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Aceita um cafezinho? Com investimentos em inovação, Brasil tornou-se o principal fornecedor mundial de cafés diferenciados

Mariana Amorim Machado e Paulo Palma Beraldo

15/10/2017 - O Brasil, maior produtor de café do mundo, tem presenciado nos últimos anos um forte movimento em busca de produzir com cada vez mais qualidade. Produtores, cooperativas, consumidores e o mercado internacional têm identificado no País grande potencial. Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), é enfático ao dizer: “a demanda mundial por cafés gourmet está crescendo e o Brasil é o grande nome desse mercado".

Segundo ele, o País “evoluiu muito” nas técnicas de produção, colheita e pós-colheita nos últimos 15 anos e, por isso, se transformou no maior fornecedor de grãos de alta qualidade. “Grandes empresas como a norte-americana Starbucks e as italianas Illy Café e Lavazza, ícones do café em todo o mundo, compram mais de 50% de seus grãos de alta qualidade aqui”, afirma.

Na última década, a procura por café cresceu por volta de 2% ao ano, enquanto o mercado de cafés especiais avançou em patamares próximos de 15%, segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. De janeiro a setembro de 2017, o Brasil exportou 21,9 milhões de sacas de café - 3,4 milhões eram de qualidade diferenciada. O número representa 15,5% do volume total, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

O diretor geral do Cecafé, Marcos Matos, diz que o País apresenta todas as condições para atender a demanda crescente, mas alerta: “a participação nos mercados globais exigirá maiores investimentos em infraestrutura e relevantes reformas no âmbito jurídico, tributário e trabalhista”.

"Ações ao longo da cadeia produtiva voltadas à obtenção de maior qualidade têm estimulado a migração de cafeicultores tradicionais para esse novo mercado em que grãos são vendidos a preços mais elevados, resultando em maior renda para os produtores", Marcos Matos, do Cecafé.

Segundo o diretor técnico do Cecafé, Eduardo Heron, as exportações de cafés diferenciados em 2016 somaram 5,9 milhões de sacas - 17,4% do total embarcado no ano. "O Brasil é uma referência global em produção, além de ser o segundo maior consumidor da bebida, atrás dos EUA", afirma Heron.

Brasileiros consomem mais de 80 litros de café por ano. É a bebida mais consumida do País, atrás apenas da água. Foto: Mariana Machado

Lucas Tadeu Ferreira, gerente da Embrapa Café, concorda que o Brasil precisa continuar inovando para manter e até ampliar sua fatia de mercado. A produção mundial de café em 2016 foi de 150 milhões de sacas e o País produziu um terço disso.

Para aprimorar a produção brasileira, a Embrapa e o Consórcio Pesquisa Café, rede com 90 instituições ligadas ao setor, desenvolvem novas variedades de café, técnicas de plantio e de manejo de pragas e doenças. Também transferem aos produtores informações sobre gestão, colheita, pós-colheita e manejo sustentável. "O Consórcio é reconhecido internacionalmente como um modelo singular de pesquisa com um só produto", diz Lucas Ferreira. "Nos últimos 20 anos, foram desenvolvidos cerca de mil projetos já disponibilizados aos cafeicultores".

Para o mercado de cafés especiais, a exclusividade importa mais que a quantidade - assim como nos vinhos. O segmento também é bom para o bolso do produtor: uma saca de café normal vale em torno de R$ 500, enquanto a de cafés especiais pode valer quase o dobro. Nathan Herszkowicz, da Abic, explica que a porcentagem de grãos que atinge padrão de alta qualidade varia de produtor para produtor e depende de fatores como o clima e o tratamento dado à planta.

A Abic classifica os cafés brasileiros em três tipos: tradicional (de qualidade aceitável e preço acessível), superior (com atributos diferenciados e preço médio) e gourmet (cafés raros e exclusivos). “Em 2000, não havia nenhum café gourmet nas prateleiras. Hoje, temos 180 marcas nesse patamar”, explica.

De onde vem? Um grande diferencial na venda, em especial para estrangeiros, é a rastreabilidade. Uma das principais regiões produtoras de café no Brasil, o Cerrado Mineiro conseguiu o registro de denominação de origem da produção, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), em 2013.

Exclusividade vale mais do que quantidade no segmento de cafés especiais. Foto: Mariana Machado

Juliano Tarabal, da Federação dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro, diz que a denominação de origem traz vantagens na promoção do produto ao valorizar a história e a cultura locais, além de garantir exclusividade aos produtores da região. “É uma proteção para o consumidor, pois garante a procedência”, afirma.

Tarabal diz que o café da região, que abrange 55 cidades e 210 mil hectares, tem seus atributos ligados a fatores como solo, altitude, temperatura média anual e estações climáticas bem definidas. “É o que diferencia o produto. O mesmo ocorre com o presunto de Parma, da Itália, o vinho do Porto, de Portugal ou os espumantes de Champagne, na França”, compara a gerente de marketing da federação, Sônia Lopes.

