Loading

Inspirada no Brasil, África quer revolucionar agricultura com ciência e tecnologia Experiências que transformaram agricultura brasileira podem ser replicadas no continente; há 50 anos, País importava alimentos e hoje exporta para o mundo

Paulo Beraldo e Everton Sylvestre, para o De Olho no Campo

SÃO PAULO, 16 de junho de 2020 - Aquela tinha tudo para ser apenas mais uma palestra que Yemi Akinbamijo assistiria. Mas as palavras de Alysson Paolinelli, ex-ministro da Agricultura do Brasil e um dos fundadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), marcaram-no. Em evento nos Estados Unidos em 2017, Paolinelli contou a história de como o Brasil deixou de importar alimentos como feijão, leite, carne e arroz - nos anos 1970 - e se transformou em um dos maiores produtores e exportadores de comida do planeta.

Hoje, o País produz alimentos que seriam suficientes para sete vezes a sua população de 210 milhões de habitantes. A mudança foi possível graças ao desenvolvimento de tecnologias tropicais e à capacitação de profissionais. “Há 50 anos, o Brasil era um país deficiente na produção de alimentos, a região do Cerrado era praticamente deserta, mas o País começou a produzir uma geração de cientistas da agricultura e então veio esse tsunami de produtividade. Agora, é autossuficiente e ainda exporta”, afirma Yemi Akinbamijo, diretor do Fórum de Pesquisa Agropecuária na África (FARA), um órgão de pesquisa e inovação agrícola da Comissão da União Africana de Nações.

A palestra foi decisiva para Akinbamijo estabelecer pontes com o Brasil: falou pela primeira vez com o ex-ministro após o discurso e fez contatos com instituições e universidades brasileiras que poderiam cooperar com a África.

O continente de 54 países e 1,3 bilhão de habitantes tem como missão traduzir a disponibilidade de recursos humanos e naturais em mais produtividade. “Nós não precisamos de rifles, precisamos de um exército de pessoas capaz de transformar nossa agricultura”, explica ele, que tem doutorado em ciências da agricultura e do meio ambiente na Universidade de Wageningen, na Holanda. Estimativas recentes indicam que o continente gasta cerca de US$ 70 bilhões (R$ 350 bilhões) em importação de alimentos por ano. O valor supera todas as riquezas produzidas anualmente em um país como o Uruguai ou a Croácia.

Dois terços da população da África - cerca de 800 milhões de pessoas - vivem na zona rural e dependem da agricultura. Por isso, é estratégia de governos, instituições de pesquisa e de desenvolvimento locais e globais promover melhorias nas práticas agrícolas, elevar a produtividade e a renda das famílias.

Uso de tecnologia e ciência foi decisivo para Brasil aumentar produção de alimentos no Cerrado. Fotos: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Outras metas são reduzir as perdas, melhorar a gestão e capacitar os agricultores. Em 2013, na comemoração de seus 50 anos, a União Africana estabeleceu a Agenda 2063. As celebrações foram um marco entre os 50 anos em que a África se uniu pela descolonização, contra o apartheid e em função da independência política e as metas almejadas para o continente nas próximas cinco décadas.

A Agenda 2063 estabelece uma série de metas e etapas para que o continente esteja integrado, pacífico, impulsionado por seus próprios cidadãos e exercendo o papel de uma força dinâmica no mundo. A instituição liderada por Akinbamijo, o FARA, quer capacitar cerca de cinco mil pessoas nos próximos 10 anos e se inspirar nas práticas de agricultura tropical desenvolvidas no Brasil ao longo das décadas.

“Temos água, terra, energia e trabalho. E o Brasil tem o ingrediente que nós precisamos. É preciso aplicar ciência na nossa agricultura, construir as capacidades necessárias e passar por essa revolução que o Brasil viveu”, afirma Yemi Akinbamijo
Yemi Akinbamijo, diretor do Fórum de Pesquisa Agropecuária na África, o Fara. Foto: Arquivo Pessoal

Parcerias

O FARA está proporcionando recursos para financiar bolsas de estudos para africanos no Brasil e fez parcerias com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e o Instituto Agronômico de Campinas - duas referências na América Latina. A parceria recém-firmada com a UFV deve contar, em sua primeira fase, com aproximadamente 100 vagas para capacitar técnicos e pesquisadores em cursos de mestrado.

