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QUADRILHAS Da tradição à estilização

É só terminar o Carnaval que as quadrilhas juninas intensificam os preparos para as apresentações que acontecem todos os anos no período junino. Uma tradição que surgiu há muito tempo e até hoje permanece viva na história do povo brasileiro, principalmente na memória do povo do nordestino.

Apesar da dança ser carregada de referências folclóricas, do matuto e outras características do Nordeste, pesquisadores da cultura popular revelam que essa manifestação artística surgiu em Paris, mais especificamente no século XVIII. Nessa época, a quadrilha, intitulada de "quadrille", era uma dança de salão formada por quatro casais. Diferente de hoje, que é uma cultura popular, ela era apresentada para a elite europeia. Mas, há registros de que essas danças também eram praticadas nas áreas rurais da França e Inglaterra.

Foi somente durante o período Regencial (1831-1840) que essa manifestação artística chegou ao Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro. Os passos eram uma febre no meio aristocrático e aos poucos foi se tornando popular no país. Quando se popularizou nas áreas rurais brasileiras, muitas mudanças aconteceram nos passos, comandos e outras características - provenientes da cultura brasileira - foram incorporadas. Permaneceu a celebração dos dias dos santos de junho, foram abandonados alguns passos franceses e outros reformulados - dando origem ao matutês, que é uma mistura do matuto com o francês (Alavantú, Anarriê, Caminho da Roça, Caracol, Olha a Chuva! É mentira, e outros), houve o aumento do número de pares de dançarinos, as roupas ganharam um colorido especial, e permaneceu a figura do marcador - que faz brincadeiras e conduz os casais em cada momento -, o casamento matuto, e outras alterações.

As quadrilhas continuam fortemente presentes na tradição junina, sempre embalando os dançarinos ao som de baiões e xaxados típicos das comemorações de junho, além da culinária típica desse período na Região Nordeste.As quadrilhas atuais - tradicionais ou estilizadas -, se apresentam nas comunidades, empresas, clubes, escolas e em concursos juninos, que tem como objetivo valorizar a tradição e exaltar a cultura da gente sergipana.

Mas, para mostrar todos os passos e brilho dessa expressão da cultura popular, existe muito preparo que vai de ensaios, passando pela confecção das roupas até chegar à tão esperada época junina onde as quadrilhas se apresentam para o público.

Entrevistamos membros das quadrilhas Apaga Fogueira, e da umbaubense Balanço do Nordeste, para entender melhor como funciona o processo de preparação para os festejos juninos.

Foto: Pixabay

BALANÇO DO NORDESTE

Dá licença que a Balanço vai passar e como passou, levando prêmios, aplausos e o titulo de campeã Estadual de 2017 pelo Concurso Arrasta pé da TV Atalaia em parceria com a Liquajuse (Liga de Quadrilhas Juninas de Sergipe). Com o tema “Pequeno em extensão, grande no coração, conheça Sergipe a terra do meu papagaio” a quadrilha junina Balanço do Nordeste trouxe ao publico retratos sobre a cultura sergipana, refletida nos figurinos, na coreografia e principalmente, na essência do grupo.

Integrantes da quadrilha Balanço do Nordeste / Foto: Rivandson Teles

Apesar de já contar com um título estadual, a Balanço possui apenas três anos de fundação, assim afirma o atual presidente Júlio Cesar Oliveira Ramos, que durante a entrevista, expõe um pouco sobre a trajetória da quadrilha. Segundo ele, no inicio a quadrilha levava o nome de Encanto Caipira sendo financiada pelos recursos da Escola Municipal Benedito Barreto do Nascimento onde era mantida para fins recreativos, contando apenas com apresentações nos colégios do município de Umbaúba. Porém, sob o comando do então presidente e marcador Júlio Cesar, nasce o desejo de se criar um grupo maior para disputar concursos por todo o estado de Sergipe, tendo o apoio inicial da Associação São Francisco de Assis. Dentro desse contexto, a até então Encanto Caipira muda o seu nome para Junina Balanço do Nordeste e já no mesmo ano dessa mudança a quadrilha disputava o seu primeiro concurso abordando o tema “Eu tenho fé que ela há de vir, para meu sertão voltar a sorrir” retratando a problemática da falta de água no sertão nordestino.

