Território hostil Como universitárias lidam com a violência contra mulheres na USP

Seis em cada dez estudantes universitárias brasileiras já sofreram algum tipo de violência dentro do ambiente acadêmico. Os abusos variam de agressões morais e físicas até violência sexual - que correspondem a 30% dos casos. Sob outro ângulo, quatro em cada dez alunos reconhecem ter cometido violência contra colegas mulheres.

A pesquisa, feita pelo Instituto Avon/Data Popular entre setembro e outubro de 2015, ecoa incomodamente dentro de um dos maiores centros de excelência de ensino do Brasil: a Universidade de São Paulo (USP).

No final de 2014, diversos casos ganharam visibilidade na CPI do Trote, instaurada pela Assembleia Legislativa paulista para apurar seis denúncias de estupro que teriam sido cometidos por estudantes da Faculdade de Medicina da USP. Dois anos se passaram, mas a violência contra mulheres na maior universidade do país continua a contabilizar vítimas.

Na Cidade Universitária, grande incidência de casos concentra-se no Conjunto Residencial da USP (CRUSP). Desde 2013, foram registrados 50 boletins de ocorrência que denunciam 42 agressores - há, portanto, reincidentes. Em abril de 2016, o espancamento de uma aluna dentro de seu apartamento no CRUSP pelo próprio namorado enquanto um amigo vigiava a porta foi a gota d'água. Após um mês de ocupação na Superintendência de Assistência Social, alunos que reivindicavam a expulsão dos agressores conseguiram um avanço. Receberam autorização para criar uma comissão autônoma, referendada pela USP e formada só por mulheres, para apurar casos de violência contra a mulher dentro da moradia estudantil.

A antropóloga Silvana Nascimento, professora do Departamento de Antropologia da USP convidada a acompanhar os trabalhos da comissão, diz que há denúncias de todo tipo sob investigação. Além de diversos casos de violência doméstica (como, por exemplo, do estudante acusado de empurrar a namorada do alto da escada), há queixas de cárcere privado - como do aluno que teria trancado a namorada no apartamento sem liberdade para sair sem autorização - até denúncias de escravização sexual - alunas obrigadas a trocar uma vaga no apartamento por sexo.

"Esse agressor, na maioria dos casos, não é expulso do CRUSP e a vítima é obrigada a conviver com ele, que acaba sendo protegido em detrimento da vítima. Não à toa, há inúmeros casos de depressão, síndrome do pânico e até mesmo suicídio entre as alunas que habitam o CRUSP."

(Silvana Nascimento, antropóloga que integra a comissão)

Os relatos de violência sexual se propagam para atividades de extensão do ambiente universitário, como festas e eventos. Nos Jogos Universitários de Comunicação e Artes (JUCA) de 2016, uma estudante da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP) foi estuprada.

Segundo Heloísa Buarque de Almeida, Integrante-fundadora da Rede Não Cala! de professoras e pesquisadoras pelo fim da violência sexual e de gênero na USP e docente do Departamento de Antropologia, há dois tipos de violência sexual entre os estudantes da universidade. O mais comum nas faculdades de Medicina e Odontologia e na Escola Superior de Agricultura é o que envolve o estupro mediante a adulteração de bebidas alcoólicas -- conhecido como "boa noite, Cinderela". O segundo caso, mais comum entre alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) ou da ECA, é o estupro de estudantes em situação de vulnerabilidade -- o agressor se aproveita da vítima que, alcoolizada ou drogada, não está em condições de consentir o ato sexual.

A reportagem do eder content vai retratar a violência de gênero no maior campus universitário do país.

Como é ser universitária na USP? Como as alunas lidam com riscos e ameaças? Qual é a abordagem de professores e funcionários da universidade para a violência de gênero no campus? O que mudou após as denúncias de estupro contra estudantes de Medicina da USP? Como a direção da universidade vem lidando com os casos de violência? Como terminaram os casos que foram denunciados desde 2013? Como outras grandes e reconhecidas universidades lidam com casos de violência de gênero no campus?

  • Uma reportagem eder content em formato curto/médio
  • Infografia
  • Fotografias
  • Entrevistas em vídeo
  • Entrega do conteúdo pronto para publicação em 1 de março de 2017
Created By
Helder Vinícius Ferreira
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