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Primeiro Congresso Internacional de Angolanística Novos caminhos para Angola no século XXI

Organização: Angola Research Network

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, 17/18 de outubro de 2019
MOMENTOS DO PRIMEIRO CONGRESSO INTERNACIONAL DE ANGOLANÍSTICA

O Primeiro Congresso Internacional de Angolanística reuniu-se na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, durante os dias 17 e 18 de outubro de 2019. Cerca de quatro dezenas de palestrantes trouxeram Angola à sede da memória escrita portuguesa.

Este primeiro convénio mundial de angolanistas foi convocado pela Angola Research Network, uma rede global de pesquisadores das realidades angolanas de qualquer campo científico. Destinou-se a consagrar uma disciplina académica, a Angolanística, que estuda todas as matérias pertinentes a Angola, sejam elas do domínio da história, da economia, da política, do folclore, da antropologia, da geografia, da sociologia, das ciências aplicadas, das religiões, das migrações e da diáspora angolana.

Abriu o congresso o Organizador, Filipe Santos, da Universidade Nova de Lisboa, vaticinando para a Angolanística um escopo bem mais vasto do que os habituais estudos agrupados por categorias nacionais: «Porque era necessário estabelecer laços permanentes de contacto entre aqueles que se têm dedicado, em todo o mundo, ao estudo de Angola, demos vida a esta rede de pesquisadores e a estes congressos que se propõem periódicos. O interesse por Angola é verdadeiramente global, mas até hoje os resultados dessas pesquisas achavam-se subsumidos nos Estudos Africanos em geral, ou quando muito nos da África Ocidental, por vezes nos Estudos Lusófonos. Os Estudos Angolanos podem e devem autonomizar-se e reunir os conhecedores de todos os aspetos da fascinante realidade angolana, que a individualizam, caracterizam e distinguem face às nações circunvizinhas».

«Começámos fora de Angola para comprovar que vêm de todo o mundo os pesquisadores, angolanos e não-angolanos, que se dedicam ao estudo da Angolanística, nas universidades e instituições de pesquisa europeias, das Américas e em especial do Brasil. O angolanista, oriundo de qualquer cultura ou país, passa hoje a incluir com orgulho a certidão de batismo desta disciplina nos seus perfis, nos temas e títulos dos seus livros e dos artigos científicos: “angolanista”, ou seja, cultor dos estudos angolanos».

Justin Pearce, da Universidade de Cambridge, partilhou algumas das suas experiências no terreno. Alberto Oliveira Pinto dissertou sobre a tipologia das fontes para a história angolana, e no dia seguinte exporia o plano de um trabalho em progresso sobre a rota das missões religiosas. Bastante pessoal foi o contributo de Jean-Michel Mabeko-Tali, sobre os silenciamentos a que foi obrigado na sala de aula de História, em Angola. Também obteve compreensível impacto o trabalho de Vasco Martins sobre o ressurgir da memória de Jonas Savimbi. E Jorge Arrimar usou do seu raro domínio das línguas africanas para trazer alguns exemplos dos mitos veiculados pelos contos e pela tradição oral.

O Congresso contou com um painel composto por professores da Escola Superior de Comunicação Social, de Lisboa, consagrado à cobertura pelos média das eleições em vários contextos africanos.

No campo cultural, Hugo Maia analisou a representação do espaço nos mapas antigos de Luanda, e Pedro Garcia Rosado apresentou um relevante estudo de caso. Carla Ferreira ocupou-se dos usos pedagógicos da literatura angolana.

No campo do direito e das relações internacionais o Congresso incluiu uma comunicação sobre a autoridade tradicional dos sobas, por José António Carochinho, e uma outra sobre a relação Índia-Angola, de Aurobindo Xavier. O recém-publicado livro de Domingos da Cruz sobre Racismo, o Machado afiado em Angola, apresentado por Adolfo Maria, suscitou inúmeras reações de interesse.

No dia seguinte escutaram-se os trabalhos de Eugénio Costa Almeida, que se interrogou sobre se Angola poderá ser considerada uma potência média – e em caso afirmativo qual o peso da sua influência sobre os seus vizinhos regionais – e de Rui Verde, da Universidade de Oxford, que mencionou a desberlinização para afirmar o caracter transfronteiriço das questões angolanas, irredutíveis às fronteiras fixadas em Berlim, devendo os angolanistas prestar maior atenção às matérias congolesas, zambianas, botsuanesas e namibianas. Observou ainda que o direito angolano continua muito dependente daquele que é produzido na ex-metrópole.

