Redação Eriberto de Jesus Carvalho

Módulo 1

Escrever para o rádio tem exercido ao longo dos anos uma mutação muito grande por causa do Cross Media que deve ser feito na transposição do texto de outros suportes de comunicação para o suporte oral. A primeira providência é exercitar a escrita falada com verbos adequados para a ação, o que leva muitas vezes a certa confusão. Os autores que publicaram estudos por observação na linguagem oral, e mesmo aqueles que analisam o discurso ao microfone, constatam sempre a imprecisão da linguagem e muitas vezes a inadequação ao público alvo o que causa imediatamente um dos piores ruídos na comunicação: o desinteresse pelo assunto.

Esse crime constante começa quando quem escreve ou interpreta um texto radiofônico não presta a atenção a sonoridade das palavras, pois se em outros suportes isso não faz sentido, no rádio o som das palavras pode confundir e desinformar. Todo redator, portanto, tem que ler em voz alta o que escreve para testar o som das palavras e sua reverberação pela sala, descobrindo assim o fato anti-radiofonico e possíveis erros de concordância, cacofonias, aliterações, repetições de palavras e até rimas que vão se compondo pela sonoridade.

Nesse momento você descobre que a linguagem do rádio é nítida, pura, simples, direta e clara. Embora a concentração do ouvinte seja superficial, na hora da frase que se perde na dúvida ou ambiguidade faz provocar o desinteresse e a perda da confiança nas informações prestadas. O raciocínio complexo deve ganhar no rádio um aliado importante o esclarecimento porque ser simples é escrever como se fala buscando um público muito mais heterogêneo.

Se analisamos que ao falar tudo vira passado, vamos perceber que o ouvinte não terá uma segunda chance para compreender a mensagem, logo é preciso traduzir muitas vezes até o pronunciamento de políticos e entrevistados para o popular, deixando de lado a pompa das palavras difíceis, evitando técnicas e estrangeirismos. Há uma recomendação constante de todos os profissionais do jornalismo em rádio para o uso de frases em ordem direta compostas por sujeito, verbo, predicado, além de serem mais curtas, palavras breves e sinônimos populares.

Aqueles que falam, usam da beleza da conversa para transmitir a informação de forma coloquial, corriqueira, diária, como uma torneira que pinga e enche o balde sem desperdício. Assim a repetição de palavras que não têm sinônimos, a captação da atenção de um ouvinte que passa, a sedução pela fala faz do texto uma poderosa ferramenta que leva a precisão da palavra de forma incisiva e objetiva.

Como a redação deve ser direta, os parágrafos são compostos de poucas linhas, 3 ou 4 com frases curtas fáceis de falar sem perder o fôlego. Mesmo na improvisação de um comentário pensa-se da mesma forma. Pode-se também alternar frases curtas de uma linha, com frases médias de duas linhas, gerando assim um ritmo agradável de leitura e uma suavidade para quem ouve e acompanha as informações.

Enfim, o texto para o rádio deve ser coerente com a síntese e a concisão. A escolha do vocabulário também deve ser criteriosa. Limpar as palavras e frases que não acrescentam nada a informação deve compor a vigia constante do texto. Evitar expressões que sobrecarregam a intencionalidade como: por outro lado / apesar disso / pelo contrário / ao mesmo tempo / em nível de.

Como redator você deve mesmo enxugar o texto deixando apenas o essencial ao entretenimento e à estrutura gramatical.

ESTRUTURA

A notícia deve ter em média de quatro a seis linhas. Use seu feeling jornalístico para saber qual a importância do fato e a ele dedicar apenas o necessário. Se a informação não vale mais de duas linhas dê a ela apenas duas. A notícia se completa em si mesma e o ouvinte nem sempre tem o conhecimento prévio do que aconteceu antes. Daí a importância de se resgatar os antecedentes da informação, ao que chamamos de “SUITE”, para recolocar o ouvinte em contato com os fatos de antes da atualização da argumentação. Os casos mais relevantes para essa atitude devem ser Utilidade Pública, ao final de notícias longas, boletins, entrevistas, quando é necessário relembrar o ouvinte com uma frase resumo do fato.

Há que se pensar que a mensagem do rádio é fulgás e assim a temporalidade da linguagem radiofônica é simultânea a audição, ou seja, os fatos devem ser localizados pela proximidade com o ouvinte, o que possibilita também ao comentar o fato, transformar em presente as notícias do passado fazendo comparações e adequações ao contemporâneo. Nesse caso a reposição dos verbos será a parte mais importante, dando ao ouvinte a sensação de que os assuntos estão muito mais perto do que imaginou.

Ex: Viaja amanhã. Ele vai jogar na próxima semana

O passado da informação será usado no momento que contribuirá para a formação e complementação da notícia.