Arquivo: Balanço do Nordeste

APAGA FOGUEIRA

Com 35 anos de tradição, a Apaga Fogueira é considerada uma quadrilha tradicional. Nasceu no bairro América, localizado na zona oeste da capital. Familiar, o grupo junino é administrado por Ana Maria Santos (presidente) e Jailda Santos (vice-presidente), mãe e filha respectivamente. “Iniciamos com minha mãe, ela sempre foi muito ativa, participava de questões culturais [...] quando ela casou aos 13 anos, veio morar no bairro América, e aqui sempre foi tido como um bairro violento, eu e meus irmãos ficávamos presos o dia todo e quando ela chegava, o momento que tinha de lazer era com a gente, resgatando as brincadeiras e dançando quadrilha, aí o pessoal daqui vinha e participava também [...] Foi mais pra tirar a gente da violência”, conta Jailda como surgiu a quadrilha.

A quadrilha atua também como projeto social, dando oportunidade às pessoas invisibilizadas pela sociedade, incentivando a participação desses cidadãos nos eventos realizados na comunidade e nos festejos juninos.

Luara, Josino e Jailda. Integrante, marcador e vice-presidente.

O grupo que participou de todas as edições do Levanta Poeira, concurso realizado pela TV Sergipe, ficou com a vice-liderança em 2014. “Delírio de um Dilúvio” foi o tema designado para contar a história de uma quadrilheira que tenta resgatar a tradicionalidade da dança junina.

Foto: Pixabay

O PROCESSO DE CRIAÇÃO E A ESCOLHA DO TEMA

Em depoimento, Gilton Santos, o vice-presidente da Balanço afirma, “Quando a gente tá acabando um ano, a gente já tá pensando no outro”. A preparação para os concursos começam de fato com seis meses de antecedência. Por ser uma quadrilha recente e relativamente pequena, o grupo junino conta com inúmeros voluntários que fazem parte da gestão organizacional, responsável pela escolha do tema. O vice-presidente que também é o encarregado pela criação dos figurinos da quadrilha, fala que a decisão do assunto a ser abordado é imprescindível para se construir todo o enredo. Em conversa com o coreógrafo, Júlio César, ele conta que o método de criação dos passos é bastante longo e complicado. Primeiro há um processo de pesquisa e seleção das músicas, depois, as músicas são ouvidas inúmeras vezes, isso porque, é preciso que haja uma análise profunda das letras e principalmente do ritmo de cada canção, com isso, são criados os passos, as formações e consequentemente a coreografia completa.

Membros da quadrilha Balanço do Nordeste ensaiando. / Foto: Rivandson Teles

Já na Apaga Fogueira o processo de preparação começa em novembro, quando se dão início aos os ensaios, realizados no Centro Social do bairro, e vão até o mês de maio, como conta a integrante Luara Thaysa formada em dança pela Universidade Federal de Sergipe, “A gente começa recrutando algumas pessoas pra aumentar o número de quadrilheiros, porque muita gente sai, e em qualquer concurso a quadrilha só entra no arraial com oito pares de cada lado. Meu tio decide o tema, e aí vai montando as coreografias e passando pra gente, e a gente vai ensaiando até a apresentação. ”

O tio a que Luara se refere, é Josino Santos, o marcador do grupo junino. À frente da quadrilha, ele conduz os quadrilheiros e tem como função principal manter a animação do grupo durante toda a apresentação. Ele também é responsável pela escolha do tema e coreografia e contou um pouco de como acontece esse processo. “Em relação à temática, a gente vai muito pelo nosso estilo, a gente não segue a linha da estilização, procuramos manter sempre a tradição”. Josino também falou sobre a escolha do tema desse ano, eles irão adaptar a música de Luiz Gonzaga, São João Sem Futrica, no intuito de fazer uma crítica ao atual contexto em que se encontram as quadrilhas sergipanas. “A gente vai tentar passar uma mensagem de como a crise chegou ao São João”, conclui.

