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Violência contra as Mulheres por Leonor castro

“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela.” (Efésios 5:22-25).

Convidada a refletir sobre o tema da Violência contra as Mulheres, foi quase imediata a associação a esta passagem bíblica. Tendo nascido e crescido numa família onde o respeito por todos é sempre constante, onde é convicto o reconhecimento pela Mulher enquanto ser que conjuga a vulnerabilidade e a força, enquanto ser capaz de responder às exigências dos tempos e que, dos braços que eram berços, soube fazer braços de labuta, as palavras que escolhi para epigrafar este artigo causavam-me, desde tenra idade, alguma curiosidade e, não raras vezes, indignação.

Foi, precisamente, no dia do meu casamento que, vencida a espontânea indignação reativa às palavras que até então me poderiam apontar para a submissão, que me parecia, só por si, intolerável, retrógrada, obtusa, vi esta passagem de forma diferente. Concorde-se ou não com os pressupostos e razões, não a podemos descontextualizar nem deixar de a ver à luz das comparações com que é explicada, repito, concordemos ou não. Na verdade, o que nela temos em causa, parece-me ser uma lição de entrega e amor e foi nesse sentido que passei a entender a “sujeição”, porque quem ama dá-se ao outro, aprende a ceder (sem se anular!) para a sã convivência, aprende a caminhar lado a lado, devendo o caminho ser traçado a dois. A reciprocidade está também presente nessa passagem, pois quem é amado deverá amar; a quem alguém se entrega dever-se-á entregar.

Não sou, de modo algum, especialista na interpretação dos textos bíblicos. Escolhi esta passagem porque quis partilhar esta experiência de hermenêutica pessoal. Também porque acredito que, mal interpretados, todos os textos se podem tornar muito perigosos. Como poderá alguém legitimar um ato de violência contra a mulher assente nestas palavras? Será tão ou mais reprovável quanto quem o faz com base em “tradições”, em costumes familiares, ou no completamente infundado adágio “entre marido e mulher ninguém meta a colher”. Na verdade, não haverá qualquer fundamento para a violência, seja ela qual for. A Declaração Universal dos Direitos Humanos assim o defende.

Como entender, pois, que, em pleno século XXI, se assista a uma escalada neste tipo de violência, não obstante existir todo um conjunto de instrumentos internacionais de direitos das mulheres, desde a Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (Assembleia Geral ONU – 1967), a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra as Mulheres (Assembleia Geral ONU – 1979), a Convenção do Conselho da Europa para a Prevênção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica (Convenção de Istambul – 2011), a Declaração e Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre a Mulher (Pequim – 1995), o Pacto Europeu para a Igualdade entre Homens e Mulheres (2011-2020)?

Sem negar a importância de tais instrumentos, facilmente compreendemos que não são suficientes para combater este flagelo, que se reveste das mais variadas formas. Mundialmente, milhões de mulheres e raparigas são vítimas de violência física, psicológica, moral e sexual, no trabalho, na família e na sociedade, daí advindo consequências devastadoras para a saúde, bem-estar e realização pessoal, para o estatuto social e a liberdade de todas as mulheres. Como alertou o Secretário-geral da ONU, António Guterres, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, “não basta intervir após o ato de violência contra as mulheres. É também necessário agir a montante da violência, em particular, abordando normas sociais e desequilíbrios de poder. É importante que a polícia e os sistemas judiciais aumentem a responsabilização dos agressores e ponham fim à impunidade.”

Sem negar a relevância destas palavras, eu entendo que é fulcral atuar a nível das consciências, sobretudo em formação. Nas escolas, na catequese, nas atividades recreativas e culturais, em todas as oportunidades em que possamos ensinar o Afeto e o Respeito, tornando claro que quem ama não maltrata.

Se esta é uma urgência de todos os tempos, tenhamos ainda mais viva a consciência de que o confinamento implementado pelos diversos governos para conter a propagação do coronavírus trancou muitas mulheres em casa com o seu próprio agressor, pelo que cada um de nós deve sentir-se comprometido na erradicação, para sempre, da pandemia silenciosa da violência contra a mulher.

Termino com o que tem sido o meu lema junto de todos a quem chego, de uma forma ou de outra: Se havemos de espalhar… que seja Amor!

Leonor Castro
Created By
Paróquia Fafe
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