Consumo de cafés especiais tem aumentado em todo o mundo. A taxa anual de crescimento é de 15%, segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Foto: Mariana Machado

Dos 4.500 produtores do Cerrado Mineiro, 850 são credenciados para produzir cafés especiais. No início de 2016, eram 330 produtores. Para conseguir a chancela, o cafeicultor deve cultivar a planta a pelo menos 800 metros de altitude, respeitar as leis ambientais e trabalhistas e produzir café com qualidade de pelo menos 80 pontos, com base na tabela da Associação Americana de Cafés Especiais (que vai de 0 a 100). Então, as sacas de café de alta qualidade recebem um selo com um QR Code, com dados da produção, informações, fotos e a história da produção.

José Marcos Magalhães, presidente da cooperativa Minasul, uma das principais de MG, diz que o café gourmet tem tido cada vez mais apelo no Brasil e no mundo. Há 10 anos, apenas 9% do café da cooperativa atendia esse mercado. Hoje, mais de 20% dos grãos têm essa qualidade. “Temos potencial para chegar a 30%”, diz o presidente da empresa que comercializa 1,2 milhão de sacas por ano.

Para incentivar seus seis mil cooperados, a Minasul faz um concurso anual de qualidade dos cafés há mais de 20 anos. “A cada ano o nosso padrão sobe”, afirma. A cooperativa tem produtores em 390 dos 853 municípios de MG e conta com uma equipe de avaliadores (q-graders, em inglês) para identificar as características dos lotes para buscar potenciais compradores no exterior. Além disso, faz eventos e participa de feiras no Brasil e no exterior para entrar em contato com clientes locais.

“Temos todos os tipos de cafés, então, caso um cliente queira rastreabilidade, pode comprar do mesmo produtor, da mesma origem”, afirma, dizendo que 130 mil sacas foram destinadas ao exterior no último ano.

Os 10 maiores países importadores de cafés diferenciados representam 81,4% dos embarques com diferenciação. Os Estados Unidos são o principal importador de cafés diferenciados produzidos no Brasil. Japão, Alemanha e Bélgica são outros importantes compradores. Foto: Paulo Palma Beraldo

No campo. O produtor Marcelo Montanari, de Patrocínio-MG, é um dos que reconhece os benefícios da rastreabilidade e da sustentabilidade. Em sua propriedade, ele produz cafés especiais que vão para Europa, Estados Unidos, Rússia, Austrália e Japão.

A ideia de produzir cafés de alta qualidade veio para fugir das oscilações da bolsa. Para isso, cumpriu as exigências e obteve a chancela da Federação do Cerrado Mineiro, que lhe dá o selo de denominação de origem. “Isso agrega valor ao produto e dá mais credibilidade”.

A produção de café alcançou 44,7 milhões de sacas de 60 kg na safra 2016/17, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Os principais estados produtores são Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia e Rondônia. Foto: Paulo Palma Beraldo

Montanari diz que a cooperativa ajuda porque, para pequenos e médios produtores, é difícil investir em maquinário pós-colheita, adequar o café para o mercado internacional e captar compradores para conhecer as propriedades. “Eles não compram só a qualidade do café, compram a história, as técnicas de produção, o respeito ao meio ambiente, o cuidado com o solo”, explica ele, que recebeu uma delegação russa em setembro.

Em seus 200 hectares de café, um de seus diferenciais é evitar ao máximo o uso de produtos químicos. Para melhorar a qualidade do solo, ele usa como adubo o mato que cresce entre as linhas de café. “Quando cortamos, cerca de três vezes por ano, ele se decompõe naturalmente e produz uma biomassa rica em nutrientes”, afirma.

Montanari ressalta que não corta todo o mato de uma vez para as pragas não atacarem o café. “Elas precisam de um refúgio para não haver desequilíbrio”. Com essa técnica, reduziu em 25% o uso de adubos químicos.

Brasil é o maior produtor mundial de cafés, à frente de Vietnã e Colômbia. Foto: Paulo Palma Beraldo

Outros benefícios do manejo são manter a cobertura do solo, protegendo de erosão, e aumentar a capacidade de retenção de água no solo. “Com isso, usamos 30% menos água na irrigação e gastamos menos com energia elétrica”. Sua produção já recebeu certificações e prêmios de sustentabilidade e gestão. Na safra passada, Montanari produziu 12 mil sacas de café e vendeu 80% para exportação.

A sustentabilidade também é palavra de ordem na produção de Tiago Alves, de Araxá-MG. Quando seus familiares começaram a produzir na região, na década de 1920, eles tiveram que desmatar para sobreviver. “Agora, já plantamos mais de 20 mil árvores nativas na fazenda. Vemos os animais e a natureza voltando. Então estamos devolvendo isso para a natureza”, diz.