Um segundo painel literário foi dedicado a obras específicas da literatura angolana, como o contributo de Salvador Tito e a comunicação extracongresso de Bianca Cardoso Batista (do Brasil). No painel de Economia houve lugar para o estudo de Maria Luísa Pais e Pablo Lamorú Torres sobre a transição para o IVA em Angola, e o de David Renous sobre a indústria diamantífera.

Fecharam o congresso os painéis sobre economia e sobre violências e memórias, incluindo um trabalho de Irene dos Santos sobre os “retornados” a Angola, de Pedro David Gomes sobre o semba e de Wolfgang Stojetz sobre os veteranos de guerra no Huambo. O angolanista brasileiro Alex Magalhães comparou as situações dos musseques angolanos com as das favelas brasileiras, lembrando as políticas falhadas de realojamento levadas a cabo no Rio de Janeiro, Brasil.

Este resumo está longe de espelhar a abundância de comunicações, ricas de observações, de experiências no terreno, de advertências, de sugestões e de saudáveis provocações.

O Congresso captou a assistência de um público numeroso, curioso e recetivo, ultrapassando a centena de pessoas, que seguiu com grande atenção os temas tratados, tendo-se gerado por vezes alguns debates entre os oradores e o público.

Programa final do Primeiro Congresso

(no smartphone: amplie abrindo a imagem num novo separador, ou transferindo para a memória do aparelho)

Elenco de oradores do Primeiro Congresso

Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Sessão Plenária de Abertura

  • Alocução de boas vindas do Convenor Filipe Santos (U. Nova)
  • Justin Pearce (U. Cambridge): Novos caminhos para Angola, novos rumos para a pesquisa.
  • Alberto Oliveira Pinto (U. Lisboa): A História de Angola e as suas fontes: a arqueologia, a oralidade e a escrita.

Painel 1 – Problemáticas da História de Angola

  • Moderadores: Alberto Oliveira Pinto (U. Lisboa) e Jean-Michel Mabeko-Tali (U. Howard).
  • Jean-Michel Mabeko-Tali (U. Howard): Ciências sociais e política: algumas considerações sobre o ensino da História em Angola desde a Independência.
  • Margarida Paredes (ISCTE/Instituto Universitário de Lisboa): O movimento feminista em Angola, a nova travessia das mulheres angolanas inaugurada nas lutas de libertação anticolonial.
  • Vasco Martins (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra): Do medo à esperança: o ressurgir da memória de Jonas Savimbi em Angola.
  • Jorge Arrimar (Pesquisador independente): História, oralidade e ficção.

Painel 2 – Cobertura jornalística de atos eleitorais nos PALOP: o lugar de Angola nos media portugueses

  • Moderador: Maria José Mata (Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) - Escola Superior de Comunicação Social (ESCS).
  • Fernanda Bonacho (IPL-ESCS), Maria Inácia Rezola (IPL-ESCS), Anabela Lopes (IPL/ESCS), João Manuel Rocha (ISCTE-IUL/Jornalista; IPL-ESCS), Cláudia Silvestre (IPL-ESCS), Júlia Leitão de Barros (IPL-ESCS) e Fátima Lopes Cardoso (IPL-ESCS/Jornalista): (In)visibilidades: a cobertura noticiosa das eleições em Cabo Verde (2016), Angola (2017), São Tomé e Príncipe (2018) e Guiné-Bissau (2019).
  • Anabela Lopes (IPL-ESCS), Cláudia Silvestre (IPL-ESCS), Jorge Trindade (IPL-ESCS) e Maria José Mata (IPL- ESCS): Transições: o olhar dos jornais sobre os resultados das eleições gerais angolanas (2017) e das presidenciais brasileiras (2018).
  • Fátima Lopes Cardoso (IPL-ESCS/Jornalista) e Maria José Mata (IPL-ESCS): Olhares: como as imagens contam a vitória.

Painel 3 – Direito, política e relações internacionais

  • Moderador: Rui Santos Verde (U. Oxford).
  • José António Carochinho (U. Lusíada/U. Lusófona de Lisboa): O poder tradicional em Angola: atitudes dos angolanos face aos sobas.
  • Aurobindo Xavier (Sociedade Lusófona de Goa): Situação atual e perspetivas das relações Índia/Angola.

