é o desejo e sonho dos meus ancestrais. Dos ancestrais retirados à força da sua terra e trazidos contra a sua vontade até essa terra estranha aos que nasceram chamando essa terra de lar.

"Eu sou o sonho dos meus ancestrais”. Depois de ouvir isso, começou uma martelada na minha cabeça, que martelou tanto que eu pensei: e talvez eu seja o sonho de alguns de vocês, ou não. E talvez eu esteja sendo um pesadelo, mas eu gosto de pensar que não. Afinal, “o sonho fecunda a vida e vingar a morte”, e eu vinguei. Algumas, eu acho.

Eu quero muito ser a mulher que vocês sonharam, mas também a que eu quero ser. Quero que meu corpo esteja representando e aproveitando toda a oportunidade que lhes foi roubada.

Eu também fiquei martelando: como foi o fim do mundo para vocês? Vocês pediram o futuro? Se conformaram? Vocês me viam no futuro vocês? Viram realmente a liberdade nele? Eu sou o que vocês desejavam? Muitas vezes tenho vontade de dizer não para “n” coisas, mas aí vocês sussurram o quanto lutaram para que eu possa dizer sim também.

A minha mãe e minha avó Edinha sempre me incentivaram a estudar: "a caneta é mais leve do que a pá”, elas dizem. Será que vocês trabalhavam com a terra? Será que o desejo de estudar e virar “gente” sempre esteve presente?

Mowà significa eu existo, uma filosofia yorubá. Gosto de pensar que vocês vivem através de mim. E que os meus gritos de dores são seus. Quando a minha intuição grita, são vocês gritando me alertando sobre algo.

Quando ele veio para cima para tentar me retirar dali a força, meu coração estava aos pulos, sentia meu interior frio como a brisa da madrugada, mas permaneci firme como os meus antepassados. - Itamar Vieira Junior, Torto arado.

Mesmo querendo desistir, permaneço aqui firme como vocês foram e são.

Na verdade, deixar minha avó falar é muito importante, minha avó é uma mulher negra, de 73 anos, do interior da Bahia [...] Deixa ela falar, narrar a vida dela, narrar porque eram fatos sobre a vida dela acho que é muito importante.Acho que é uma forma meio que de me redimir, pela voz que foi tirada dela e ela me ensinou a ter a vida toda.