De quem é a escola? Ocupantes de escola exigem melhorias na educação e criticam as propostas do Governo

De quem é a escola?” Este foi o questionamento de Ana Júlia, estudante do ensino médio, ao falar sobre a ocupação estudantil na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba. Durante o discurso, que viralizou na internet, a adolescente de 16 anos convidou os críticos do movimento a visitarem uma escola ocupada. Inspirado neste convite, eu acompanhei durante um mês a rotina do Colégio Pedro II do Engenho Novo, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ocupado desde o dia 24 de outubro de 2016.

O vizinho me perguntou: De onde você está vindo?

E eu respondi: Estou chegando da ocupação”, contou João Luiz Vieira ou simplesmente Bolinha, como é conhecido pelos amigos no colégio. O estudante de 18 anos lembrou que a reação do vizinho não foi das melhores.

Ele fez uma cara debochada e saiu andando sem dizer mais uma palavra...”

Bolinha falou da breve conversa com o vizinho numa noite fria de domingo. Antes de se preparar para dormir, ele também recordou outros fatos que aconteceram durante a ocupação. Uma ocupação que já havia começado há um mês...

Um mês antes…

O dia no Pedro II estava agitado. O colégio se preparava para receber a visita de Fábio Assunção. O ator prometeu ir à unidade para conversar com os alunos e conhecer o movimento. Os ocupantes que estavam com a responsabilidade de fazer a refeição do dia escreveram a sigla OcupEN (Ocupação Engenho Novo) em cima do empadão servido no almoço. Quando Fábio apareceu no portão da escola, a alegria e curiosidade estavam estampadas no rosto dos alunos. Ele conversou comigo antes de conhecer a estrutura do local.

São várias coisas que estão sendo escritas e faladas. Eu vim para ver com os meus olhos. Eu vim para abrir esse diálogo e também para motivar.”

Bolinha preparou o celular para começar a gravar um live (vídeo em tempo real) para a página do movimento no Facebook. Sorridente e cheio de iniciativa, o estudante apresentou a escola para o ator, ao mesmo tempo em que registrava e postava o encontro na internet.

Na entrada do colégio, cartazes e faixas indicavam a presença do movimento secundarista. No portão da unidade, dois estudantes anotavam os nomes de todos que entravam. Ações necessárias para manter a organização e a segurança do local.

O assédio da imprensa é um dos motivos para o controle na entrada no colégio. Segundo Bolinha, jornalistas tentaram tirar fotos da ocupação pelas grades que cercam a escola e vários jornais veicularam informações equivocadas sobre o movimento.

No primeiro dia, bateu um cara da Globo aqui. E só tinham três horas de ocupação... Daí a gente foi percebendo que a mídia não parava de chegar. A Record, a Bandeirantes, a Rádio Tupi. Eles acabaram divulgando algumas informações que não são verdadeiras.”

Que país é esse?

Nas favelas, no Senado... Sujeira pra todo lado... Ninguém respeita a Constituição... Mas todos acreditam no futuro da nação... Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse?” A letra da canção composta por Renato Russo descreve exatamente as recordações da estudante Morgana Côrtes. A jovem de cabelos encaracolados e sorriso tímido lembra das conversas, anteriores ao início do movimento, que tinha com os amigos sobre a ocupação no restante do país.

A gente debateu muito sobre os estudantes de São Paulo que ocuparam as escolas contra a reforma do (Geraldo) Alckmin.”

A atual mobilização estudantil nacional começou em 2015. A “reforma do Alckmin”, mencionada por Morgana, foi o plano que o Poder Executivo estadual pretendia implementar, remanejando alunos e funcionários, para reduzir o número de colégios em São Paulo. O projeto do governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP) tinha o objetivo de transferir 300 mil alunos e fechar 92 escolas, segundo números do portal Jusbrasil. A ação dos estudantes em São Paulo foi inspirada na “Revolução dos Pinguins”, movimento de secundaristas chilenos que reivindicaram passe livre e melhorias na educação pública em 2006.

Começaremos com ocupações rápidas, que nos permitam usar forças da forma mais efetiva possível. Não devemos nos desgastar no início da luta, além disso devemos deixar claro que não ocupamos as escolas porque queremos.”

Este é um trecho do manual “Como ocupar um colégio?”, documento criado para a orientação da manifestação dos estudantes brasileiros, inspirado na “Revolução dos Pinguins”.

