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Brasil: da saída do Mapa da Fome a modelo internacional No mundo, 815 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar - e a solução para parte do problema pode estar no Brasil

Paulo Beraldo e Ludimila Honorato

SÃO PAULO e ROMA - Seja pelas tecnologias adotadas no campo, pelos avanços da produtividade ou pelas políticas públicas na área de agricultura e alimentação, o Brasil está em alta e ganhou os olhos do mundo. Ao sair do Mapa da Fome, em 2014, o País conseguiu baixar em 84% o número de pessoas em situação de insegurança alimentar em 24 anos, o que chamou a atenção da comunidade internacional.

A redução fez com que menos de 5% dos habitantes sofressem com o problema, superando a fome como uma questão estrutural no País, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Agora, a missão é maior: ajudar outros países a resolver a insegurança alimentar, que afeta 815 milhões de pessoas diariamente.

O interesse externo cresce à medida que o Brasil se torna referência nas ações e discussões globais sobre erradicação da pobreza e redução da fome. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) sobre Segurança Alimentar, 6,9% dos brasileiros viviam em insegurança alimentar em 2004, número que caiu para 3,2% em 2013, ano da última pesquisa. Já a segurança alimentar em todo o País aumentou - passou de 65,1% para 77,4% nos mesmos anos.

Além disso, as tecnologias adotadas no campo chamam atenção por darem eficiência à produção, elevarem a renda dos agricultores e contribuirem com o desenvolvimento do agronegócio. O cenário é mais que favorável: o setor responde por um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) e quase metade das exportações do País.

Políticas públicas desenvolvidas em Brasília são referência mundial para a erradicação da fome. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Modelo internacional

O que o Brasil faz no campo e na política em relação à segurança alimentar e nutricional têm chamado a atenção de organismos como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Países da Ásia e da África, por exemplo, começaram a desenvolver ações semelhantes às brasileiras dentro de suas realidades.

Segundo Odilson Ribeiro, secretário de relações internacionais do Ministério da Agricultura, o aumento da produção no futuro virá da adoção de tecnologias. “Houve um incremento muito grande da produção brasileira e da participação no comércio internacional. Isso chamou a atenção”, avalia, lembrando que, em 30 anos, a produtividade da soja, principal commodity do País, aumentou 70%. A safra atual deve render 108 milhões de toneladas, uma das maiores da história.

“O grande interesse dos estrangeiros no agronegócio brasileiro é o contato com tecnologias que podem desenvolver a agricultura mundial, em especial na faixa tropical, onde estão os países pouco desenvolvidos”, afirma Ribeiro.

Aumento da produtividade no campo também pode ser útil para outros países com clima tropical. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Como inovações, o especialista cita técnicas de tratamento de solo, a fabricação de maquinário para produção em pequena escala, a incorporação de matéria orgânica com o plantio direto e a integração entre lavoura, pecuária e floresta (ILPF), já presente em mais de 12 milhões de hectares no País.

“Mesmo com as mudanças de governo, continua firme o interesse dos países em conhecer essas políticas e em busca de apoio na implantação dessas políticas nas suas regiões”, diz Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência Contra a Fome do World Food Programme. Como exemplo, ele cita o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado em 2003 no âmbito das iniciativas do Programa Fome Zero como forma de estimular a produção agrícola e familiar local.

Brasília foi escolhida para tornar-se um hub de cooperação internacional nas áreas de agricultura e segurança alimentar. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

“O programa apoia a manutenção de pequenos agricultores nas suas regiões para que eles não sejam obrigados a sair de lá em busca de emprego nos grandes centros”, explica Balaban. “O apoio é pequeno, mas suficiente para mantê-los produzindo.” A compra dos alimentos é destinada a hospitais e penitenciárias, por exemplo.

Os recursos aplicados nesse programa, porém, caíram nos últimos três anos. Em 2015, o governo destinou R$ 655,6 milhões ao PAA, passando para R$ 439,4 milhões em 2016 e um valor preliminar de R$ 362,3 milhões no ano passado.

A integração entre lavoura, pecuária e floresta é uma das técnicas brasileiras mais procuradas mundialmente. Ela está presente em mais de 12 milhões de hectares em todo o País e permite a conciliação da produção de carne, grãos e madeira na mesma área. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Segundo Patrícia Gentil, diretora do Departamento de Estruturação e Integração de Sistemas Públicos Agroalimentares da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social, a redução no orçamento deve-se ao “conjunto da situação social atual do governo”.

