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Athos Bulcão, o artista de Brasília

Ricardo Westin, da Agência Senado

Publicado em 3/7/2018

Lúcio Costa traçou as ruas, praças e superquadras de Brasília. Oscar Niemeyer projetou os edifícios e palácios da nova capital. A tarefa de humanizar a cidade que nascia do zero no Planalto Central coube a Athos Bulcão, que por ela espalhou azulejos com cores vibrantes e linhas geométricas simples, elegantes e lúdicas. Athos, o artista de Brasília, completaria 100 anos no dia 2 de julho.

Seus painéis surgem em palácios do governo, ministérios, tribunais, igrejas, escolas, hospitais e até prédios residenciais. Estão também no aeroporto, no mercado de flores, no grande teatro e no principal parque de Brasília. É difícil encontrar um espaço público que não tenha passado pelas mãos do artista. Athos deixou mais de 250 obras na capital.

— Eu começo a desenhar e, de repente, surge uma coisa que eu não tinha imaginado. A criação é mesmo misteriosa. Eu também acredito em disciplina, no “vai lá e faz”. Fico imaginando quanta coisa as pessoas poderiam fazer e não fazem — disse ele certa vez.

Em Brasília, os azulejos do artista estão no dia a dia dos moradores (fotos: Pedro França e Pillar Pedreira/Agência Senado)

Foi desse trabalho, mistura de naturalidade com dedicação, que nasceram alguns dos símbolos que hoje definem o imaginário de Brasília, como a pomba e a estrela (dos azulejos da Igrejinha) e as folhas espalhadas pela ventania (do painel da Câmara dos Deputados).

O artista era carioca, mas deixou o Rio de Janeiro quando foi convidado por Niemeyer para fazer parte da equipe que ergueria a nova capital. De seus 90 anos de vida, 50 foram passados em Brasília. No dia 31 de julho, fará uma década que ele morreu.

Brasília foi a grande tela em branco de Athos, mas ele também deixou sua marca em cidades como Rio, Belo Horizonte, Vitória, Salvador, Natal e Recife. As embaixadas brasileiras na Argentina, na Nigéria, na Índia e em Cabo Verde têm obras do artista.

Athos merece um capítulo só seu na história da arte. Primeiro, porque ele mergulhou na secular azulejaria barroca portuguesa e, com atrevimento e maestria, conseguiu transportá-la para o modernismo brasileiro. Depois, porque foi o artista brasileiro que melhor soube fazer a integração da arte com a arquitetura.

Obras de Athos em Salvador, São Paulo, Recife e Rio de Janeiro (fotos: Fundação Athos Bulcão)

A integração significa que a arte não entra no prédio só depois que ele está pronto, como um quadro que pode ser colocado em qualquer parede, ao gosto do dono do espaço. Athos e Niemeyer trabalharam juntos para que a obra artística e a construção fossem uma coisa só, amalgamadas de modo orgânico, inseparáveis.

É por causa da integração da arte com a arquitetura que não dá para imaginar a Igrejinha ou o Salão Verde da Câmara sem seus azulejos. Caso as paredes estivessem simplesmente pintadas, os dois espaços não teriam o mesmo encanto.

— A parceria entre Athos e Niemeyer rendeu uma dupla tão afinada quanto Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Jorge Amado e Carybé, Fellini e Nino Rota — compara o estilista Ronaldo Fraga. — Athos imprimiu um olhar de criança na sisudez da arquitetura modernista.

A integração da arte com a arquitetura, porém, tem um efeito colateral: muitos acreditam que os painéis de azulejo foram feitos pelo próprio Niemeyer.

— Athos era tão generoso que não se importava com isso. Nem sequer assinava os painéis. O importante era que a arte fizesse parte da estrutura do prédio e criasse um ambiente especial e prazeroso — explica Marília Panitz, curadora, crítica de arte e professora aposentada do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB).

A generosidade também se via na relação com os pedreiros que assentavam os azulejos. Em alguns painéis, Athos deu liberdade para que eles dispusessem as peças como bem entendessem, transformando-os em coautores das obras de arte.

Athos era um artista polivalente. Além de azulejos, produziu pinturas, desenhos, fotomontagens, capas de disco e revista, máscaras, figurinos de teatro e painéis divisórios e acústicos.