Painel 4 – Linguagens e literaturas

  • Moderador: Filipe Santos (U. Nova).
  • Mbyavanga Emília Bundo (U. Agostinho Neto/U. Minho): Os provérbios, as culturas e as cores: um olhar ao contexto angolano.
  • Carla Ferreira (Faculdade de Letras, U. Lisboa): Literatura angolana: educação para os valores na aula de Português.
  • Liliana Inverno (Universidade de Coimbra/CELGA-ILTEC): Situação linguística em Angola: desafios de política e planeamento linguísticos para um futuro multilingue.
  • Pedro Garcia Rosado (escritor): O general Mapache e o hacker Maxim Djalma.
  • Hugo Maia (UTokyo): Representações do espaço africano: dos reinos africanos às representações de Luanda (Angola).
  • Lançamento do livro de Domingos da Cruz, Racismo. O machado afiado em Angola. Apresentação Adolfo Maria (Debate Africano/RTP).
Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Segunda Sessão Plenária

  • Eugénio da Costa Almeida (ISCTE/IUL/Instituto Universitário de Lisboa): Angola nos caminhos do centro-globalismo africano.
  • Rui Santos Verde (U. Oxford): Desberlinização da investigação e descolonização do ensino do direito.
  • Alberto Oliveira Pinto (U. Lisboa): Para uma história da rota das missões religiosas em Angola.

Painel 5 – Expressões literárias da angolanidade

  • Moderador: Alberto Oliveira Pinto (U. Lisboa).
  • Benaouda Lebdai (U. Le Mans): Pepetela’s visions of Mayombe Forest: fiction and reality.
  • Noemi Alfieri (U. Nova de Lisboa): Deolinda Rodrigues entre escrita da história e escrita biográfica. Receção de uma heroína angolana.
  • Salvador Tito (U. Agostinho Neto, Luanda): Da negritude à realidade do negro nos poemas de Agostinho Neto e Geraldo Bessa Victor.
  • Bianca Cardoso Batista (UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul): Literatura e ética em ‘Se o passado não tivesse asas’ (enviou comunicação).

Painel 6 – Economias e estratégias

  • Moderador: Eliseu Gonçalves (U. Lisboa/advogado).
  • David Renous (Pesquisador independente): L’Angola, 4.ème producteur mondial de diamants. Histoire d’une industrie devant ses nouveaux défis géostratégiques.
  • Ana Duarte (Instituto Superior Politécnico Lusíada de Benguela): Fazer do corredor do Lobito um instrumento de desenvolvimento.
  • Luísa Pais (Instituto Superior Politécnico Lusíada de Benguela): A Tributação do Consumo em Angola e a Transição para o IVA – Uma Abordagem Comparativa (em coautoria com Pablo Torres).
  • Eliseu Gonçalves (U. Lisboa/advogado): As originalidades e disfuncionalidades do Fundo Soberano de Angola.

Painel 7 – Construções, violências e memórias

  • Moderador: Filipe Santos (U. Nova).
  • Irène dos Santos (CNRS, Centre national de la recherche scientifique, Unité de recherche Migrations et société – URMIS): Identidades equivocadas? O "retorno" de descendentes de ex-colonos a Angola.
  • Pedro Gomes (Instituto Ciências Sociais, U. Lisboa): Tradição, modernidade e espacialidade na história do semba – (re)configurações da diferença (racial e de classe) na Luanda colonial.
  • Wolfgang Stojetz (International Security and Development Center, Humboldt Universität, Berlin): War veterans in Huambo.
  • Domingos da Cruz (Pesquisador independente): Racismo. O machado afiado em Angola.

Sessão de Encerramento

  • Alex Magalhães (Universidade Federal do Rio de Janeiro): Já temos as leis, só nos falta ter direitos! Um olhar contrastante a respeito das lutas das classes populares pelo direito à cidade nas favelas do Brasil e nos musseques de Angola.
  • Marília Favinha (U. Évora): Reflexões em torno dos contributos e do papel de Portugal na Educação em Angola – o caso do Mestrado em Pedagogia e Educação da Universidade de Évora.

• Alocuções de agradecimento: Rui Santos Verde (U. Oxford) & Filipe Santos (U. Nova).

