Um personagem em diferentes palcos

O século XVI foi marcado por grandes conquistas e produções que mudaram e continuam mudando a visão da sociedade sobre si mesma. No campo intelectual, três grandes obras clássicas foram criadas. Maquiavel escreveu O Príncipe, Shakespeare produziu Hamlet e Luiz Vaz de Camões, Os Lusíadas. Os três não só apresentaram para a população italiana, inglesa e portuguesa um reflexo de características sociais e econômicas do período, como continuam produzindo sentido em sociedades que estão se consolidando quase cinco séculos depois. No campo político, Henrique VIII rompeu com Roma e mudou toda uma estrutura político-religiosa vigente, declarando-se chefe da Igreja. No Brasil, depois do insucesso das capitanias hereditárias, foi criado o primeiro Governo-Geral. O período de transformações possibilitou a criação de novos cargos administrativos que iriam influenciar o modelo de política atual.

E por que este século foi importante para nós? Os Cavalos Crioulos chegaram no Brasil no período em questão. Carlos Cabeza foi o conquistador responsável pela possibilidade de crescimento da raça nos dias de hoje. O espanhol trouxe os primeiros animais da raça para terras brasileiras com sua comitiva, logo após o descobrimento do país em 1500. Os mais de 300 anos de seleção natural contribuíram para a resistência da raça e evolução de características que possibilitaram a sua sobrevivência nos mais diferentes ambientes. Características que foram motivadores para a criação de obras das mais diversas áreas. Podemos afirmar que o Cavalo Crioulo não é apenas um animal central na movimentação do agronegócio. Ele é a razão para muitos escritores, fotógrafos e artistas usarem o fruto da sua imaginação para grandes criações.

Obras para lembrar

Personagens em histórias, contos e fábulas, a raça pode ser encontrada além das daily news. Seria injusto elencar as melhores produções do segmento, mas comecemos por algumas que merecem destaque. Um panorama do maior evento promovido pela raça pode ser encontrado em Freio de Ouro, uma história a Cavalo (2006) de Renato Dalto. O autor que desde a década de 90 vive a “universidade viva do cavalo” fala com veemência sobre o assunto. “O que move a gente, mais do que a paixão por uma raça, é a paixão pelo cavalo, um símbolo de liberdade, ímpeto, força e sensibilidade. O cavalo é que faz a linguagem e não o contrário”. Uma combinação histórica e técnica afirma que “equitação não é uma mera coleção de eventos, regras e observações”. Essa leitura pode ser feita em Equitação Gaúcha, primeiros escritos (2008), de Bayard Bretanha Jacques, um livro que além da presença de um conteúdo relevante, apresenta uma estrutura que nos motiva a prosseguir na leitura. Na televisão não poderia ser diferente. Jayme Monjardim usou mais de cinco mil cavalos e pelo menos 400 deles concentrados em apenas uma cena de O Tempo e o Vento (2013). O longa-metragem conta a história da tradição de uma família que estava nos alicerces do Rio Grande do Sul campeiro. Além de Bibiana e capitão Rodrigo, o cavalo Crioulo foi personagem destaque nas gravações. Segundo o diretor, um dos motivos que fizeram a raça ser escolhida foi a funcionalidade e docilidade dos animais. Crônicas que abordam a linguagem do cotidiano de criadores apaixonados pelo meio rural são descritas em Campereando (2014), de Tunico Fagundes. Para quem procura esclarecimentos gerais sobre criação, a reedição de O Cavalo Crioulo – Evolução no Tempo (2014), de Dirceu dos Santos Pons, é um manual ideal com instruções de um criador visionário para novos criadores. Dez Momentos, outros caminhos, novos destinos (2015) de Ana Spars, foi uma das conquistas da raça fora do país. Uma literatura do “cavalo das Américas” que inspirou escritores na construção de narrativas.