Porém, ela acredita que os programas têm potencial para continuar evoluindo. “A gente tem uma construção sólida, apesar das dificuldades do ponto de vista da crise, que é um problema mais amplo, os programas estão acontecendo. A nossa expectativa é que nada disso deixe de acontecer, pois tem demanda e interesse (internacional)”, afirma.

Outro projeto brasileiro referência no mundo é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “A melhor forma de alimentar [as crianças] é criando programas nas próprias escolas, porque estimula a criança a ir à escola, estimula a igualdade de gênero - porque tem países que impedem meninas de irem à escola, mas com alimentação permitem”, comenta Daniel Balaban, do World Food Programme. Além disso, na escola, os pequenos entram em contato com as demais crianças e veem a importância de se alimentar bem, levando para casa hábitos melhores.

Com ações assim, o Brasil começa a integrar o modelo de cooperação Sul-Sul, em que países em desenvolvimento do hemisfério sul compartilham soluções para problemas que têm em comum. Para o economista Leonardo Bichara Rocha, diretor do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) no Brasil, o País tem a responsabilidade de liderar o debate e o diálogo nessa cooperação.

“Temos de repassar as experiências exitosas para outros países, para agências do governo federal e traçar metas conjuntas de desenvolvimento rural com outras instituições multilaterais”, afirma.

Segundo Jeff Terry, líder global de responsabilidade social da Amway, multinacional do ramo de produtos para alimentação e saúde, essa cooperação fortalece os países. “Embora haja alta volatilidade em economias do Sul, o aumento da classe média continuará fortalecendo essas economias”, afirma. Segundo ele, portanto, as oportunidades socioeconômicas e parcerias entre países no Sul irão crescer no futuro.

Escritório da Organização das Nações Unidas em Brasília receberá estrutura do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola até o fim de 2018. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

As parcerias entre os setores público, privado e a sociedade civil também são vistas como exemplares. Para Terry, todos os setores precisam trazer seus conhecimentos para abordagens sistêmicas a fim de solucionar os problemas. “Um foco primário deve ser a construção de confiança entre os setores para que os recursos sejam utilizados por todos para alcançar objetivos mutuamente acordados para reduzir a fome e a desnutrição e melhorar a saúde”, diz.

Ele cita o trabalho desenvolvido pela Scaling Up Nutrition (SUN), que combina setor privado, sociedade civil, grandes doadores e governo para enfrentar os desafios relacionados à fome ao redor do mundo. “Não é um modelo perfeito, mas permite que os setores trabalhem juntos para alinhar metas e objetivos no nível nacional.

Criando laços

O interesse internacional pelo modelo brasileiro motivou o Fida, neste ano, a escolher Brasília como um dos três centros de cooperação na área de agricultura de pequena e média escala. A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em 1978, em Roma, para reduzir a pobreza no campo. As outras sedes são Adis Abeba, na Etiópia, e Pequim, na China.

Com a inauguração do novo escritório, o Brasil será o único país a ter duas unidades da organização - a primeira está em Salvador e coordena as operações em sete Estados do Nordeste, onde a agência atende 400 mil famílias. “Brasília será um hub internacional para a cooperação e gestão do conhecimento em agricultura familiar e desenvolvimento rural”, afirmou à reportagem, em Roma, o economista italiano Paolo Silvestri, coordenador da região da América Latina, Caribe e responsável pelo Brasil no Fida.

Segundo Silvestri, essa agência da ONU é única porque consegue chegar “aonde ninguém chega” com propostas economicamente produtivas e sustentáveis. “Um território desértico, sem futuro e esperança, pode, com as ações do Fida e com as forças locais, da sociedade civil, do Estado e das empresas, transformar a situação de pobreza em uma riqueza latente”, explica.

Paolo Silvestri, coordenador das regiões da América Latina e Caribe do Fida, em Roma. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

O economista diz que as regiões pobres têm muitas pessoas com disposição, mas sem recursos e ferramentas para ir além. “Quando você consegue desenvolver capacidades humanas e colocar recursos financeiros à disposição, o efeito multiplicador é impressionante.” Segundo o especialista, muitas regiões, como o Nordeste, região mais afetada pela pobreza no País, só precisam de um catalisador para gerar uma reação positiva. “E o Fida é esse catalisador”, afirma.

