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Caravana Lesbi Saúde

Coletivo de Lésbicas e Mulheres Bissexuais da Bahia (LESBIBAHIA)/ Patrícia Santana

O COMEÇO DA REVOLUÇÃO

Aos 37 anos, depois de vários relacionamentos com mulheres, a comunicadora e ativista baiana Patrícia Santana ouviu de uma tia a revelação de que sua mãe “sempre soube que ela era sapatona”. “Então por que vocês não me avisaram?”, respondeu Patrícia, rindo. Nascida e criada na periferia de Salvador, em uma família conservadora, a descoberta de sua sexualidade não foi um caminho fácil e aberto. “Eu tentei seguir minha vida tentando me encaixar na sociedade, cheguei a ficar noiva de um homem. Quando me assumi lésbica, na faculdade, minha mãe tentou de tudo, do padre à mãe de santo. Eu demorei a perceber que não precisava de nenhum tratamento espiritual para me curar”, revela.

Embora fale com bom humor desse período de sua história, Patrícia sabe que a vida das pessoas LGBTI, especialmente na periferia, pode ser dolorosa e difícil. Ela entende a multiplicidade de sua solidão. Não apenas a solidão de ser mulher e lésbica, mas também de ser mulher, lésbica e negra. Essa compreensão fez com que perdoasse sua família, inclusive seus pais, por todos os percalços. “Famílias negras já sofrem com a pobreza, o racismo e a perseguição para além da sexualidade. Existem tantas outras violências que essa família preta da periferia só quer que os seus não passem por mais nada. O que minha família não quer é que eu sofra o que eu sofro”, explica.

É para lutar contra o sofrimento diário que Patrícia Santana ingressou em movimentos sociais. Consciente de que o preconceito vivido na pele todos os dias também afeta a saúde sexual e reprodutiva das mulheres lésbicas, ela viu no edital Ela Decide, uma chance de propor a mudança ou, como ela define, “fazer a revolução”. Desenhado em parceria com o coletivo LesbiBahia, seu projeto, a Caravana Lesbi Saúde, foi concebido para fornecer informação sobre saúde sexual e reprodutiva a seis municípios da Bahia.

Mais do que isso, a caravana era a oportunidade de levar a locais isolados notícias de que era possível existir de forma saudável e segura.

Com certeza aprendemos muito mais do que fomos ensinar.”

Em todos os lugares pelos quais passou, Patrícia e a equipe se depararam com histórias que tornaram o projeto ainda mais necessário. Ouviu uma mulher que perdeu a companheira por câncer do colo do útero, em sua opinião por negligência e preconceito médicos, ouviu mulheres que não podiam registrar os próprios filhos. “Nossa vida e nossa saúde não são prioridade. Enquanto isso estamos morrendo”, resume, com assombro.

Patrícia tirou da caravana outra importante lição: a de que, quando se trata de periferia, é preciso saber ouvir. “Muita gente visita esses locais para fazer rodas de conversa e não sabe falar com a periferia. Como você vai levar material escrito para um quilombo, por exemplo, se metade das pessoas nem sabe ler?”, questiona. “O que aprendemos com a caravana é que é preciso falar e ouvir, precisamos sim levar informação, mas é possível educar até debaixo de um pé de árvore. Com certeza aprendemos muito mais do que fomos ensinar.”

Com um total de 101 pessoas alcançadas, Patrícia, cheia de energia, gostaria de ter ido mais longe. “Eu fico pensando que queria ter feito a revolução”, suspira. Por onde a caravana passou, no entanto, já surgiram grupos repensando uma continuidade, outras formas de discutir a saúde das pessoas LGBTI. Como sementes que começam a germinar. Ela permite se orgulhar quando pensa nisso.

“Vai ver essa já é a revolução, né?”, acaba concluindo.

Projeto: Caravana Lesbi Saúde

Local: Salvador

Pessoas beneficiadas diretamente pelo projeto:90 mulheres e 11 homens.

Por meio de oficinas e rodas de diálogo, o Coletivo de Lésbicas e Mulheres Bissexuais da Bahia (LESBIBAHIA) promoveu ações em quatro municípios da Bahia: Santo Amaro, Lauro de Freitas, Itabuna e Rio Real e construiu coletivamente materiais informativos sobre prevenção a infecções sexualmente transmissíveis e sobre direitos reprodutivos de Lésbicas e Bissexuais.

Fotos: Carol Garcia / Redação: Fabiane Guimarães e Rachel Quintiliano / Coordenação Editorial: Rachel Quintiliano / Revisão de conteúdo e abordagem: Anna Cunha, Juliana Soares e Michele Dantas / Design Gráfico: Diego Soares

Esta história faz parte da publicação "Força Motriz: histórias e ações empreendidas por mulheres e para mulheres na Bahia", que mostra o resultado da parceria entre o Fundo de População das Nações Unidas e o Fundo Elas para apoiar projetos liderados por mulheres residentes no Estado da Bahia, que atuam promovendo ações de formação e informação em saúde sexual, reprodutiva e direitos. Para saber mais sobre o projeto e ler outras histórias, acesse brazil.unfpa.org/forcamotriz