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Convidados a Sair Associação Convívio

De 1961 até 2019, é difícil contar o número de vezes em que o Convívio desempenhou um papel ativo na promoção e criação cultural. Agora, a existência da Associação na casa onde vive há quase 60 anos pode ter os dias contados.

As colunas deixam escapar um som tímido. O jazz eletrónico de FKJ vai ambientando o café pouco iluminado da porta 8 do largo da Misericórdia, em Guimarães.

O sol fresco de inverno traz turistas às ruas do centro histórico de Guimarães. Alguns, curiosos com a porta aberta, aventuram-se na sede da Associação Convívio.

A Associação Convívio está sediada neste edifício do século XVIII há quase 60 anos

O Convívio dá vida a uma casa construída no século XVIII. A fachada de portas vermelhas está virada para o Largo da Misericórdia, que em alguns mapas aparece como Largo João Franco.

Mesmo em frente à sede da Associação é a Casa dos Coutos. Vermelha, ampla e imponente é aí que se localiza o Tribunal da Relação de Guimarães. De costas para do largo está uma interpretação moderna de uma estátua de D. Afonso Henriques. Ao fundo, a Casa da Torre limita a amplitude da praça. Não é preciso olhar com atenção para reparar nas paredes do Paço dos Duques de Bragança a espreitar para o largo.

No horizonte é possível ver o Paço dos Duques de Bragança

Na porta imediatamente ao lado da casa do Convívio há um edifício para alojamento local. Ao fundo há outro. E um terceiro pode nascer no largo da Misericórdia, mesmo no edifício que dá a sede ao Convívio.

A casa das portas vermelhas foi vendida à agência Belos Ares e a Associação corre o risco de sair do espaço. A escritura do imóvel foi realizada a 15 de outubro, mas o Convívio exige o direito de preferência para adquirir a casa que ocupa há quase 60 anos.

Nem só com jazz se convive

A Associação Convívio é um ponto incontornável na cultura de Guimarães e do norte do país. A escola de jazz, os festivais, os concertos e as jam sessions que organiza são o prato forte da casa. No entanto, a sua história começou ainda durante o Estado Novo.

A primeira morada do Convívio, no Largo Condessa do Juncal, recebeu alguns encontros de cidadãos e pensadores da sociedade portuguesa que não se identificavam com o regime. D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto e opositor de Salazar, chegou a participar em conferências. Francisco Sá Carneiro foi outra das pessoas que expôs as suas ideias dentro das paredes da Associação.

Quando a Associação Convívio nasceu a sua sede localizava-se no Largo Condessa do Juncal

(veja o mapo completo aqui)

Numa época em que a liberdade criativa era diminuída, o Convívio começou a criar uma programação cultural regular. Os primeiros passos neste sentido foram dados em direção ao cinema e às artes plásticas, com exposições de artistas como José de Guimarães, Graça Morais ou Júlio Resende.

(veja a cronologia aqui)

As tradições vimaranenses também estiveram sempre enquadradas na associação.

“A determinada altura, não havia quem estivesse interessado em organizar as Festas Gualterianas e o Convívio juntou uma comissão que durante dois anos organizou as festas”, relembra César Machado, atual presidente da Associação.

O Suave Fest veio diversificar a oferta cultural da associação. O festival de música alternativa começou em 2014, ainda dentro de portas. Em 2015 pasou a ocupar a rua no Largo da Misericórdia, à entrada do Convívio.

O marco da Capital Europeia da Cultura

A cidade de Guimarães foi eleita Capital Europeia da Cultura em 2012. Nesse ano, o Convívio foi escolhido como uma das associações que liderou uma parte do trabalho de programação, num conjunto de iniciativas chamadas "Tempos Cruzados".

O Convívio desempenhou um papel ativo durante o ano de 2012, enriquecendo também a sua oferta cultural durante esse ano.

Em 2012, a Associação passou a contar com mais uma valência nas suas instalações, com a criação de uma residência capaz de albergar artistas, de modo a potenciar as capacidades criativas de músicos, artistas plásticos e também atores. Os resultados de algumas residências artísticas ainda estão gravados nas paredes da casa das portas vermelhas.

