Pequena casa

Essa casa que moro é pequena, mas é minha. Não é fácil morar numa pequenina casa, as visitas são esparsas e no cômodo há somente o necessário. Há uma janela, que em belos e ensolarados dias permanece aberta, mas cuido de fechá-la nas tormentas. Gosto de ver sua cortina dançando ao vento, como se me tocasse num gesto terno e caridoso.

Mantê-la limpa é uma virtude, o que nem sempre é possível. Por vezes, mais do que eu gostaria, deixo a poeira se acumular nos cantos, sob a cama, nos meus lindos livros. As roupas esquecidas na poltrona, pelo chão. Há esse componente caótico, pois manter-se inalterado parece um esforço sobre-humano e por humano é preciso aceitar a desordem e o descontrole, para que possamos voltar e nos reorganizar.

É preciso uma bela porta, para ver o mundo que nos aguarda lá fora e para convidar aqueles que nos são caros; lembrando sempre que é indispensável deixá-los ir. Aqui reforço a característica fundamental da pequena casa: as visitas são somente visitas. Por vezes podemos amá-las demais; elas nos preenchem das mais laboriosas histórias, da mais reconfortante companhia, e desse regalo, quão difícil é nos desfazermos, mas são somente uma visita.

Nessas horas pode ser difícil viver numa casa pequenina, porque nos parece insuficiente. A impermanência dos dias nos inquieta e a solidão pode ser esmagadora. Entre perdas e perdas nos apegamos nesse delírio de reter, nos esquecendo que a estagnação também é morte. Logo desejaremos mais cômodos, para abrigar as visitas que serão nosso próprio ar; prisioneiras num castelo majestoso que não pode ser mantido, pois ninguém além de você pode cuidar desta casa que é sua.

Quando nossos olhos se confundem no olhar dos outros, eis que tudo está perdido. Ao olhar pela janela, não mais verá o mundo que não lhe pertence para perder-se naquele mundo que deveria ser o seu. Não pode haver uma miséria maior, pois nem a maior das casas há de comportá-lo.

Saiba, cabe bem pouco na pequena casa. Cabe a vida pouca de um olhar honesto. Cabe a razão que é justa, mas não tirana, e o coração que é terno, mas não emotivo. Cabe o que se pode ser num instante e nada mais, nada mais do que isso. Habitar ali, por vezes é árduo; nos perdemos no desejo de morar lá fora, nos perdemos nas visitas boas ou más, nos perdemos no sol e na chuva, no vento que bate nossas portas e janelas. Nessas horas é preciso olhar com calma e saber o que faz de nós nossa casa e o que não.

Pode ser solitário ou reconfortante. Pode ser alegre ou triste. Mas assim são os dias e eles não duram mais que do que o tempo que a noite finda.

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Izis Cavalcanti
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Credits:

Izis Cavalcanti

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