Além de azulejos, Athos Bulcão produziu fotomontagens, desenhos e pinturas (foto: Fundação Athos Bulcão )

Os hospitais da Rede Sarah são resultado da parceria de Athos com outro arquiteto, João Filgueiras, mais conhecido como Lelé. Neles, localizados em várias capitais do país, o artista se recusou a empregar os tons apagados e tristes que são típicos dos ambientes hospitalares. Escolheu formas e cores que atiçam a imaginação. Para ele, a alegria era um remédio essencial para a recuperação dos pacientes.

Para o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), Athos optou pela sobriedade. O painel de mármore que ocupa toda a parede principal compõe-se de nichos triangulares escavados na pedra, sempre do mesmo tamanho, lembrando que todas as pessoas são iguais perante a lei.

Ao projetar o Teatro Nacional, em Brasília, Niemeyer desafiou Athos a pensar numa fachada ao mesmo tempo leve e pesada. O artista descartou os azulejos e apostou no jogo entre luz e sombra. A fachada, então, recebeu cubos de concreto de diversos tamanhos. Iluminados pelo sol, eles criam sombras que se movem no decorrer do dia, mudando o aspecto da fachada.

Diz a secretária-executiva da Fundação Athos Bulcão, Valéria Cabral:

— O grande legado que o professor Athos nos deixou foi tirar a obra de dentro do museu e colocá-la na rua para que todos pudessem admirá-la. Ele gostava de oferecer sua arte para a população. Isso também é generosidade.

Artista é onipresente no Congresso

Entre os edifícios oficiais de Brasília, o Congresso Nacional é particularmente privilegiado no quesito arte. O prédio abriga dezenas obras de artistas como Alfredo Ceschiatti, Burle Marx, Di Cavalcanti e Marianne Peretti. Nenhum deles, porém, é tão onipresente nas alas públicas do Congresso quanto Athos Bulcão. Existem perto de 20 painéis de Athos divididos entre o Senado e a Câmara.

O Athos mais famoso do Congresso são os azulejos que recobrem a extensa parede do jardim interno do Salão Verde, a movimentada área da Câmara pela qual circulam deputados, servidores e cidadãos e onde os repórteres de TV gravam suas reportagens.

O painel se compõe de quatro tipos de azulejo, sendo três com formas geométricas azuis sobre um fundo branco e o quarto completamente branco. As peças estão dispostas de forma aleatória, quase caótica, o que insinua uma cena de folhas sendo carregadas pela ventania. Os azulejos combinam perfeitamente com as plantas do jardim, projetado por Burle Marx.

— Esse espaço não é pesado, embora nele se discutam as grandes questões nacionais. O desenho que Athos fez no painel dá a sensação de que o ar está entrando no ambiente e permitindo que as pessoas respirem — afirma Marília Panitz.

Athos deixou painéis de azulejo no posto de saúde e na escola de governo da Câmara e também no prédio do Programa Interlegis, no Senado.

O Congresso Nacional abriga obras de Athos Bulcão em espaços importantes como o Salão Verde da Câmara e o Plenário do Senado (fotos: Rodrigo Viana/Comap Senado)

>> Acesse aqui o catálogo completo das obras de Athos no Congresso

Outra imagem icônica do Congresso são os painéis de barras paralelas de metal que se localizam no ponto mais alto dos dois Plenários. Eles também foram projetados por Athos. Bem no centro do painel do Plenário do Senado estão instalados um crucifixo e o busto de Ruy Barbosa.

Ainda no Senado, são criação do artista plástico as 150 mil plaquinhas metálicas que revestem o teto arredondado do Plenário e dão forma a um monumento. A função das placas não é meramente estética. Elas potencializam a luminosidade e melhoram a acústica do ambiente.

São de Athos o painel em mármore branco e granito preto do Salão Negro do Congresso, a parede divisória vazada do Salão Verde da Câmara e o painel de madeira laqueada vermelha do Museu do Senado.

O artista plástico Alex Flemming explica por que os prédios oficiais de Brasília são tão generosos em obras de arte como as de Athos Bulcão:

— Os palácios são, antes de tudo, símbolos de poder. O poder pode estar evidenciado não apenas na parte de fora, por meio da arquitetura, mas também no interior dos palácios, por meio da exposição dos tesouros artísticos que a instituição ou o governante possui. Foi assim em Persépolis e é assim em Brasília.

Vocação fez Athos trocar o Rio por Brasília e a medicina pela arte

Foi por pouco que Athos Bulcão não se tornou o doutor Athos. Aos 18 anos, cedendo ao desejo do pai, ele se matriculou na Faculdade Fluminense de Medicina, em Niterói (RJ). Aguentou o curso o máximo que pôde. No terceiro ano, a vocação falou mais alto e Athos trocou a medicina pela arte.

