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Matriarcalidades: o poder das Yabás e a força geradora da vida

Associação Beneficente Cultural e de Preservação e Tradição Unzó Maiala / Mameto Laura Borges

A MATRIARCA

Na comunidade onde Mameto Laura Borges vive, no bairro do Garcia, em Salvador, os terreiros sempre foram os lugares para onde as mulheres correm quando precisam de ajuda e orientação. É sempre ali o espaço encontrado para dialogar sobre relacionamentos, dificuldades e as mais diversas violências sofridas. Aos 52 anos, líder religiosa à frente de um desses terreiros de Angola famosos por ouvir e acolher, Mameto fez valer sua antiga necessidade de ajudar o próximo. Há muito tempo, decidiu que abriria as portas sempre que uma mulher precisasse ser ouvida.

O resultado é que o terreiro Unzó Maiala tem um longo histórico de projetos sociais e apoio à comunidade. A história do terreiro se funde, de certa forma, à história de Mameto, que ocupa a liderança há 19 anos. “Esse é um trabalho que sempre habitou em mim”, explica, com a fala mansa e paciente. O Unzó Maiala, reconhecido e respeitado na região, acolhe pessoas das mais diversas religiões em seus projetos.

“Normalmente, quando abro o terreiro para algum projeto, peço proteção espiritual, não importa a religião. Mas existe uma separação e nós desenvolvemos de uma forma bem diferente, não misturamos as coisas. A sabedoria é o verdadeiro legado de nossa vida. É saber ouvir e falar. O conhecimento vem da vivência. Dessa forma, a gente consegue respeitar as pessoas, o que é muito importante, e somos respeitados de volta”, sussurra Mameto.

“Eu sou uma mãe de mais de 70 filhas e isso é maravilhoso.”

Com o apoio do edital Ela Decide, uma realização do Fundo de População da ONU em parceria com o Fundo Elas, Mameto reuniu mulheres, jovens e senhoras, cis e transgêneros, para falar de saúde feminina e da experiência com o corpo. Com auxílio de um coletivo, uma cartilha foi elaborada explicando questões como o ciclo menstrual. “As mulheres precisam ter autonomia, ser empoderadas e ver sua capacidade. Para mim, essa é a maior felicidade”, conta a líder religiosa.

Como o próprio nome do projeto adianta, Mameto trouxe a inspiração da força feminina das Yabás, orixás femininos, e resgatou a sabedoria das matriarcas. Como as Yabás, ela acredita que todas as mulheres -- rainhas, princesas e mães -- têm em si a força de prosperar. Mameto vê essa verdade em si mesma, por isso a mão estendida àquelas que reconhece ao seu lado, inclusive as jovens transexuais. “Para mim é um prazer receber todas elas”, diz. “Eu sou uma mãe de mais de 70 filhas e isso é maravilhoso.”

Projeto: Matriarcalidades: o poder das Yabás e a força geradora da vida

Local: Salvador

Pessoas beneficiadas diretamente pelo projeto: 250 mulheres e 6 homens.

Associação Beneficente Cultural e de Preservação e Tradição Unzó Maiala desenvolveu o projeto a partir de diversas atividades direcionadas prioritariamente para mulheres da comunidade sobre autocuidado, a saúde reprodutiva e os ciclos do corpo da mulher, contribuindo para a troca de saberes e experiências de mulheres negras (cis e trans) da periferia de Salvador. Entre os materiais produzidos, se destacam camisetas e materiais impressos, como o “Manual Ginecologia Natural & Autonomia”.

Fotos: Daniele Rodrigues / Redação: Fabiane Guimarães e Rachel Quintiliano / Coordenação Editorial: Rachel Quintiliano / Revisão de conteúdo e abordagem: Anna Cunha, Juliana Soares e Michele Dantas / Design Gráfico: Diego Soares

Esta história faz parte da publicação "Força Motriz: histórias e ações empreendidas por mulheres e para mulheres na Bahia", que mostra o resultado da parceria entre o Fundo de População das Nações Unidas e o Fundo Elas para apoiar projetos liderados por mulheres residentes no Estado da Bahia, que atuam promovendo ações de formação e informação em saúde sexual, reprodutiva e direitos. Para saber mais sobre o projeto e ler outras histórias, acesse brazil.unfpa.org/forcamotriz