As aulas serão em inglês, com participação de brasileiros e intercambistas de outras partes do globo, o que reforça a internacionalização buscada pela universidade. Num primeiro momento virão estudantes da Nigéria, o país mais rico e populoso do continente, com 204 milhões de habitantes.

“Com a expertise dos nossos programas em agricultura, é muito importante ter ações que possam ajudar outros países”, afirma Vladimir Di Iorio, diretor de Relações Internacionais da instituição, lembrando que a UFV já recebia estudantes africanos em cursos de graduação, mestrado e doutorado.

Ao longo dos anos, foram 300 estudantes, de 20 países da África; a maior parte de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. A parceria com o FARA, com financiamento externo, alavancará esse número. O apoio e capacitação a jovens e mulheres também é destacado como fundamental para superar problemas como a insegurança alimentar no continente e é um objetivo da Agenda 2063.

Arte: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Solução brasileira

“Para todo problema africano, há uma solução brasileira”. A frase do professor queniano Calestous Juma, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade de Harvard, já teve mais eco no Brasil e na África, mas continua carregando uma verdade difícil de discordar: uma integração maior entre as regiões traria bons frutos para os dois lados.

Há aprimoramentos possíveis nas formas de se produzir, colher, embalar, processar, distribuir, comercializar, armazenar, promover os produtos, consumir e evitar desperdícios, por exemplo. As áreas onde é preciso ter melhorias envolvem ainda infraestrutura, transporte, serviços financeiros, informação e tecnologia. E a solução pode estar, novamente, ligada a Alysson Paolinelli, um dos pais da Embrapa.

O ex-ministro da Agricultura do Brasil Alysson Paolinelli é um dos responsáveis pela revolução ocorrida no Cerrado. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Paolinelli foi ministro da Agricultura de 1974 a 1979, teve grande importância na modernização da Embrapa e na ocupação econômica do Cerrado brasileiro. O agrônomo confirma o potencial do continente africano para uma transformação na agricultura.

"É uma questão de tempo: os recursos naturais existem, o Cerrado é fabuloso - tão bom ou melhor do que o nosso. Tem mais que o dobro da área do Cerrado brasileiro viável ao plantio", destaca Alysson Paolinelli.

Na visão do ex-ministro, a ação de organismos internacionais pode acelerar esse processo, especialmente se os recursos forem investidos de maneira eficaz. "Poderíamos fazer juntos um programa de inclusão social nas áreas e nos recursos naturais que eles têm. O Brasil fez isso e hoje é um país economicamente equilibrado", analisa. Paolinelli reconhece que há desafios, mas que eles podem ser minimizados com o empenho de recursos materiais, humanos e financeiros.

Técnicas e tecnologias desenvolvidas no Brasil podem ser adaptadas ao território de países africanos. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

"É possível o esforço de transferência de tecnologia tropical sustentável como a que o Brasil tem hoje", diz, ressaltando a importância da participação de empresários brasileiros que queiram ir implantar, com inserção da população local, seus projetos modelos e aplicar a tecnologia que existe aqui. "A Embrapa encontrou lá as condições de se transferir a tecnologia que ela gerou aqui".

O atual presidente da Embrapa, Celso Moretti, tem percepção similar à de Paolinelli. Para ele, tecnologias como diferentes cultivares de grãos, de pastagem e de frutas, além do melhoramento genético de bovinos, de aves e suínos, podem ser úteis na África. Ele também cita a experiência em softwares, aplicativos, máquinas e implementos agrícolas.

"Podemos atuar em políticas públicas globais para ajudar a dar segurança alimentar a vários países africanos e fomentar parcerias para estabelecer negócios. Dentro de cada produto agrícola brasileiro, existe tecnologia e muito conhecimento científico. É uma vantagem competitiva a ser melhor explorada nas missões internacionais e com envolvimento mais intenso do setor privado", diz Celso Moretti, presidente da Embrapa
Produção de alimentos no Brasil hoje é suficiente para alimentar 1,4 bilhão de pessoas. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Políticas públicas

Mas não é só em produtos ou tecnologias que o Brasil pode ajudar. O País é referência na área de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento rural e a redução da fome. Desde os anos 1990 e com maior ênfase nos anos 2000, o Brasil desenvolveu um programa de assistência e de segurança alimentar. O professor Walter Belik, do Núcleo de Economia Agrícola e Ambiental da Unicamp, é um dos maiores especialistas em segurança alimentar do País e explica que o programa de alimentação escolar criado no Brasil é referência mundial.