Alves começou a investir em cafés de alta qualidade em 2015. Desde então, vê um mercado promissor. “Temos cada vez mais contatos com cafeterias e empresas do exterior. A procura é muito alta”, diz ele, que já vendeu para EUA, Europa, China e Canadá. Cerca de 80% de sua produção, plantada em 175 hectares, vai para o mercado externo.

“Eles têm confiança para comprar nosso café, podem conhecer a propriedade, ver a história da fazenda. Isso faz toda a diferença”, diz. Ele diz que ser cooperado facilita na compra de adubos e na venda dos cafés, além de propiciar um lugar onde é possível armazenar os grãos.

As exportações de cafés diferenciados corresponderam a 5,9 milhões de sacas no ano de 2016, representando 17,4% do total de café embarcado no ano. A receita atingiu US$ 1,17 bilhão - 21,7% do total gerado com a exportação, segundo o Cecafé. Foto: Paulo Palma Beraldo

Na xícara. A tradição brasileira de tomar um cafezinho está ficando cada dia mais refinada. Isso porque a xícara que já custou R$ 1 hoje pode chegar a R$ 20 se for de um café especial. O amante de café já está tão sofisticado quanto o de vinho, procurando sabores e aromas variados.

E ele não está somente em metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro. O barista Luiz Gustavo Costa Manso, dono de uma cafeteria em Brasília, explica que o gosto pelos cafés cresceu tanto que, para algumas pessoas, hoje em dia é quase um hobby. O empresário decidiu investir nos cafés especiais seguindo uma tradição da família. O pai já tinha uma padaria onde vendia alguns grãos mais refinados desde 2001. Então, quando notou um crescimento no setor, decidiu abrir o próprio negócio.

Brasil tem 3,5 mil cafeterias, segundo a Associação Brasileira Franchising (ABF). Foto: Mariana Machado

Desde 2010, Manso trabalha com os cafés especiais que compra direto de produtores em São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Para ele, esse contato direto com o produtor permite ter um produto de maior qualidade. “Visitamos os produtores para acompanhar o processo de colheita, conhecer a realidade e o trabalho de perto. É essencial que exista esse elo bem próximo”, diz.

Os cafés servidos pelo barista costumam ser de dois tipos: um grão de sabor achocolatado, ideal para cappuccinos e de sabor mais forte, e um grão com notas florais, que costuma ser mais fraco. “O café ideal não pode ser amargo, ele é doce. Se o café é amargo é porque o grão é de baixa qualidade ou não foi bem preparado”, explica Manso.

Luiz Gustavo Costa Manso, dono de uma cafeteria em Brasília, procura visitar os produtores sempre que possível. Foto: Mariana Machado

Ele acrescenta que não se deve jamais acrescentar açúcar ou adoçante no café e procura ensinar os clientes a não colocar. “A gente não deixa o açúcar na mesa. Se o cliente pede, claro que a gente leva, mas sempre sugerimos que a pessoa prove primeiro sem açúcar". Ele conta que na maioria das vezes as pessoas concordam que não é necessário.

É o próprio barista quem torra os grãos. Na frea torra, o grão descansa por 48 horas e só depois pode ser moído. “Cada tipo de café pede um preparo diferente. O que será feito em uma prensa francesa é torrado de um jeito, o café coado, de outro. Se você prepara em prensa um café torrado para coador, o resultado não será saboroso”, explica. Quando um cliente gosta de um café e quer levar um pacote, os funcionários mesmos moem o café de acordo com o modo de preparo pedido.

Cada tipo de café exige um preparo diferente. Foto: Mariana Machado

O empresário garante que vale a pena investir em cafés especiais e que os clientes têm se interessado cada vez mais. “O consumidor está mais antenado e exigente. Isso nos faz ir atrás de novidades”, afirma. Em relação às grandes marcas internacionais de cafés que crescem no país, Manso não se intimida. “Redes grandes não oferecem competição. Somos uma cafeteria especial, nosso trabalho é focado na qualidade máxima. É um mercado oposto ao das redes grandes”, compara.

Sobre os cafés em cápsulas, que ganham cada dia mais espaço nos mercados, Manso acredita que não são uma competição com as cafeterias, mas uma porta de entrada no universo dos cafés especiais.

“É assim que o consumidor passa a entender que os cafés não são todos iguais, que há diferença na doçura, acidez", exemplifica. Segundo ele, depois de um tempo nas cápsulas, os consumidores que vão se apaixonando passam a procurar outras opções. "Então, entram de vez no universo dos cafés especiais. Aí é outra descoberta: apaixonante e sem volta”, diz.

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