“Para cada grafite que apagam, eu faço dez”. A arte de mulheres que ocupam o espaço urbano no Vale do São Francisco

Grafite, estêncil, performances, estátuas vivas são alguns exemplos de um tipo de arte que sai das paredes das galerias e vai para os muros da cidade: a arte urbana. Juazeiro-BA e Petrolina-PE são duas cidades que possuem muitos artistas que se expressam por meio da intervenção no espaço urbano, principalmente com o grafite e o estêncil.

A arte urbana, como quase tudo que existe no mundo, se empenha em dar visibilidade ao trabalho dos homens, que ganham fama, respeito e dinheiro em detrimento das ações desenvolvidas pelas mulheres, cujo protagonismo pouco é falado. Trazendo essa discussão para nossa realidade, vale a pergunta: quem são as mulheres que fazem arte urbana no Vale do São Francisco?

Grafites feitos por Clarissa Campello, Pollyana Mattana e Maria Júlia, respectivamente

Clarissa Campello, 38 anos, capixaba, é uma das mulheres que fazem arte urbana em Juazeiro, possuindo um forte caráter político em seu trabalho. Um dos temas sobre o qual ela mais se debruça é a visibilidade da população LGBT. “Uma coisa que me dói muito na cidade de Juazeiro são essas coisas pichadas de ‘gay é igual a AIDS’ que tem em todos os lugares. Eu já fiz alguns trabalhos em resposta a essas pichações. Vai ter ‘viado’ sim”, afirmou ela.

Clarissa também é professora do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), ministrando, entre outras, uma disciplina de arte urbana. Dentre outros trabalhos, uma intervenção, realizada em novembro de 2015, ganhou destaque. Clarissa desenhou o rosto de Cunha num muro e depois o derrubou a marretadas, num contexto em que parte da sociedade brasileira pedia o “Fora Cunha”. Essa ação ganhou destaque nas redes sociais ao redor do país e do mundo, com mais de 240 mil visualizações, tornando-se referência de luta e inspiração artística para vários públicos.

Intervenção artística - Sesc Crato-CE (pollyana mattana)

Pollyana Mattana, 31 anos, é carioca, formada em Artes pela Faculdade Paulista de Artes (FPA) e mudou-se para o Nordeste junto com a família após a formação. Em Juazeiro, assim como Clarissa, trabalhou como professora do curso de Artes Visuais da UNIVASF por dois anos. Junto com a turma de Desenho, formou um grupo chamado Stenciólogos, que tinha como proposta promover diálogos, ler e refletir sobre as artes e fazer colagens nas ruas, tendo como temas as datas comemorativas, Páscoa e 7 de setembro, por exemplo. Depois, as ações desse grupo ganharam visibilidade, e o Stenciólogos foi convidado para fazer alguns trabalhos para o Museu do Sertão e para o Serviço Social do Comércio (SESC), ambos em Petrolina-PE.

Depois, Pollyana prestou concurso para o SESC e foi selecionada para trabalhar em Triunfo-PE, cidade de 14 mil habitantes, em que pouco se ouvia e via falar sobre arte urbana. Foi nesse contexto que Pollyana assumiu a galeria de artes, promovendo aulas de artes e desenho. Através desses espaços, ela, junto com estudantes, começou a realizar algumas intervenções. Para a artista, a cidade, que é tombada pelo Patrimônio Histórico, possui muita gente “curiosa”, o que gerou um cenário favorável para pintar a história do povo nas ruas.

Pollyana conta que a vinda para o Nordeste tem tudo a ver com sua concepção artística, pois foi a partir da mudança para a região que ela começou a produzir e ousar mais. O coração presente na maioria de suas obras representa, assim, o coração do povo nordestino. Ela também afirma que não gosta de grafitar em paredes pintadas, preferindo as mais “feias”, em pior estado de conservação.

“Não se apaga grafite”, diz Pollyana, ao falar sobre a ocupação do espaço urbano. Muitas vezes, há intervenções que demoram menos tempo na parede do que os dias que foram necessários para serem feitas. Cidades como Sobradinho-BA e Juazeiro do Norte-CE têm a marca dessa artista, que também é tatuadora.

Maria Júlia em intervenção artística na Ilha do Fogo - Juazeiro-BA

Foi em uma das turmas de Clarissa Campello que Maria Júlia, 22 anos, baiana da cidade de Campo Formoso e estudante de Artes Visuais da UNIVASF, começou a se interessar pela arte urbana. Ela conta que, em sua cidade de origem, trabalhava com tela e cerâmica, sem realizar intervenções na rua. Para a artista, as manifestações artísticas de rua fogem dos padrões de galeria.

“A arte urbana é para todo mundo. Ela me chamou a atenção porque abrange um público bem maior e é bem mais interessante. Ela tira a arte desse pedestal”, afirma a estudante.

Segundo Maria Júlia, sua arte busca mostrar para as pessoas a situação política do país. Quanto à recepção de suas obras, ela diz não se preocupar em voltar à rua para saber a opinião das pessoas; geralmente, o retorno só acontece a partir de comentários nas redes sociais.

pintura mural projeto popular - campo formoso-ba (Maria Júlia)

Clarissa, Pollyana e Maria Júlia são apenas algumas das mulheres que fazem arte urbana em Juazeiro-BA e Petrolina-PE, ultrapassando os limites do Vale do São Francisco e levando sua arte para outras cidades. Maria Júlia acredita que há preconceito nesse meio - como em qualquer outro - e conta que o único grande problema que enfrentou por ser mulher foi o fato de não se sentir segura em grafitar sozinha durante a madrugada. Para Pollyana, faltam mulheres nesses espaços, sendo necessário que elas “deem as caras” e disputem lugar. Ainda assim, segundo a artista, a maior dificuldade que enfrenta é que as pessoas entendam e respeitem a arte urbana; isso, porém, só aumenta seu desejo em grafitar. “Para cada grafite que apagam, eu faço dez”, contou ela.

Produção: Ester Muniz, Jaqueline Santos, João Pedro Ramalho, Meire Souza e Patricia Barbosa.

Foto de capa: intervenção artística em Triunfo-PE (Pollyana Mattana). Fotos da matéria: arquivos pessoais de Clarissa Campello, Maria Júlia e Pollyana Mattana.

Credits:

Fotos: arquivos pessoais de Clarissa Campello, Maria Júlia e Pollyana Mattana. Produção: Ester Muniz, Jaqueline Santos, João Pedro Ramalho, Meire Souza e Patricia Barbosa.

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