Projetos que estão por vir

Outro projeto que tem previsão de lançamento ainda em 2017 é Cavalo Crioulo - Elemento definidor da cultura do Rio Grande do Sul. Autora de Cavalo Crioulo - O Símbolo do Rio Grande do Sul com edições em 2007, 2011 e 2014, Ana Teixeira foi responsável pela produção das imagens que ilustram o livro. Seu trabalho na área começou a ser desenvolvido em conjunto com o trabalho jornalístico. Ana começou a pesquisar sobre o tema em eventos como fotógrafa ao longo da sua carreira jornalística. Além do contato direto com a vivência em atividades da raça, Ana foi editora das revistas Cavalos – a Horse Line e Viver no Campo. Esses trabalhos contribuíram para a elaboração das fotos que integram o projeto. “Fotografei o Freio de Ouro e algumas Cabanhas que considerei importantes e obras do escultor Caé Braga com o Cavalo Crioulo como tema”, afirma Ana Lucia. A curiosidade que atesta a qualidade do material que vem por aí: os responsáveis pela criação de conteúdo escrito não tinham o mesmo histórico de familiaridade com a raça. O processo de produção dos textos para o livro foi se definindo em uma sequência de descobertas. Para a equipe da BG Solução de Conteúdo e Via Impressa, o tema era inédito até então. “Tivemos que mergulhar fundo na pesquisa antes de consolidar o roteiro definitivo. No início do trabalho, ainda não tínhamos ideia da riqueza histórica que acompanhava esses cavalos e tivemos que fazer uma imersão em séculos na antiguidade para descrever a trajetória do que é a raça Crioula na atualidade. À medida em que nos aprofundamos na história e na saga dessa raça fantástica de cavalos, surgiam novos fatos que foram sendo incorporados à pauta original. O trabalho de pesquisa revelou-se apaixonante e ganhou contornos mais identificáveis a partir dos primeiros animais trazidos por Colombo ao continente americano”, afirma Luiz Barata, um dos responsáveis pelo texto do livro. A empatia pela produção foi o diferencial desse processo. As peculiaridades da temática e da história foram seduzindo os escritores ao longo dos dias de campo em busca de material. O trabalho da equipe carioca contou com uma pesquisa completa sobre os costumes e o comportamento do gaúcho, além de entrevistas sobre a realidade atual da criação dos animais. “Em determinado momento a história do cavalo crioulo e do gaúcho entram em fusão com um importante trecho da história colonial do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai”, completa Luiz Barata.

O que nos motiva nos movimenta

A paixão nos move e transforma. A tradição e a preservação da história fazem parte desta paixão. O universo do criador é único e íntimo e de alguma forma todas as obras que foram produzidas até hoje tentam fazer um resgate desse sentimento. De acordo com Barata, em o Cavalo Crioulo - Elemento definidor da cultura do Rio Grande do Sul, “o que mais impactou nosso trabalho de contar a história do cavalo crioulo foi descobrir essa paixão tão intensa em torno da raça e sua estreita relação com o comportamento e o costume do povo gaúcho. Foi admirável seguir os passos dos antepassados desses animais desde sua participação nas batalhas do continente europeu, até serem abandonados pelos espanhóis e portugueses por aqui quando decidiram voltar à Europa. O livro trata em boa parte de uma simbiose entre a história dessa raça de cavalo com os costumes de um povo, o que não encontramos em nenhuma outra região do país, pelo menos com igual intensidade”. O ambiente em que o cavalo nasce, é criado e se desenvolve determina os campeões que conhecemos e estão por vir. A atenção que é dedicada pelo criador fortalece a relação entre todos que estão nesse meio. O Cavalo Crioulo é cuidado com a sabedoria de quem a cada dia valoriza a raça como um ideal de vida. Sentimentos nobres como estes são fatores que inspiram as produções de grandes obras. O Cavalo Crioulo une as pessoas em uma leitura com infinitas possibilidades de interpretação, mas com um denominador comum: uma paixão que leva à dedicação.

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