— A única coisa da qual ele gostava na faculdade eram as aulas de anatomia, porque era quando podia desenhar — conta a secretária-executiva da Fundação Athos Bulcão, Valéria Cabral.

O artista nasceu no Rio de Janeiro, a capital do país, em 2 de julho de 1918, pouco antes do fim da 1ª Guerra Mundial. O excêntrico nome Athos foi uma homenagem a um dos três mosqueteiros do romance de capa e espada de Alexandre Dumas.

Da infância no Rio de Janeiro ao reconhecimento profissional em Brasília (fotos: Fundação Athos Bulcão)

Após abandonar a escola médica, Athos passou a frequentar o circuito artístico do Rio e tornou-se amigo de figuras como os pintores Carlos Scliar e Candido Portinari, o paisagista Burle Marx e o arquiteto Oscar Niemeyer.

Em 1945, ele fez estágio no ateliê de Portinari e foi seu assistente na execução do painel de azulejos da igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Foi com o mestre que aprendeu o segredo das cores.

Em 1957, aceitou o convite de Niemeyer para participar da construção dos prédios de Brasília. Athos era funcionário do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e, para atuar no canteiro de obras montado no Planalto Central, foi emprestado à Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap).

Ao lado de Niemeyer e do urbanista Lúcio Costa, Athos Bulcão é considerado um dos “pais” de Brasília. Dos três, foi o único que adotou a cidade. O carioca virou brasiliense. O que mais o fascinou foi o céu da capital:

— O que era lindo é que o céu era escuro e parecia um manto cintilante, com uma lantejoula ao lado da outra. Aquilo parecia que ia cair na cabeça da gente de tanta estrela.

Athos gostava de ser chamado de “professor”. Sua carreira docente, no entanto, foi breve. Ele deu aula no Instituto Central de Artes da Universidade de Brasília (UnB) entre 1963 e 1965. Pediu demissão, ao lado de outros professores, em protesto contra abusos da ditadura. Em 1988, graças à Lei da Anistia, foi readmitido na UnB e lecionou por outros dois anos, até se aposentar.

O artista continuou produzindo até meados dos anos 2000. Debilitado pelo mal de Parkinson, sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu em 31 de julho de 2008, quatro semanas depois de completar 90 anos. Athos estava internado no Hospital Sarah — um dos tantos espaços de Brasília que ele havia iluminado com seus traços e cores.

Obras mais populares do que nunca

Athos Bulcão estreou em Brasília com o célebre painel azul da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, formado pela alternância de apenas dois tipos de azulejo: um com a pomba do Espírito Santo e o outro com a estrela que guiou os reis magos até o menino Jesus. A Igrejinha foi aberta em junho de 1958.

Aos 60 anos, os ícones do painel inaugural de Athos na capital federal não dão sinais de cansaço. O mesmo vale para as obras posteriores espalhadas pela cidade, que também parecem exalar mais frescor do que nunca.

Os celulares conectados à internet têm ajudado nisso. Não é difícil encontrar jovens diante dos azulejos da Igrejinha tirando fotos de si próprios que serão postadas nas redes sociais e curtidas pelos amigos. Buscando a selfie perfeita, eles também recorrem aos murais do mezanino da Torre de TV e das paradas de descanso do Parque da Cidade. São fotos que fazem Athos viajar o Brasil e o mundo.

Os azulejos da Igrejinha, em Brasília, são a obra mais popular de Athos e atraem romaria de turistas (fotos: Pillar Pedreira/Agência Senado)

Recentemente, a marca brasiliense de roupas Dane-se lançou uma coleção de camisetas estampadas com desenhos de Athos. A Fundação Athos Bulcão vende canecas, capas de celular e até joias com ícones do artista. A agência de turismo Experimente Brasília, por sua vez, oferece a rota dos azulejos, um passeio que leva visitantes brasileiros e estrangeiros aos principais painéis de Athos na capital.

— Athos está para Brasília da mesma forma que Gaudí está para Barcelona — compara Patrícia Herzog, fundadora da Experimente Brasília.

Inúmeros artistas contemporâneos anunciam com orgulho que têm Athos Bulcão como inspiração. Entre eles, estão os azulejistas Felipe Cavalcante, Pedro Ivo Verçosa, João Henrique Cunha Rego, Lígia de Medeiros e Alexandre Mancini.

