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Os séculos XV e XVI combinaram o grande prestígio da arte flamenga de então com o facto de Portugal viver uma época áurea, que lhe possibilitou a aquisição de vários objectos artísticos, assim como a contratação de artistas do Norte da Europa (e também o envio de artistas nacionais para lá aprenderem).

Lote 151 - Circuncisão do Menino Jesus

Entre outros factores, o surgimento da Devotio Moderna em muito contribuiu para o aumento das encomendas escultóricas. As várias propostas deste movimento, que surgiu como reacção à instabilidade moral e espiritual vivida na Igreja numa época de crise económica, desafiavam a um aumento de individualidade e de relação pessoal com Deus. Esta mudança de paradigma teve uma enorme influência na produção artística, especialmente na elaboração de livros de horas e breviários, uma vez que, através dos seus textos e da sua portabilidade, permitiam e ajudavam a uma oração individual mais frequente e mais orientada.

"São visíveis características típicas da arte de Malines, como a expressão suave das personagens ou a elegância dos panejamentos e a dinâmica suscitada pelos seus drapeados."

Da mesma forma, também a escultura veio ajudar a responder a esta necessidade de oração particular, no sentido em que a imaginária de pequena dimensão era facilmente adquirida, transportada e colocada em oratórios particulares; e as de maior dimensão em capelas laterais de igrejas, possibilitando diversas invocações. Numa época de crescentes e prolíferas relações comerciais entre distantes territórios, Antuérpia, Malines e Bruxelas tornaram-se os grandes centros de produção escultórica ao saberem responder à necessidade de resposta que a crescente avidez de novidades e de peças luxuosas exigiu. Apesar da produção em série, a qualidade das peças brabantinas era respeitada, ao ser confirmada por um júri que marcava as peças validadas, contribuindo assim para a preservação da sua louvável reputação. A peça aqui em questão trata-se de uma produção de Malines — facto confirmável graças à sua marca de três palas — que poderia ser parte de um ciclo dedicado à vida de Cristo ou de Nossa Senhora.

Este grupo escultórico apresenta-nos a Circuncisão do Menino Jesus (Lc 2, 21), em que Este, à frente de uma coluna e sentado sobre uma almofada posta numa mesa com «cachorros», é ladeado por Nossa Senhora e pelo Sumo Sacerdote que procede à circuncisão. Atrás, estão presentes outras duas personagens que poderão ser os encomendantes ou santos como São José e Santa Isabel. Esta cerimónia — na qual também se recebe o nome — deve ser realizada por todos os judeus, aos 8 dias de vida, e remete para a aliança que Deus fez com o patriarca Abraão.

"“Circuncisão do Menino Jesus” é um magnífico exemplo da qualidade do trabalho que grande parte das esculturas flamengas revelam (...)"

São visíveis características típicas da arte de Malines, como a expressão suave das personagens ou a elegância dos panejamentos e a dinâmica suscitada pelos seus drapeados. É interessante notar como a sua origem flamenga é ainda mais óbvia através das escolhas desses próprios trajes e costumes, como se pode ver nos chapéus e toucados, nas longas vestes do Sumo-Sacerdote, e nas tranças laterais de Nossa Senhora semi-ocultadas por um «hennin» adornado. É um óptimo exemplo para perceber como o artista usou aquilo que conhecia – tipologias de roupa e adereços da moda profana da sua época – para expressar aquilo que pretendia. Curiosos são também os óculos, ainda sem hastes, usados pelo Sumo-Sacerdote, numa altura em que este objecto, sinónimo de sabedoria, se tornava popular, como atestam várias obras de arte contemporâneas a esta. “Circuncisão do Menino Jesus” é um magnífico exemplo da qualidade do trabalho que grande parte das esculturas flamengas revelam, justificando imediatamente a enorme quantidade de encomendas feitas pelos portugueses às oficinas da Flandres.

Texto de: Isabel Maria Mónica