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Plogging: uma corrida para salvar o planeta Cláudia Pires | Daniela Coelho

A ideia surgiu, inicialmente, na Suécia, mas rapidamente chegou a Portugal. Enquanto faz exercício físico, Carlos dá o seu contributo para um meio ambiente mais saudável.

Com roupa e calçado desportivo, à primeira vista parece que Carlos vem de uma corrida. E vem, mas não é uma simples corrida. À medida que vai exercitando os músculos, Carlos apanha o lixo que pelas ruas vai encontrando. Recolhe um pouco de tudo: beatas de cigarros, garrafas, embalagens de plástico, peças de automóveis e até fraldas. CARLOS DOBREIRA é professor de Educação Especial e de História e já há dois anos que pratica plogging.

"O plogging é uma atividade saudável, que cria laços entre as pessoas, tem uma psicologia positiva e cativa qualquer pessoa".

A atividade conjuga a prática da recolha de resíduos e o jogging – a corrida. "A tarefa torna-se complicada devido à imensidão de resíduos que encontro, o que me faz parar constantemente", salienta o professor. Carlos começou a praticar o plogging de forma desportiva. Desde junho deste ano, iniciou um conjunto de ações para esta causa.

O praticante de plogging conta que o principal motivo que o impulsionou a fazer algo pelo ambiente foi a sua indignação com a falta de civismo e educação ambiental na maioria dos locais onde se dirijia. Hospitais, cafés, universidades, museus, entre outros tantos locais que eram cercados por quantidades assustadoras de lixo.

O dia está cinzento e faz frio, mas nada impediu Carlos de vir cumprir a sua “missão.” De luvas postas e saco plástico na mão, o professor de educação especial percorre os passeios e recolhe todo o tipo de resíduos que encontra no seu caminho. Tudo isto a passo acelerado. Os carros vão passando, e poucos são os que ficam indiferentes ao comportamento do docente. Visivelmente curiosos, reduzem a velocidade e espreitam pela janela: "Quem é?", " O que está a fazer?", "Por que o faz?".

Pouco a pouco, passo a passo, uma berma da estrada vai ganhando outro aspeto. Os dois sacos de lixo recolhidos são a prova disso. Com o fôlego acelerado, Carlos muda-se para o passeio oposto. Os carros vão passando. Uma nova limpeza espera-lhe. Fragmentos de embalagens, cartões e imensas beatas. O trabalho vai-se prolongar. Para o docente, o rigor é uma característica essencial nas suas ações. "Quando faço a recolha das beatas, conto-as. Em casa reconto para que a situação seja rigorosa".

Ainda que residente em Palmeira, Dobreira não se limita a fazer a recolha de lixo apenas na sua cidade natal. Conta já com sessões de plogging realizadas em Amares, Esposende, Serra da Estrela, praia da Costa Nova, Apúlia, Ilhavo e planeia já uma nova sessão em Terras de Bouro. “Não acredites nos políticos!”, “Deixe a Apúlia limpa!" e “Deixe a Costa Nova limpa!” são algumas das ações de plogging que Carlos desenvolveu.

Sessões de plogging de Carlos

Os locais a que se dirige não são despropositados. "Nuns casos comunicam-me via Facebook, noutros pessoalmente ou por email." De forma bastante pragmática, Carlos faz uma prévia revisão dos locais, antes de prosseguir para a limpeza. "Passo no local, vejo, faço uma estimativa". Os diferentes tipos de materiais que recolhe, seguem diferentes caminhos. Em relação aos resíduos, o desportista encaminha-os para os diferentes ecopontos. Metais, sprays e pulverizadores são diretamente enviados para a BRAVAL.

A manhã ainda não terminou para Carlos. Na zona industrial, outrora coberta de lixo, a paisagem tornou-se mais verde, mais ecológica. O professor segue, agora, viagem para a Praça do Município, para uma nova recolha. Nenhuma das suas ações fica perdida no tempo, Dobreira faz questão de registar tudo e de dar a conhecer esta problemática às grandes entidades. "Tiro fotos da recolha das peças de automóveis, das grandes lixeiras e mando para a AGERE e para a BRAVAL. A hora do início e fim também fica gravada nas fotos". Anotar e fotografar são os dois pilares que Carlos utiliza para transmitir e alertar o problema ambiental.

"O Plogging devia até fazer parte do discurso dos nossos decisores políticos!"

Para além de investigador, escritor e professor com formação em gestão autárquica, Carlos desempenha uma outra função igualmente importante, a de ativista ambiental. Assume-se, sobretudo, como um inconformista. O registo das suas recolhas é, posteriormente, enviado por email a entidades reguladoras, instituições autárquicas e ONG's ambientais, numa tentativa de demonstrar a sua revolta contra a passividade e a ineficácia do Governo.