Segundo o norte-americano Ronald Hartman, líder das regiões do Sudeste Asiático e do Pacífico, o Fida é capaz de apoiar os 500 milhões de pequenos agricultores ao redor do mundo em ações como facilitação do acesso ao crédito, criação de organizações e obtenção de seguros agrícolas. “Muitas pessoas no campo não são organizadas em cooperativas ou associações. Juntas, elas conseguem ter uma voz mais forte e obter mais apoio localmente”, diz.

Sede do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, o Fida, agência criada pela Organização das Nações Unidas em 1978 em Roma para reduzir a pobreza rural. Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

Para Ashwani Muthoo, diretor de estratégias globais do Fida, o País é atrativo pela capacidade de produzir e exportar técnicas voltadas especificamente para a agricultura de pequena e média escala e pelas técnicas adaptadas às condições tropicais.

“Com o impacto crescente das mudanças climáticas e das necessidades de melhorar a eficiência da produção agrícola, as tecnologias brasileiras têm uma oportunidade de ouro para serem conhecidas e adotadas”, afirma Ashwani Muthoo, diretor de estratégias globais do Fida.

“Estar em Brasília é uma grande oportunidade e vai permitir ter um diálogo mais consistente e constante. O Brasil tem muitas lições a nos ensinar. Os espaços de cooperação estão mudando e os países emergentes querem colaborar e crescer juntos”, diz Ronald Hartman, líder das regiões do Sudeste Asiático e do Pacífico do Fida
“Abrir outro escritório no Brasil era um desejo crescente da instituição para aproximar a comunidade internacional da brasileira. A presença física em Brasília aumenta as oportunidades para iniciativas conjuntas e desenvolve ainda mais agenda da cooperação Sul-Sul”, aponta Ashwani Muthoo, diretor de estratégias globais do Fida
"O Brasil pode capitalizar esse protagonismo e ser um dos pioneiros em tecnologias de cooperação entre países em desenvolvimento. Muitos estão em busca de oportunidades que o País pode oferecer. Devemos usar o que é bom internamente e difundir as práticas para ajudar a resolver a insegurança alimentar", avalia José Maria Souza Jr, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco.
"O Brasil tem várias políticas públicas que deram certo e que fizeram com que o País fosse um exemplo a ser seguido”, diz Alan Bojanic, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura no Brasil.

O que falta?

Embora esteja criando uma visão positiva internacionalmente, o Brasil ainda tem alguns desafios internos. De acordo com o Malnutrition Mapping Project, conduzido pela Amway com a Global Alliance for Improved Nutrition, 5,6% das crianças brasileiras abaixo dos 5 anos não têm altura ideal para a idade – um dos primeiros sinais de desnutrição – e 7,1% estão acima do peso.

Embora ainda precise de ajuda para combater esse cenário, ele considera que o País pode colaborar internacionalmente. “O Brasil é um líder e precisa estar à mesa ao desenvolver estratégias e planos para eliminar a fome e a má nutrição ao redor do mundo”, afirma.

No Brasil, a Amway atua em escolas e comunidades do Norte e Nordeste com a campanha Power of 5 a fim de garantir que crianças e famílias estejam recebendo educação nutricional, avaliação regular de saúde, vitaminas e comida. “O desenvolvimento da primeira infância é a chave para combater tanto a fome quanto a má nutrição”, aponta Terry.

Quanto mais escura a cor, maior a taxa de crianças que nascem abaixo do peso. Fonte: Projeto de Mapeamento da Má Nutrição da Amway.

No sentido da gestão dos programas de combate à fome, como o PAA, Patrícia Gentil, do Ministério do Desenvolvimento Social, indica ser preciso buscar orçamento para aumentar a cobertura de atuação e enfrentar desafios como vazios assistenciais (falta de acesso à saúde, educação e saneamento, por exemplo). “Precisa levar políticas adaptadas para diferentes regiões”, diz.

Segundo Daniel Balaban, o acesso ao alimento saudável, geralmente mais caro, pode ser solucionado também com o incentivo aos produtores rurais. “Quanto mais gente no campo produzindo, mais barato ter acesso ao que nos faz bem.”

Balaban também ressalta que as políticas atuais precisam ser mantidas e aprimoradas. “A questão do combate à fome e à pobreza não pode ficar atrelada a políticas partidárias, porque isso impede que elas sejam perenes e continuem sendo desenvolvidas.”

Diante das incertezas política e econômica, ele se mantém confiante. “Não vejo mais que qualquer mudança de governo possa afetar políticas como essas, porque elas têm êxito e reconhecimento internacional”, afirma.

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