Na prática, há uma determinação de que pelo menos 30% das compras de alimentos por entidades como prefeituras e escolas sejam itens produzidos por agricultores familiares da região. Isso permite que crianças e jovens tenham acesso à comida fresca e saudável e que produtores locais tenham maior renda. Cerca de 50 milhões de crianças e jovens foram beneficiadas com o programa no Brasil.

“É talvez o maior programa de alimentação escolar do mundo, universal e gratuito”, diz Belik, integrante do painel de especialistas do Conselho Mundial de Segurança Alimentar das Nações Unidas. “Teve repercussão em toda a América Latina e na África”.

Acabar com a fome no mundo é um dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas. No detalhe, sede em Nova York. Foto: Paulo Beraldo/De Olho no Campo

Para Agnes Kalibata, presidente da Aliança para uma Revolução Verde na África (AGRA, na sigla em inglês), os exemplos brasileiros de compra direta de pequenos produtores servem de inspiração para diversos países africanos.

"Muitos de nós focamos no Brasil para entender como o País usa esses programas de alimentação escolar para alavancar a agricultura familiar", afirmou Kalibata ao De Olho no Campo em entrevista organizada pela Thomson Reuters Foundation. "É muito importante como essas medidas fornecem acesso a mercados para os produtores: é isso que eles mais precisam e o que mais faz falta".

Agnes Kalibata é cientista agrícola, ex-ministra da Agricultura de Ruanda e presidente da Aliança para uma Revolução Verde na África. Foto: AGRA/Reprodução

"O Brasil foi muito inteligente em estruturar programas assim. Cadeias mais curtas de produção serão extremamente importantes e o exemplo do Brasil definitivamente é uma daquelas coisas que, uma vez aplicadas, certamente funcionariam", afirmou a líder da organização apoiada pela Fundação Rockefeller e a Fundação Bill e Melinda Gates para fortalecer pequenos agricultores.

Lideranças

O engenheiro agrônomo José Graziano foi uma das lideranças que personificou o prestígio do Brasil na área de segurança alimentar ao ser eleito diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO. Graziano diz que as experiências brasileiras seguem como referência de cooperação sul-sul e cita, por exemplo, a adoção das técnicas usadas para a construção das cisternas no semiárido nordestino adaptadas para a África Subsaariana e América Central.

Graziano, que viajou para dezenas de países enquanto liderou a FAO de 2012 a 2019, ressalta que o programa de aquisição de alimentos sempre foi o cartão de visita da cooperação internacional brasileira.

José Graziano em visita a Dakar, capital do Senegal, na África Ocidental, em 2019. Agência da ONU trabalha para reduzir a fome e melhorar a alimentação ao redor do mundo. Foto: Eduardo Soteras/FAO

Ele defende que essas trocas sejam benéficas para os dois lados e que o interesse financeiro não seja o foco. "A cooperação internacional não pode ser reduzida a uma troca comercial. Se tiver que ser remunerada, (as nações africanas) recorrem aos países do norte, que financiam a prestação de assistência técnica".

"A expertise brasileira no âmbito da alimentação, nutrição e desenvolvimento rural pode ser cada vez mais protagonista nas transformações no continente africano", resume Daniel Balaban, diretor e representante do Centro de Excelência contra a Fome no Brasil (WFP).

Conforme lembra Paolinelli, o caminho das transformações já ocorreu uma vez aqui e pode ser repetido, agora em outro continente. Ele ressalta que já há vários exemplos de projetos muito bem estruturados na África, mas que o protagonismo deve ser dos africanos. "Eles têm gente muito preparada, formada nos Estados Unidos, em várias universidades e que já começam a dar indicação de que a África precisa ter um caminho mais definido. Acredito que esse é um bom princípio". Paolinelli considera realistas as metas e prazos estipulados na Agenda 2063. As sementes estão lançadas e a mudança requer empenho e tempo.

Created By
De Olho No Campo
Appreciate