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Degradação ambiental está na raiz do surto de febre amarela

Nelson Oliveira, da Agência Senado

Publicado em 12/3/2018

Numa linha de análise que procura avaliar várias causas para um mesmo problema, a degradação ambiental aparece como um fator-chave para o aumento dos surtos de febre amarela nos últimos anos. É o que frisava já há um ano a bióloga Marcia Chame, coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre e do Programa Institucional Biodiversidade & Saúde da Fundação Oswaldo Cruz em entrevista ao site da instituição.

“O que se vê, fora da região amazônica, é que estes surtos estão nas regiões onde os fragmentos florestais são muito pequenos. Isso é um dado a ser estudado com muita cautela, porque sabemos que quanto menor o fragmento florestal mais espécies são perdidas, e as espécies que permanecem ali têm alta capacidade de adaptação a ambientes desestruturados. Obviamente, estas espécies também são boas mantenedoras e transmissoras de agentes infecciosos, porque esta é uma estratégia destes organismos, vírus ou qualquer outro, perpetuarem-se”, explicou a pesquisadora.

Dessa forma, é importante manter “reservas naturais grandes e suficientes, para que os animais possam viver, e viver com qualidade, mantendo os ciclos naturais de agentes infecciosos nos seus lugares de origem e, com isso, diminuir o fluxo de doenças entre animais e pessoas, e também entre pessoas e animais”, completou Marcia Chame. Um dos limites a um cuidado mais generoso com a natureza é que isso “vai de encontro ao modelo econômico em curso”, conforme a estudiosa.

Segundo ela, deriva ainda do meio ambiente uma mudança de padrão nos ciclos das epidemias, que são influenciados, de uma perspectiva estrutural, pelos contingentes de pessoas não vacinadas ao longo de uma década. Entre 2009 e 2016, a febre amarela pipocou em Goiás, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Distrito Federal e em Minas Gerais. À época da entrevista, não haviam ainda se registrados casos no Espírito Santo.

“O que se observa recentemente é que desde 1999 vêm ocorrendo novos surtos em diferentes regiões do Brasil. Nos estados onde os surtos já ocorreram, o fluxo de notificação e coleta de amostras biológicas que seguem para análise e confirmação dos casos está bem estabelecido e as equipes estão preparadas. O problema é quando novos casos acontecem em áreas sem registro anterior ou ainda naquelas nas quais os registros são antigos, como é o caso de Minas”.

Diminuição de grandes áreas de floresta pode ter facilitado o fluxo de doenças entre animais e pessoas (foto: Ibama)

O secretário da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) José David Urbaez Brito chama a atenção para o fato de que a ocupação desordenada do solo “levou à diluição da distância entre áreas rurais e urbanas”, facilitando o contato de seres humanos com o mosquito do ciclo silvestre da febre , o Haemagogus do gênero sabethes.

— Até a coqueluche imobiliária dos condomínios facilita o contato com os mosquitos — acrescenta o especialista.

Frente à mudança de perfil do país pela ocupação desordenada, os municípios perderam a capacidade técnica para lidar com epidemias, e não há quem faça esse trabalho no lugar deles.

— Daí ficarmos apagando incêndios. O Ministério da Saúde tem um corpo técnico privilegiado, mas não há fluidez por todas as barreiras — lamenta o infectologista.

A mudança do perfil de ocupação do solo trouxe novas interações entre o vírus, o vetor e as populações humana e animal, que exigem vigilância e pesquisa constante, de acordo com o subsecretário de Vigilância em Saúde de Belo Horizonte, Fabiano Pimenta. Ele explica que em algumas décadas o país reduziu as áreas de cobertura vegetal natural em prol de grandes extensões de produção de grãos, principalmente. Ao mesmo tempo em que a população urbana aumentou, a proximidade das cidades com matas remanescentes, capoeiras, parques e reservas florestais, além de condomínios arborizados, criou novos corredores e vias de propagação do vírus para as quais a vigilância epidemiológica ainda não está totalmente preparada.

Mudança no perfil de ocupação do espaço natural e urbano criou corredores que favorecem a propagação do vírus (foto: Alexandre Carvalho/A2img/Governo de São Paulo)

O secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Adeilson Cavalcante, descreveu no dia 6 uma das principais rotas atuais do vírus, de ciclo silvestre mas cada vez mais presente em ambientes semiurbanos e urbanos: começou em São Paulo em meados de 2016, e a partir de então alcançou Minas Gerais, o Espírito Santo e o Rio de Janeiro até o Sul da Bahia, por uma visível conexão litorânea. Em São Paulo, a costa também viu a chegada do Haemagogus.

“Somos um país tropical, temos o vírus na forma endêmica e temos o vetor, com ciclo silvestre”, definiu Cavalcante, para reforçar a ideia de que não dá para relaxar com a febre amarela.

De qualquer forma, o atual percentual de cobertura vacinal em Minas Gerais, São Paulo e Rio de janeiro, de 76% da população, contra os 95% desejáveis, mostra, conforme ele que “há um processo de imunização crescente desde o ano passado”.

Aplicativo ajuda a localizar áreas de risco?

Aplicativo desenvolvido pela Fiocruz permite o registro e comunicação de animais mortos ou doentes

A população pode informar as autoridades sobre a morte de macacos. Para atender a essa preocupação, a Fiocruz desenvolveu o Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo) que recebe informação de animais sadios, doentes e mortos de qualquer pessoa em qualquer lugar do Brasil. Basta baixar o aplicativo Android, de graça, no celular ou na web. A foto do animal, georreferenciada, mesmo sem sinal de internet ou telefonia, além de informações do animal e do local são enviadas assim que qualquer rede de dados estiver ao alcance e estas informações são disponibilizadas em tempo real no site. Os registros de animais mortos ou doentes geram alertas automatizados para a equipe da Plataforma. Com essas informações, são notificados os serviços de saúde também em tempo real, para a tomada de providências.

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