Em suas identidades, as quadrilhas trazem uma forte ligação com a tradição, unindo os temas de suas apresentações às raízes do Nordeste, narrando e reescrevendo as histórias do povo nordestino através das coreografias e da emoção dos quadrilheiros. Aos poucos, a quadrilhas desenham, através da precisão e em passos firmes, a sua marca para contribuição da cultura sergipana.

Foto: Pixabay

A ROTINA DOS QUADRILHEIROS E OS CONCURSOS

Quando o espetáculo está pronto, a coreografia ensaiada e os quadrilheiros em formação a sensação de dever cumprido é visível. O publico aprecia, aplaude e vibra junto com movimento coreografado da quadrilha, que leva a tradição nordestina no ritmo e no coração. Na Balanço os dançarinos são jovens e em sua maioria, estudantes. Umas das dançarinas, Karolayne Havani, relata que a rotina é pesada, isso porque, durante a semana ela divide-se em estudar e memorizar as coreografias passadas nos ensaios. E apesar da preparação para os concursos acontecerem nos finais de semana, ela que é graduanda do curso de gastronomia na Universidade Tiradentes, conta que viaja todos os finais de semana para rever a família no interior e participar dos ensaios. Vale lembrar, que os quadrilheiros não recebem nenhuma remuneração, tudo é feito de forma espontânea puramente pelo amor a dança.

Ensaio da quadrilha Balanço do Nordeste. / Foto: Rivandson Teles

O casal de vaqueiros, destaque no ano de 2017, Raphael Ferreira e Edileide Santos, relata que exercer o papel de casal destaque é uma responsabilidade especial, não só por possuir figurinos e passos diferenciados, mas por exercer grande importância dentro do enredo a ser contado.

Foto: Pixabay

OS CONCURSOS

Em todo estado de Sergipe, acontecem inúmeros concursos entre eles o da Rua São João, o da TV Atalaia e o Levanta Poeira da TV Sergipe. Os critérios para avaliação das quadrilhas variam de concurso para concurso, em geral, eles são divididos em coreografia (xote, xaxado e baião), desempenho do marcador, o trio musical, harmonia e o traje.

Arquivo: Balanço do Nordeste
Foto: Pixabay

QUANDO ACABA O SÃO JOÃO...

A crise no São João, o excesso de estilização e o fim do tradicionalismo foram os assuntos que mais surgiram durante as entrevistas. As quadrilhas não escondem a sua insatisfação aos novos estilos de dança. Enquanto algumas acreditam em suas raízes e na tradição, outras seguem um caminho com mais brilho e cada vez menos regionalismo. Sobre isso, Josino, desabafa "Em dez anos eu tenho certeza que as quadrilhas tradicionais não vão mais existir. Vão ser só essas quadrilhas estilizadas com corpo de baile e a tradição vai morrer."

Outra forte crítica que a vice-presidente da Apaga Fogueira faz e que pretende abordar em seu enredo esse ano é a falta de investimento dos governantes na cultura de Sergipe. "Eles investem em shows, é isso que as pessoas querem. Tem bandas tocando e as tradições vão sendo esquecidas. A gente tem que bancar como podemos, as vezes a verba de novembro de 2015 chega em dezembro de 2016, depois que tudo acabou”, diz Jailda.

“A gente investe do nosso bolso, mas só o amor não basta. Quando acaba o São João só restam as dívidas.",

completa Josino.

Reportagem: Mariane Góis, Pedro Nascimento, Rivandson Teles, Yara Lima.

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