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Empoderar: A escolha é da garota

Meninas e mulheres empoderadas / Luzitânia Silva

ESCREVER PARA RESISTIR

No ano em que Luzitânia Silva nasceu, em 1989, sua cidade também nascia. Presidente Tancredo Neves, que até então era um povoado pertencente ao município de Valença, estaria irremediavelmente ligado ao destino da menina. “Desde então é uma história de amor e ódio com essa cidade que tem minha idade”, reflete a servidora pública e escritora. O município pequeno e modesto guarda heranças históricas e falhas que Luzitânia, infelizmente, sentiu na pele.

“Desde jovem, eu via e vivenciava a violência doméstica. Na minha família, na minha vizinhança. Tudo está mudando aos poucos, mas aqui ainda existe resquício de coronelismo e machismo. São mulheres que se casam cedo demais, que engravidam cedo, maridos que não permitem que suas mulheres trabalhem”, ela detalha. Luzitânia precisava encontrar uma forma de se expressar quanto a isso. E a forma que encontrou foi escrevendo.

No entanto, até hoje, aos 31 anos, ela tem dificuldade de narrar sobre os acontecimentos que marcaram sua infância, ou sobre a agressão sofrida no meio da rua há dez anos. Logo vem a lembrança de um vestido rasgado, dos sapatos de salto alto carregados na mão (para correr mais rápido). Luzitânia ainda teme toda a violência que desviou sua trajetória rumo à luta. Com a voz baixa e embargada, ela evita apontar culpados. “Eu comecei a inventar histórias para que doesse menos a minha”, explica. Escrever trouxe alívio.

Ela logo percebeu que incentivar que outras mulheres e meninas escrevessem suas próprias histórias, por mais difícil que parecesse, era também uma forma de ajudá-las a superar seus traumas. Seu projeto contemplado pelo edital Ela Decide, realização pelo Fundo de População da ONU em parceria com o Fundo Elas, previa, entre rodas de conversa com adolescentes, uma oficina de escrita criativa. Ali, ela se recorda, um mundo de vozes se abriu.

“É preciso estar preparada. Às vezes é como uma ferida aberta. Vai cicatrizando aos poucos.”

Muitas meninas preferiram escrever, como ela mesma, histórias fictícias que lembravam suas próprias vidas. “A verdade é que é uma linha tênue entre realidade e ficção”, opina. Surgiram histórias de mulheres que se casaram aos 12 anos, de mulheres que sofreram várias formas de violências e ameaças, outras que estavam proibidas de ver o próprio filho. Tudo virou poesia e, se não desapareceu, começou de fato a doer menos.

Luzitânia tem orgulho do projeto e continua a trabalhar em defesa dos direitos das mulheres (e a escrever). “A gente percebeu a dificuldade das mulheres que sofrem tanto com suas mazelas, com a pobreza, de falar sobre isso. Com o projeto nós salvamos vidas”, celebra. Quanto às suas próprias histórias, aquelas que ela ainda precisa escrever, não sabe se conseguirá colocar no papel um dia. Mas está tudo bem, como afirma a suas alunas: “é preciso estar preparada. Às vezes é como uma ferida aberta. Vai cicatrizando aos poucos.”

Empoderar: A escolha é da garota

Local: Presidente Tancredo Neves

Pessoas beneficiadas diretamente pelo projeto:1.691 mulheres.

“Empoderar: A escolha é da Garota”, executado pelo coletivo, Meninas e Mulheres Empoderadas, desenvolveu ações de formação direcionada para adolescentes sobre o direito à saúde sexual e reprodutiva feminina. A metodologia adotada foi de oficinas em educação integral em sexualidade e escrita criativa, palestras e rodas de conversas, estimulando o empoderamento feminino. Estabeleceu e estreitou relacionamento com inúmeras organizações, inclusive instituições de ensino.

Fotos: Mila Souza / Redação: Fabiane Guimarães e Rachel Quintiliano / Coordenação Editorial: Rachel Quintiliano / Revisão de conteúdo e abordagem: Anna Cunha, Juliana Soares e Michele Dantas / Design Gráfico: Diego Soares

Esta história faz parte da publicação "Força Motriz: histórias e ações empreendidas por mulheres e para mulheres na Bahia", que mostra o resultado da parceria entre o Fundo de População das Nações Unidas e o Fundo Elas para apoiar projetos liderados por mulheres residentes no Estado da Bahia, que atuam promovendo ações de formação e informação em saúde sexual, reprodutiva e direitos. Para saber mais sobre o projeto e ler outras histórias, acesse brazil.unfpa.org/forcamotriz