Obra realizada num canto de parede durante a Capital Europeia da Cultura

Antes mesmo de ser eleita como a Cidade Europeia mais importante em termos culturais, houve um caminho a percorrer até se chegar a esse ponto.

Para César Machado, “o Convívio esteve implicado na Capital Europeia da Cultura desde há muito tempo, porque foi uma das casas que trabalhou para que um dia viesse a ser possível ter a Capital”. Ainda não existia o pelouro da cultura na Câmara Municipal de Guimarães e já o Convívio e outras associações salvaguardavam a oferta cultural da cidade.

A Escola de Jazz da Associação Convívio conta com aulas de vários intrumentos, desde guitarra e baixo, a piano e bateria

A Escola de Jazz iniciou funções em 2012 e é, atualmente, uma das principais bandeiras do Convívio. Depois ter criado o Guimarães Jazz e o Verão é Jazz, a Associação fundou uma escola de jazz que fugiu aos habituais centros artísticos do país em Lisboa e no Porto.

A vertente formativa juntou-se à habitual programação e o Convívio tornou-se, assim, ainda mais importante para cidade e para região.

A notícia funesta

Quando César Machado chegou à casa das portas vermelhas, já o sol se tinha posto. É presidente da Associação Convívio desde abril de 2016.

“Comecei a frequentar o convívio pela década de 80, em jovem, ainda antes de ir para a universidade”, recorda.

De início frequentava a Associação mais esporadicamente. Ia a uma ou outra atividade. Mas quando voltou de Coimbra, com o canudo de Direito, em 1987, começou a frequentar mais ativamente as atividades do Convívio. “Entrei no coro da Associação que na altura tinha muita pujança, estava numa fase muito alta.”

César Machado está no segundo mandato como presidente da Associação Convívio

Construída no século XVIII para servir como habitação de uma família abastada, a casa está desde finais da década de 1960 nas mãos da Associação Convívio.

Toda a casa foi construída circundando um pátio interior quadrado, ao fundo do corredor do hall de entrada.

“O cogumelo”, um aquecedor, e um enorme toldo branco instalado pelo Convívio protegem o pátio das forças da natureza, permitindo o funcionamento da esplanada, faça chuva ou faça sol.

James Carter foi uma das figuras que passou pelo Convívio

Mas quem vê de baixo não consegue imaginar o que escondem as paredes da casa. "A maioria das pessoas não tem noção do edifício que está aqui", revela César.

No salão principal conservam-se as pinturas originais feitas no teto. As paredes expõem instalações de residências artísticas feitas na Associação Convívio em 2012. As janelas e as varandas dão vistas singulares para a cidade de Guimarães. Vê-se o estádio, vê-se todo o centro histórico e vê-se o Paço dos Duques acompanhado pelo Castelo de Guimarães.

"Este é dos poucos sítios em que se vê o Paço e o Castelo a parecerem a mesma peça", mostra César.

O teto ainda conserva as pinturas da época em que foi construído

Ao longo dos anos, o Convívio amealhou uma coleção de pinturas de autores que já exposeram na casa

"Quando olho para o que o Convívio fez em 2018, acho que temos motivos para ficar orgulhosos", admite César.

Tiveram vários ciclos de concertos, como os Convívios ao Piano e o Indisciplinas. A quinta edição do Suave Fest encheu o largo da Misericórdia. Comemoraram o dia internacional do jazz, fizeram ciclos de pintura e fotografia. O Noc Noc foi como César "nunca tinha visto". E até emprestaram a casa para uma festa de estudantes sírios.

Contudo, as más notícias acabariam por chegar.

"Foi pela altura do Noc Noc, que recebemos a notícia funesta de que o edifício havia sido vendido"

César garante que "o Convívio estaria sempre interessado em comprar o edifício se tivesse sido informado". Quando receberam a carta a informar que o edifício iria ser vendido, tiveram um "prazo muito curto para amealhar uma quantia muito elevada". Em questão está um valor de 370 mil euros.