MANIFESTO DO CONGRESSO

Para todas as questões, por favor contacte o convenor do congresso: Filipe Santos, Universidade Nova de Lisboa, Portugal (filipesantos @ fcsh.unl.pt).

https://www.angolaresearchnetwork.org/

https://plataforma9.com/investigacao/rede-de-investigacao-cientifica-sobre-angola-angola-research-network.htm

Membros da Angola Research Network
  • Abel Djassi Amado, Simmons University
  • Alex Magalhães, Universidade de Coimbra
  • Ana Rita Amaral, University of Free State
  • Ana Stela Cunha, Universidade Nova de Lisboa
  • Andreia J. O. Silva, Université Jean Monnet (Saint-Étienne)/Université de Lyon, CELEC e Universidade do Porto, ILCML
  • Anne Pitcher, University of Michigan
  • Bogumil Koss, Université Laval
  • Bruno Sotto Mayor, Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • Carmen Monereo, Universidade Nova de Lisboa
  • Carolina Nve Diaz San Francisco, Boston University
  • Cheryl Schmitz, New York University
  • Claúdia Fernandes, Universidade Óscar Ribas
  • Cláudia Gastrow, University of Johannesburg
  • Cláudio Fortuna, Universidade Católica de Angola
  • Congo Research Network
  • Crislayne Alfagali, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
  • D. Vasconcelos, produtora
  • Daniel Mulé, Oxfam
  • Daniella Mak, University of Pennsylvania
  • Djellal Edine Semaane, Université Mohamed Lamine Dabaghine
  • Domingos da Cruz, jornalista e investigador independente
  • Dorothee Boulanger, University of Oxford
  • Douglas Wheeler, University of New Hampshire
  • Edgar Teles, Universidade Nova de Lisboa
  • Eduardo Sassa, Universidade Católica de Angola
  • Elaine Ribeiro, Universidade Federal de Alfenas
  • Elisa Scaraggi, Universidade de Lisboa
  • Eliseu Gonçalves, Universidade de Lisboa
  • Emiliano Jamba António João, Fraternidade Teológica Latino Americana, Campinas
  • Estevam Thompson, York University
  • Filipe Calvão, Graduate Institute Génève
  • Francisco Ewerton dos Santos, Universidade Federal do Pará
  • F. Ntungila-Nkama, Université de Kinshasha
  • Fernando Torres, advogado, pesquisador independente
  • Filip Deboeck, Katholieke Universiteit Leuven
  • Filipe Santos (Coordenador da Rede / Congress Convenor), Universidade Nova de Lisboa
  • Fred Bridgland, escritor e jornalista, pesquisador independente
  • Gregory Mthembu-Salter, Political Economy and Conflict Analysis (PECA) Advisor
  • Gilson Lázaro, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa
  • Hilarino da Luz, Universidade Nova de Lisboa
  • Iracema Dulley, Universidade Federal de São Carlos
  • Ivan Sicca Gonçalves, Universidade Estadual de Campinas
  • Jeremias Malheiro, Universidade Mandume Ya Ndemufayo
  • Jerry Kalonji, University of Lubumbashi
  • José Luís Domingos, Universidade Católica de Angola
  • José Milhazes, escritor, jornalista, pesquisador independente
  • Justin Pearce, Cambridge University
  • Karen Ferreira-Meyers, University of Swaziland
  • Laura Steil, School for International Training
  • Lazlo Passemiers, University of the Free State
  • Liliana Inverno, Universidade de Coimbra
  • Luciana Gomes da Costa, advogada, pesquisadora independente
  • Luísa Tui, Universidade Federal de São Carlos
  • Marçal Paredes, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
  • Márcia Gonçalves, Universidade Católica de Angola
  • Marina de Mello e Souza, Universidade de São Paulo
  • Michelle Medrado, University of California, Los Angeles
  • Miguel Dias Verde, Vertgreen Global Consulting
  • Nelson Domingos António, Universidade Agostinho Neto
  • Nelson Pestana, Universidade Católica de Angola
  • Noemi Alfieri, Universidade Nova de Lisboa
  • Paulo Inglês, German Research Foundation
  • Paulo Müller, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  • Paulo Zua (Coordenador Executivo / Executive Coordinator), MakaAngola
  • Peter Vale, University of Johannesburg
  • Rabiu Iyanda, Osun State University
  • Rafael Coca, Universidade Estadual de Campinas
  • Reuben Loffman, Queen Mary University of London
  • Rogéria Cristina, Universidade do Estado de Minas Gerais
  • Rui Verde (Fundador e Coordenador / Founder and Coordinator), University of Oxford
  • Ruy Blanes, Universidade de Coimbra
  • Salvador Tito, Universidade da Beira Interior
  • Santiago Ripoll, Institute of Development Studies
  • Stepanhie Wolters, Institute for Security Studies
  • Tânia Macedo, Universidade de São Paulo
  • Tomás Tassinari, Universidade de São Paulo
  • Walter Bruyere-Ostells, Institut d'Études Politiques d'Aix-en-Provence
  • William Martin James III, Henderson State University

https://tinyurl.com/angolarn

https://tinyurl.com/angolarn-en

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Biblioteca Nacional de Portugal