— O nome Athos Bulcão carrega as iniciais AB, as mesmas de azulejaria brasileira e arte brasileira — afirma Mancini. — Guardo uma gratidão profunda e interminável por ele.

Athos continua influenciando: o azulejista Alexandre Mancini, de Belo Horizonte, com obra inspirada no mestre, e o bloco Rejunta Meu Bulcão, que anima o Carnaval de Brasília desde 2013 (fotos: Élcio Paraíso/Bendita e Divulgação)

A reverência também se vê na cultura popular. Desde 2013, um dos blocos de Carnaval que saem pelas ruas de Brasília é o Rejunta Meu Bulcão, seguido por foliões que se fantasiam das inconfundíveis formas geométricas do artista.

Nas escolas públicas do Distrito Federal, a vida e a obra de Athos são conteúdo obrigatório das aulas de artes nas séries iniciais do ensino fundamental.

Há professores de matemática que, pelo caráter lúdico, recorrem aos azulejos do mestre para ensinar às crianças os ângulos, as formas geométricas e os cálculos do perímetro e da área. Diz João Felipe de Azevêdo, de 13 anos, estudante do Centro de Ensino Fundamental Athos Bulcão, em Brasília:

— Quando vi os painéis do Athos, tive a sensação de que qualquer um seria capaz de fazê-los. Só descobri que dá muito, muito trabalho depois que a professora nos pediu que criássemos na cartolina nossos próprios murais. Eu suei para fazer essa atividade. O cara era bom mesmo!

Estilista levou Athos à passarela da São Paulo Fashion Week

O estilista Ronaldo Fraga se apresentou na edição 2011 da São Paulo Fashion Week com uma coleção homenageando Athos Bulcão. As modelos percorreram a passarela trajando blusas, vestidos e saias com cortes e padronagens inspirados nos azulejos do artista plástico.

— Tenho muito orgulho dessa coleção. Foi a minha forma de reverenciar um dos nomes da cultura que ajudaram a forjar o Brasil moderno — ele afirma.

Fraga repetiu uma célebre estratégia de Athos. Da mesma forma que o artista confiou aos operários a organização dos azulejos em determinados painéis, o estilista deu liberdade às bordadeiras do interior de Pernambuco para que dispusessem as imagens nas roupas como bem entendessem.

— Uma das coisas que mais marcantes do Athos era a generosidade de dizer aos operários: “A criação agora também é de vocês”.

Leia, a seguir, trechos da entrevista com Ronaldo Fraga:

O que mais o atrai na obra de Athos Bulcão?

O que acho mais genial é que o Athos consegue desconcertar pela simplicidade. Isso é coisa para poucos. Com traços reduzidos e poucas cores, ele dá ao espectador a sensação de estar vendo muito mais. Se você observa uma obra do Athos, fecha os olhos e depois lhe perguntam quantas cores há, é certo que a resposta vai ser: “mais de dez”. Quando você abre os olhos, vê que há duas cores, no máximo três. Só um gênio é capaz de fazer isso.

Como você o descobriu?

Lamento não tê-lo conhecido pessoalmente. Certa vez, numa viagem, fiz uma escala no aeroporto de Brasília. Enquanto esperava o voo, fiquei sentado diante de um painel de azulejos do Athos e me surpreendi com a alegria da arte dele. Aquilo despertou a minha curiosidade e comecei a pesquisar. Quando me dei conta, eu estava terrivelmente apaixonado pela obra dele. Parecia que o Athos era uma daquelas figuras da cultura brasileira sempre tinham feito parte da minha vida, como o Dorival Caymmi, o Candido Portinari e o Vinícius de Moraes. Ao mesmo tempo, fiquei assustado quando percebi o absurdo que era o nosso povo ter um artista tão extraordinário e não saber absolutamente nada a respeito dele.

Ele ainda não tem o reconhecimento que merece?

Quando fui à Fundação Athos Bulcão, em Brasília, encontrei gente do mundo todo, designers japoneses e alemães, por exemplo, fazendo pesquisa sobre ele, mas não vi brasileiro. O Brasil tem a mania de desdenhar dos grandes da sua cultura, de fingir que não os vê. Se você mostrar um painel do Athos a alguém, é quase certo que ele não vai saber quem é ou vai falar que é obra do “azulejista do Niemeyer”. O Athos foi bem mais que isso. Se é difícil imaginar Brasília sem a obra do Niemeyer, é impossível imaginar a obra do Niemeyer sem a arte do Athos.

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