Com a ajuda dos sócios, a Associação arrecadou 220 mil euros para exercer o direito de preferência e comprar o edifício. Os restantes 150 mil euros foram dados pela Câmara Municipal de Guimarães.

Este auxílio municipal surgiu antes de Tiago Simães, antigo programador, primeiro diretor pedagógico da Escola de Jazz e atual sócio da Associação Convívio, ter criado uma petição pública para que a casa não fosse vendida. As mais de 400 assinaturas foram entregues em reunião de Câmara a todos os vereadores e ao edil do município vimaranense.

Até ao momento, Tiago Simães mostra-se surpreendido por não ter obtido qualquer resposta por parte da Câmara Municipal de Guimarães, da Associação Convívio e até dos próprios órgãos de comunicação social que acompanharam os primeiros desenvolvimentos. “Entretanto o caso parece que morreu”, reitera.

“Eu fiz o que me competia enquanto cidadão e associado, mais do que isso não posso fazer, porque não tenho competência nem poder para isso.”

O antigo diretor pedagógico da Escola de Jazz do Convívio considera que esta é uma situação injusta. "O Convívio é uma associação importante que ativamente trabalha em prol dos outros, da cidade e da cultura”. No entanto, caso o desfecho dite o despejo do Convívio da casa que habita há quase 60 anos, o atual sócio acredita que a Associação tem condições para continuar a existir noutro local.

“O Convívio é uma associação de pessoas. Se aquelas pessoas se reunirem e organizarem coisas noutro edifício, o Convívio continua a ser uma associação viva e ativa.”

Por sua vez, a Câmara Municipal de Guimarães não pretende abandonar o Convívio. A vice-presidente do município, Adelina Paula Pinto, afirmou que “é da obrigação da Câmara Municipal de Guimarães ajudar o Convívio”, reconhecendo o papel preponderante que a Associação sempre teve para a cidade.

Neste momento, a direção da Associação Convívio encontra-se em negociações com a sociedade imobiliária Belos Ares. Caso ambas as partes não cheguem a acordo, César Machado admite recorrer aos tribunais. Se o processo seguir por esta via, a Câmara Municipal de Guimarães deixa de ter um papel ativo, garantiu Adelina Paula Pinto.

"Ver o Convívio transformado em mais um hostel ofende"

Poucos são aqueles que acreditam na saída do Convívio da casa onde vive há cerca de cinco décadas. Contudo, tal como no resto do país, o número de estabelecimentos registados como alojamento local tem vindo a crescer nos últimos anos.

Segundo dados do Turismo de Portugal, existem 123 alojamentos locais em Guimarães. Desse número, 82 – mais de metade – surgiram em 2017 e 2018.

A sociedade imobiliária Belos Ares não confirma o objetivo por trás da compra do edifício que alberga o Convívio. Confrontados sobre estas e outras questões ligadas ao negócio, a agência absteve-se de prestar qualquer esclarecimento acerca do caso.

Mesmo em risco de despejo, a direção da Associação não desiste de programar e trabalhar. “Nem nos momentos mais otimistas pensam que nós vamos desistir de sermos quem somos”. Para César Machado, “não é indiferente o Convívio estar neste edifício”, sendo até ofensivo para a cidade que a Associação seja substituída por “mais um hostel”.

“O Convívio tem a possibilidade de exercer a sua atividade de um modo riquíssimo também com o edifício por dentro.”

O músico João Paulo Duarte descreve o edifício como “emblemático”, por isso não acredita que a Associação tenha de desocupar as instalações. Da mesma opinião, José Manuel Gomes, programador do Suave Fest, afirma que “há todo um legado que se perde”, caso o Convívio saia do Largo da Misericórdia.

A direção da Associação promete lutar até onde for possível para reverter a venda e manter as instalações ao dispor do Convívio. A garantia está dada: o fim da Associação Convívio não está em causa.

Reportagem: Diogo Rodrigues e Rui Araújo

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