Morgana já participou da greve do Pedro II em 2012, na qual o prédio da reitoria foi ocupado. Desde então, a carioca de 18 anos passou a se envolver em movimentos sociais. Movida pelo desejo de igualdade, a estudante avalia que a tradição e o conservadorismo são os princípios de muitos problemas que prejudicam o colégio.

Esse discurso do Pedro II ser a escola tradicional mais antiga do Brasil acaba legitimando várias práticas como, por exemplo, a meritocracia.”

Para além das críticas com relação às medidas do Governo - PEC 55, Escola sem Partido e a reforma do Ensino Médio -, os alunos querem ser escutados nas mudanças do ensino público. Bolinha não se intimida quando é questionado sobre o motivo das ocupações. Com um olhar determinado e voz firme, ele argumenta que acredita no poder da manifestação coletiva.

A gente entrou nessa onda para tentar mostrar qual é a educação pública que queremos. As ocupações entram como uma mobilização coletiva quando a gente vê uma afronta clara como a PEC, os projetos na educação e todas as reformas que estão vindo.”

O início da ocupação foi muito complicado. A escola tem um prédio (antigo) para o ensino fundamental e outro (novo) para o ensino médio. No primeiro dia, os estudantes dormiram no prédio do ensino médio, onde, apesar de novo, as portas não fechavam. Só depois, no segundo dia, eles passaram a dormir no prédio mais antigo. Além dos contratempos e assédio da imprensa, a organização foi uma tarefa nada fácil. Eles precisaram compreender a ideia de que ocupação requer responsabilidades.

Os ocupantes foram organizados em áreas para o funcionamento do movimento. São comissões de comunicação, atividades, refeição, segurança e saúde. Já a limpeza fica por conta de todos. As tarefas são rotativas para que ninguém seja prejudicado.

Sentada na escada do prédio do ensino fundamental, Morgana confessa que sente dúvidas com relação à eficácia da ocupação para interferir nas ações políticas. No entanto, a estudante considera que depois do movimento o significado da escola mudou. Com um olhar carregado de lembranças, ela diz que nos sete anos de Pedro II “nunca gostou tanto de estar neste espaço”.

Ocupação, mostra a tua cara

Não me convidaram... Pra essa festa pobre... Que os homens armaram pra me convencer... A pagar sem ver... Toda essa droga... Que já vem malhada antes de eu nascer.” Nem Cazuza, nem George Israel e tampouco Nilo Roméro. Nenhum dos compositores poderiam imaginar como depois de tanto tempo a música “Brasil” permaneceria atual. Os estudantes da ocupação do Pedro II querem mostrar a “cara”. As atividades realizadas na escola são essenciais para a manutenção e visibilidade do movimento. Com almoços no pátio, rodas de conversas e oficinas, a escola é enxergada muito além da sala de aula.

Na véspera do Dia da Consciência Negra, houve muito axé em uma roda valorizando diferentes tipos de cultura. Gente com roupa colorida, danças típicas brasileiras e muitos alunos com o cabelo black armado.

Além desse ser um lugar de luta pra mim, a ocupação está revigorando a minha vontade de estudar, a minha vontade de estar na escola que eu já vinha perdendo.”

Negro e morador do bairro Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio, Matheus Santiago, secundarista de 17 anos, costuma gastar cerca de uma hora e trinta minutos para chegar no colégio. Ele considera que o Pedro II tem fama de ser feito para gente “branca, rica e que mora nos bairros nobres”.

Eu tenho uma irmã pequena e eu quero muito que ela venha para cá. Eu quero que ela se sinta confortável aqui

Olhando para os alunos que dançavam as músicas nordestinas e mexendo constantemente as mãos, o ocupante se diz preocupado com o futuro da escola. Segundo ele, o reitor disse que não há verbas para chegar até o fim do ano. Além disso, houve um corte no número de vagas para o próximo concurso. Um motivo que justificaria a redução da diversidade no Pedro II.

Uma semana depois, os ocupantes orgaziram o “Amanhecer contra a PEC 55”, um festival de música popular para protestar contra os cortes no financiamento público da saúde e educação.

Um estudante de cabelo azul prestava muito atenção nos shows. Mais tarde, o mesmo ocupante tocava violão. A paixão pela música era visível nos olhos do rapaz que também cantava. A voz suave trazia tranquilidade.