Outra atitude positiva do redator diz respeito a sua disciplina de transcrição das fontes quando da declaração das mesmas, resumir e simplificar a palavra dos entrevistados dando ao ouvinte uma clareza maior da intencionalidade a ser publicada. A construção da reportagem assim pode se dar como sonora corrida, salvaguardando o conteúdo que foi pesquisado, ou sonora construída, com intervenção de offs que ajudarão a resumir a matéria.

Quanto a apresentação dos entrevistados, em qualquer circunstância o Cargo deve sempre anteceder ao Nome. Não use duas informações na mesma frase, construa cada uma segundo a cronologia da apresentação. Desdobrando assim, evitará a repetição, pois em cada uma das frases virá a apresentação correspondente dos fatos que justificam a informação.

Redija, de preferência no singular.

Ex: A chuva forte causou estragos. (E não). As chuvas fortes causaram estragos.

Evite escrever em seu nome, na primeira pessoa (eu), cuidado com a ambiguidade dos pronomes possessivos – ele/ ela/ dele/ dela/ podem criar confusão na interpretação do ouvinte.

APRESENTAÇÃO DO TEXTO

O texto deve sempre sugerir frases corridas a começar pelo lide jornalístico com preferência a generalização das informações no início com suporte para o momento de elencar as circunstancias e detalhes. Faz-se isso para não confundir o ouvinte e provocar uma ordenação da informação. Assim qualquer tipo de lista deve ser evitado como ao falar de ruas interrompidas, preços, números, etc.

Por falar em números, prefira escrevê-los por extenso ou sublinhados, ficam em evidencia e ajuda na leitura. Outra possibilidade é escrever por extenso até nove e de 12 a 999 em algarismos (120 mil). Além de mil, a forma composta: 14 milhões; 360 mil; sessenta e seis pessoas (atenção ao gênero, número e grau)

Porcentagem, números com fração, números romanos e ordinais (segundo, terceiro, quarto) por extenso. Evite o número ordinal acima do décimo (350°- 350 anos) e ainda para complementar, se o número for muito grande, procure arredondar quantias. A exceção se aplica quando o valor é de extrema importância.

No que diz respeito a hora e horários, escreva e fale de forma coloquial sempre que possível olhando apenas as 12 horas e fazendo o anuncio da tarde se passar do meio dia. Assim escrevemos: duas da tarde, onze da manhã, uma hora e 35 minutos, quinze para às duas da tarde, etc. Ao citar o fuso horário complemente com a hora de Brasília.

Em tempo, não se esqueça das siglas que devem sempre vir escritas em maiúscula, nomes próprios também escritos em maiúsculas.

Apenas por uma questão de convenção, foi estipulado que as Laudas têm 72 toques em cada linha de 5 segundos e complementam-se com 12 linhas o que acarreta em tempo 1 minuto por leitura de Lauda.

Podem ser compostas também por 65 toques em cada linha de 4 a 5 segundos, o que fará preencher a Lauda com aproximadamente 12 a 15 linhas, que irão corresponder a 1 minuto também.

As Laudas podem ter 997 caracteres o que também dará uma média de 1 minuto.

Use espaço dois, sublinhe palavras estrangeiras ou de pronuncia difícil, coloque entre parêntesis o correspondente em língua portuguesa, e se usar caixa alta após cada ponto sinalize com uma barra vertical e ao término da notícia com duas barras

ENTRANDO EM DETALHES DA REDAÇÃO JORNALISTICA

Como você já observou, a técnica de redação, não diz respeito apenas à estrutura das frases, ao vocabulário utilizado, mas também a ordenação das informações que serão apresentadas no decorrer do roteiro. Para o rádio o tom do discurso jornalístico também informa ao ouvinte o começo e o final de cada frase e de cada assunto. O tom, o discurso e a importância da informação serão distribuídos na Pirâmide Invertida. O equilíbrio entre a informação e a franqueza com que será apresentada, darão ao jornal falado o respeito do público alvo. Especificamente a redação jornalística inteligível passa a ser instigante e concisa obedecendo os limites da compreensão e informando a comunidade onde a emissora está inserida.

Dando ênfase a linguagem, a prosa jornalística deve ser explícita e precisa, evitando os jargões da profissão ou mesmo de comunidades específicas, ainda que haja uma tendência à identificação com aquele segmento. Esta observação diz respeito a onipresença do rádio, e mesmo que o jornalista deseje se aproximar de determinado grupo, não justifica sacrificar a redação do jornal para esse fim, haja visto que a emissora tem programas que atingem cada segmento cultural.

A pirâmide invertida evoca o conhecimento dos profissionais da notícia como sendo o fato mais importante sempre a frente e em seguida vai se elencando os demais até chegar a narrativa, provas dos fatos e consequentemente a conclusão. O lide é a primeira frase — ou, em casos especiais, as duas primeiras frases. O princípio de antecipar a informação se aplica especialmente ao lide, mas a ilegibilidade de frases longas contrai o tamanho do lide. Por isso, redigir um lide é, tecnicamente, um problema de otimização, no qual o objetivo é articular o dado mais inovador ou relevante em uma única frase, de acordo com o material da apuração. É comum afirmar que a imensa maioria dos leitores lê apenas o lide de cada matéria.

