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Jornalismo em tempos de Coronavírus As mudanças numa atividade que se tem que reinventar

A redação da TVI está diferente. As secretárias, outrora ocupadas pelos jornalistas, estão agora mais vazias. O número de trabalhadores naquele espaço foi reduzido para metade. O objetivo é garantir o distanciamento entre as pessoas. Os desinfetantes espalhados pelo espaço e os borrifadores agora disponíveis também são uma novidade. Teclados, microfones, ecrãs e ratos não escapam aos cuidados de higienização. São as contingências a que o jornalismo se tem que adaptar devido ao novo coronavírus.

Produzir conteúdo noticioso durante uma pandemia, pode ser difícil. Contar a verdade ou assustar as pessoas? “A linha é muito ténue”, diz Luís Varela de Almeida, jornalista da TVI. Considera, porém, que se deve dizer a verdade às pessoas, embora muitas vezes esteja a ser atenuada. “Sem dúvida que ser jornalista, numa altura destas, acarreta mais responsabilidade”.

André Freixo, jornalista do Diário de Coimbra, afirma ser necessário um esforço extra para ultrapassar a situação. O jornal tem, neste momento, uma redação reduzida em termos de jornalistas, mas André garante que “as equipas nos jornais também se unem para fazerem um melhor trabalho”. “Algumas das pessoas tiveram de ir para casa, de modo a cuidarem dos filhos menores de 12 anos que ficaram em casa sem aulas” é a razão que aponta para o seu local de trabalho estar agora com menos pessoas.

O foco mediático e o seu tratamento

Fotos da redação da TVI gentilmente cedidas por Luís Varela de Almeida

“O Jornal das 8 de hoje (23/3/2020) é totalmente sobre o coronavírus”, constata Luís.

Foto da redação da TVI gentilmente cedida por Luís Varela de Almeida

“O coronavírus está em 80% do nosso jornal”, verifica André Freixo.

Catarina Magalhães, diretora da Sapiens Digitalis, cujo “foco não é claramente noticioso” diz que a revista online, da qual é diretora, procura ser uma lufada de ar fresco: “tentamos dar uma abordagem diferente”.

O jornalismo tende a ser feito no local. No entanto, o perigo de contágio leva a adaptações. A informação passa a ser trabalhada de formas diferentes. No Diário de Coimbra, os trabalhos feitos fora da redação são reduzidos ao máximo. Por outro lado, a TVI aplicou um sistema rotativo. “Metade do pessoal vai estar em casa, outra metade vai estar a trabalhar na redação”. A Media Capital, proprietária da TVI, ativou um plano de contingência onde, para além das medidas já referidas, foram distribuídas máscaras e luvas aos jornalistas, para além da criação de uma sala de isolamento. A empresa contratou ainda um laboratório para os trabalhadores realizarem análises à Covid-19.

O regime de teletrabalho é difícil de aplicar no jornalismo, porque, tal como Luís refere, “o jornalismo não é feito em casa”. Ainda assim, há formas de trabalhar a partir de casa para fugir ao contágio. A TVI enviou alguns jornalistas para casa e atribuiu-lhes um país sobre o qual deviam preparar diretos feitos, via Skype, a partir de casa, abordando a problemática do coronavírus.

Fotos da redação da TVI gentilmente cedidas por Luís Varela de Almeida

André Freixo diz que “andamos todos a expor-nos, minimamente, como é óbvio”. Apesar do trabalho que realiza no campo, Luís Varela de Almeida não se sente em perigo. “Isso a mim não me preocupa”, mas ressalva que é necessário ter os cuidados recomendados pela Direção Geral de Saúde (DGS).

A desinformação é um problema em qualquer altura, no entanto, com o deflagrar desta pandemia, é ainda mais essencial lutar contra este problema. É necessário fazer a verificação de toda a informação, independentemente da sua proveniência, de modo a garantir a sua veracidade e a sua fiabilidade. O jornalista da TVI diz que essa devia ser uma prática adotada sempre, só que “numa altura de pandemia ela não pode falhar um milímetro” para evitar causar pânico. Filtrar a informação, verificar as fontes e não trocar o imediatismo pela confirmação são condutas recomendadas aos jornalistas. Um olhar autocrítico pode melhorar a qualidade das notícias. Nesse sentido, Catarina Magalhães diz que a revista que gere também procura “refletir sobre a cobertura mediática que está a ser feita”.

Os editores não arriscam no que toca a filtrar a informação. Luís Varela de Almeida revela que “houve um dia em que eu já sabia de duas mortes”, mas os editores não quiseram trabalhar aquela notícia, preferindo aguardar pela confirmação oficial da DGS.

A informação surge de todo o lado. As redes sociais espalham conteúdo de origem duvidosa pelas pessoas. Quando um jornalista é confrontado com algo fora do comum é recomendado que se questione. Foi o que fez Luís quando se deparou com imagens de golfinhos que, supostamente, nadavam nos canais de Veneza. A notícia dava conta do facto das águas de Veneza estarem agora mais limpas e era acompanhada da fotografia de um golfinho. A notícia é falsa . A própria National Geographics desmentiu a existência dos animais em Veneza. Luís também se deparou com estas imagens. Estava a montar uma peça com imagens das agências internacionais e das redes sociais. Na impossibilidade de verificar a veracidade das mesmas, não as usou. “Não vou pôr esta imagem no ar se não tenho a certeza”.