Eu comecei a me sentir mal depois de entrar na puberdade. Começou a crescer peito. O meu corpo começou a ganhar uma forma que não me fazia bem.”

O ocupante é menor de idade e os pais não permitiram o uso de imagem. Por isso, na reportagem ele será chamado de Caio, nome fictício. Ele é um garoto trans. Com o violão do lado, ele lembra das dificuldades enfrentadas na escola.

No início, Caio tinha que usar um banheiro que não era masculino e nem feminino. No entanto, o estudante resistiu a esta novidade e começou a usar o banheiro dos rapazes. Até que, segundo ele, o inspetor o chamou para conversar dizendo:

Eu estou sabendo que você está utilizando o banheiro masculino e alguns garotos estão se sentindo incomodados com isso. Mas não leve a mal, pois os garotos se sentem incomodados até com outros garotos. Só que se eu tivesse no banheiro me sentiria incomodado também.

Durante o dia, Bolinha trabalhou na ocupação. A correria fez com que pouco conversássemos neste dia. Mas Morgana, que também estava na organização do evento, me deu permissão de dormir na escola no dia seguinte.

Ladrão, bicha e maconheiro?

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro... Transformam o país inteiro num puteiro... Pois assim se ganha mais dinheiro”, já cantava Cazuza. Aliás, novamente ele. Coincidência ou não, o termo cazuza significa moleque. Os estudantes da ocupação também são chamados de moleques por muitos. No entanto, ao subir para o andar que dá acesso às salas de aulas transformadas em dormitórios é possível ler um cartaz com as seguintes regras:

Não pode:

Fazer sexo;

Qualquer tipo de droga;

Bebidas alcoólicas;

Depredar o Patrimônio Público.”

Aqui ninguém desrespeita as regras”, garantiu Bolinha.

Quando eu vejo as pessoas (ocupantes) respeitando as regras… é uma vitória não só para o movimento, mas para cada integrante da ocupação.”

Já passavam das 22 horas, os alunos se preparavam para assistir a um filme com travesseiros e edredons no chão da antiga na sala dos professores - a atual sala dos ocupantes. Mas enquanto o filme não era escolhido, houve um momento de descontração. Os estudantes dançaram algumas músicas. Bolinha estava entre eles.

Vem comer”, chamaram alguns alunos para a janta. O cardápio da noite era hambúrguer. A simplicidade na refeição se deu por conta do evento do dia anterior que não trouxe um bom retorno para o caixa da ocupação. Mas, apesar de tudo, o ambiente era descontraído.

Sua boca tá suja!

“Come logo, antes de ficar sem!”

“Quem não quiser mais, me dá.”

Após se alimentarem, os ocupantes começaram uma reunião. Assuntos importantes com relação a organização do movimento foram tratados. Entre os ocupantes, haviam aqueles que ainda brincavam e outros que prestavam atenção em tudo o que foi debatido.

Já era meia noite, a reunião já havia terminado e Bolinha contava a história sobre o vizinho do início da reportagem...

“... ele saiu andando e entrou em casa. Depois disso, voltamos a conversar, mas sempre rola um estranhamento quando falamos em Pedro II e ocupação.”

Enquanto conversávamos escutamos alguns barulhos. Eram os ocupantes comemorando um mês de ocupação. No entanto, mesmo sendo uma data tão importante para o movimento, Bolinha confessa ficar entristecido com a diminuição das vagas no Pedro II.

Não entra quem realmente precisa de uma educação pública. Entra quem pode pagar por essa educação. Que apesar de ser pública, entra quem pode pagar.

Já era a madrugada de segunda-feira, Bolinha estava sentado em frente a porta do prédio mais antigo, onde são ministradas as aulas do ensino fundamental. As palavras daquele jovem de 18 anos pedindo melhorias na educação saíam como uma música, uma música de Luiz Gonzaga...

Eu acredito… É na rapaziada… Que segue em frente… E segura o rojão… Eu ponho fé… É na fé da moçada… Que não foge da fera… E enfrenta o leão… Eu vou à luta… É com essa juventude… Que não corre da raia… À troco de nada… Eu vou no bloco… Dessa mocidade… Que não tá na saudade… E constrói… A manhã desejada.”

Texto Marcos Furtado

Imagens Marcos Furtado, Carlos Henrique Nascimento e Matheus Bacelar

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