Se a narração é o gênero de redação em que uma história é contada (seja uma fábula ou uma crônica), com o uso de recursos como flashbacks, suspense, narrador em primeira ou terceira pessoa, etc., a notícia é o relato do fato, com texto, geralmente, mais simples, seco.

Você vai entender como funciona.

Será que a notícia que acompanhamos no rádio, na TV, no jornal, na revista ou Internet é um fato em si ou uma interpretação de algum jornalista? Quando olhamos para um objeto ou animal o que vemos? Agora se for uma fotografia ou uma gravura em um jornal? O conceito de representação da figura nos reporta à linguagem jornalística que descreve e interpreta um fato do ponto de vista do redator e os convidados (fontes) que complementam a matéria. Como na maioria das vezes não conhecemos o redator, acreditamos que pela idoneidade da empresa e a ética profissional, não há uma tendência. Com a linguagem escrita acontece a mesma coisa: ela representa algo, como objetos, valores, ideias. Logo, a notícia não é o fato em si, mas sim uma interpretação desse fato, certo? Observe a notícia abaixo:

Onda de lama ameaça com enchentes 15 cidades de MG e ES10

Rayder Bragon

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte 06/11/201521h38

O Serviço Geológico Brasileiro alertou 15 cidades nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo para o risco de enchente devido à onda de cheia vinda do rompimento das barragens em Mariana (a 115 km de Belo Horizonte). A previsão é de que o volume de lama e rejeitos despejado pelas barragens de Fundão e Santarém cheguem na segunda-feira (9) em Linhares, no Espírito Santo. Segundo a empresa responsável pelas barragens, a mineradora Samarco, cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram liberados com o rompimento das barragens, o suficiente para encher 24.800 piscinas olímpicas. A lama que cobriu o vilarejo já passou pelos rios Gualaxo do Norte e do Carmo e desaguaram no rio Doce. O alerta foi disparado para as cidades de Ponte Nova, Nova Era, Antônio Dias, Coronel Fabriciano, Timóteo, Ipatinga, Governador Valadares, Tumiritinga, Resplendor, Galileia, Conselheiro Pena e Aimorés, em Minas Gerais, e Baixo Guandu, Colatina e Linhares no Estado do Espírito Santo.

ASSUNTO

A informação refere-se a queda da barragem da Mineradora Samarco na tarde do dia 06 de novembro de 2015 próximo ao subdistrito de Bento Rodrigues a 35 km do centro da cidade história de Mariana MG.

Como é um site de grande porte, a informação limita-se ao fato com atualizações periódicas, que acompanham o desenrolar das investigações sobre as causas e potenciais consequências, abrindo o ângulo de ação até para as cidades circunvizinhas. Dai o lide ganha um novo elemento que é a especulação sintomatizada e sistematizada a partir da recuperação de fragmentos informativos das autoridades locais, ambientais, de ajuda humanitária e dos governos municipal, estadual e federal.

ESTRUTURA

Observe que a notícia se estruturou nos parágrafos iniciais acompanhando a cronologia de importância dos fatos no lide: quem, onde, o que. Quem ouvir a notícia pelo rádio, imediatamente faz um resgate da importância dessa informação e atualiza seu conhecimento sobre o fato.

Quem: O serviço Geológico Brasileiro

Onde: Mariana MG

O quê: Alerta as cidades sobre a previsão do volume de lama.

Em seguida, faz-se uma comparação quantitativa do volume despejado para facilitar o entendimento do problema naquela região e justificar a qualificação da notícia.

O lide se fecha nesta frase citando a dimensão do volume que ameaça várias cidade mineiras.

“O Serviço Geológico Brasileiro alertou 15 cidades nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo para o risco de enchente devido à onda de cheia vinda do rompimento das barragens em Mariana (a 115 km de Belo Horizonte) ”

Quando planejamos a Cross Média para o veículo radiofônico percebemos que a informação ganha nova redação:

LOC – Lama de Mariana chega ao Espirito Santo

TEC – VHT Boletim

LOC – Quinze cidades de Minas e Espirito Santo estão em alerta pelo Serviço Geológico Brasileiro para o risco de enchentes por causa da Lama da Barragem de Mariana.

LOC – Sessenta e dois milhões de metros cúbicos de rejeitos foram liberados com o rompimento das barragens de Fundão e Santarém dia seis de novembro.

LOC – Há uma previsão pelos técnicos que até segunda-feira, dia nove a lama chegue em Linhares, no Espírito Santo.

TEC – VHT ENCERRAMENTO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBEIRO, Heródoto & LIMA, Paulo Rodolfo. Manual de Radiojornalismo. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Editora Sagra Luzzatto, 2001.

LÓPES VIGIL, José Ignacio. Manual urgente para radialistas apaixonados. Trad. de Maria Luisa Garcia Prada. São Paulo: Paulinas, 2003.

Created By
Maria Beatriz Cruz
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