A decisão de Luís foi acertada, mas outros casos existiram em que as imagens divulgadas se revelaram falsas. A SIC dava conta de tumultos que, alegadamente, teriam acontecido em Londres. Os conflitos não só não aconteceram como as imagens remetiam para o ano de 2011. Posteriormente, a SIC admitiu o erro.

Os princípios a seguir

No momento de decidir que informação dar, surgem desafios éticos que levam ao questionamento sobre o que publicar ou emitir. André Freixo ainda não se deparou com nenhum problema desse foro. No entanto, considera que a identidade dos infetados é o tema mais sensível. “Se alguém que esteja infetado fale abertamente disso numa rede social, penso que noticiar isso ou citar essa pessoa será correto. Se assim não for, penso que é algo que não deve ser explorado”. Luís Varela de Almeida teve que ponderar sobre o conteúdo que usaria numa peça sobre um centro de rastreio no Lumiar. Segundo as recomendações para a utilização de máscara, é aconselhado o seu uso a pessoas que tenham contraído a Covid-19 ou a suspeitos. Junto ao centro de rastreio, onde apenas pessoas suspeitas de estarem infetadas podem realizar testes, o jornalista vê indivíduos que não estavam a usar máscara. Posto isto, resolveu questionar o responsável pelo espaço.

- Como é que é possível isto ser um centro de colheitas e etc. e… vocês têm máscaras para toda a gente? É que há pessoas que não estão a seguir as normas de segurança, há pessoas que chegam aqui sem máscara e pode haver um risco de contágio…

- Não, não, não… aliás, mais irresponsável é o senhor que está aqui a um metro de mim.

- Quer que eu me afaste?

A dúvida entre pôr ou não pôr aquele momento na peça surgiu. “Acrescenta alguma coisa à informação?”, foi a pergunta que fez a si mesmo. Acabou por não o usar.

O Sindicato dos Jornalistas (SJ), bem como o Conselho Deontológico deixaram uma série de recomendações para lidar com a situação de pandemia. Além disso, o sindicato denunciou casos em que os jornalistas estavam a ser impedidos de aceder a informação por falta de colaboração das entidades oficiais, sendo muitas vezes remetidos para conferências de imprensa. “O jornalismo faz-se com perguntas e não com comunicados em que apenas prevalece uma versão dos factos” diz o SJ, defensor “intransigente do seu direito de acesso à informação, em nome do direito dos cidadãos a serem informados com rigor e seriedade”.

O coronavírus trouxe adaptações que não passam só pelos microfones envolvidos em películas ou pelo cenário do entrevistado sentado no sofá com os livros atrás. Agora, nas conferências de imprensa diárias do Ministério da Saúde, em conjunto com a DGS, para atualizar o número de casos de Covid-19, só uma televisão pode estar presente. O jornalista correspondente a essa televisão é que faz uma única pergunta. Nesse momento, a informação é bloqueada, porque, como diz Luís, “há perguntas que têm que ser feitas e que, neste momento, não estão a ser feitas”. Os jornalistas dos órgãos de comunicação social que não estão presentes devem mandar a pergunta para a secretária da Ministra da Saúde que se encarregará de as fazer no momento da conferência. Posto isto, para além do número limitado de questões, verifica-se que há um conhecimento prévio das perguntas. A secretária da Ministra da Saúde mandou um email (ver imagens abaixo) à comunicação social que o comprova. “A diversidade e qualidade de informação é prejudicada”.

Email enviado pela secretária da Ministra da Saúde à comunicação social

O jornalismo não se pode limitar a dar notícias. Ele deve garantir a sua função de responsabilidade social, mas não deve ser insensível ao que se passa no mundo. O pivô que apresenta um noticiário tem uma ligação com o telespetador. Essa conexão deve ser fomentada. Rodrigo Guedes de Carvalho, Bento Rodrigues e José Alberto Carvalho protagonizaram fechos de telejornal considerados subjetivos, mas com uma mensagem de serviço público. “Somos todos parciais no que à luta contra este vírus diz respeito”, declara André Freixo. Luís Varela de Almeida reforça, “o jornalismo não se pode demitir da sua existência nesta altura”.

“Está a chegar ao fim mais um dia, foi mais um dia a nosso favor, menos um a favor do vírus.”

José Alberto Carvalho

“Permitam-me pedir que continuemos assim, serenos, mas a cumprir, porque isto vai piorar.”

Bento Rodrigues

“Esta não é daquelas que se resolve a pensar: isso só acontece aos outros.”

Rodrigo Guedes de Carvalho

Nesta altura, zelarmos por nós é zelarmos pelos outros. Fique em casa e respeite as normas. Aproveite para descobrir os encantos do seu jardim. Olhe a bela vista da sua varanda. Lembre-se dos dias em que disse que gostava de passar mais tempo com o seu filho e não podia. Quando se fartar das paredes de sua casa, lembre-se que está a cuidar dos outros.

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Francisco Martins
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