"A Assembleia da República, um local que supostamente devia ser um exemplo, tem uma pegada ecológica preocupante", acrescenta o professor desviando o olhar. O esforço de Carlos mereceu a atenção de Marcelo Rebelo de Sousa, que reencaminhou resposta ao seu email.

Carta de resposta da Casa Civil a Carlos

Já na Praça do Município, os turistas vão tirando fotos. Olham para os grandes edifícios, para os jardins que circundam a Câmara e para a fonte onde os pombos se refrescam. Para Carlos a visão é diferente. O seu olhar foca-se, sobretudo, na imensidão de beatas espalhadas pela calçada. "Se olharmos para as sarjetas de Braga é preocupante o que lá encontramos. Agora com as inundações vai tudo ter ao mar".

"O melhor resíduo é aquele que não é gerado!"

O diretor geral executivo da BRAVAL, Pedro Machado, concorda que a atividade que Carlos tem vindo a partilhar com a sociedade é uma mais valia e que "contribui para uma melhoria do meio ambiente". Mas confessou-nos que trata-se mais de uma questão de sensibilização para os portugueses, já que "o ideal era que o plogging não fosse necessário e que os resíduos fossem corretamente depositados nos respetivos contentores".

10 de maio de 2010. O dia que ficou registado na memória de Carlos. Abandonou um vício, o tabaco. Agora praticante de plogging, o professor de Educação Especial chegou, noutros tempos, a fumar um maço por dia, por vezes dois. "O plogging leva-me a questionar o que andei a fazer durante os 14 anos em que fui fumador. É incompreensível ter sido fumador", confidenciou Carlos.

"15 biliões de cigarros vendidos por dia são lançados no solo", afirma a Organização Mundial da Saúde. Os componentes tóxicos de um cigarro não prejudicam apenas os fumadores. A natureza também é alvo de sequelas. Os especialistas sublinham que as partículas do tabaco contêm mais de 7 mil substâncias químicas tóxicas que poluem o solo, a atmosfera e o mar.

Componentes de um cigarro

Agora com novos hábitos, as beatas que Carlos apanha tomam uma segunda vida. É no Laboratório da Paisagem, em Guimarães, que se transformam em estruturas construtivas, como tijolos. Outro caminho para estas beatas passa pelo movimento Braga para Todos, no qual se propõe a construção de abrigos para gatos.

“É urgente uma mudança da postura na relação com a mãe natureza. É preciso refletir e mudar comportamentos”.

A sociedade de hoje está cada vez mais voltada para a sua própria imagem e na aquisição de bens materiais. Jovens e adultos parecem não dar a atenção devida ao impacto que as suas ações podem provocar. Segundo Carlos, cabe ao homem respeitar a mãe natureza, pois ela "estava primeiro". No entanto, o que se vê é o homem, diariamente, a destruí-la. Praticar o plogging significa, então, não apenas contribuir para o bem-estar físico, mas também ajudar o planeta. "A limpeza das valetas, estradas e passeios é a nossa tentativa de restabelecer o caminho para uma harmonia com a natureza", conta Carlos com um sorriso no rosto.

Carlos a apanhar lixo
"Se juntarmos ações que são capazes de envolver um elevado número de pessoas, num ambiente descontraído, e passar mensagens importantes sobre a consciencialização ambiental, ainda melhor!"

Carlos Ribeiro, diretor executivo do Laboratório da Paisagem de Guimarães, sublinha a importância do plogging para a consciencialização ambiental. O representante da instituição assegurou-nos que, esta atividade resulta, efetivamente, na redução da acumulação de resíduos, "cuidando-se mais e melhor” do nosso território, contribuindo, assim, para a limpeza do planeta. “O plogging é capaz de promover o envolvimento e comprometimento da comunidade neste objetivo comum".

Um rolo fotográfico da FUJI (possivelmente) da década de 80 e uma lata de 2006. Dois objetos que Carlos se lembra, perfeitamente, de recolher do chão em 2019. Décadas depois de serem produzidos, estes artigos encontravam-se “perdidos” em ruas nacionais. Décadas depois, Carlos foi o responsável pela chegada destes ao destino onde há muito tempo deviam ter chegado – o lixo.

Mais do que os resíduos que encontra, o desportista fica surpreendido pela rapidez com que consegue apanhar priscas de cigarros. Segurando nas garrafas de plástico que guardam cada uma das beatas que tem vindo a recolher em cada corrida, e que fez questão de partilhar, Carlos expressa o seu espanto e tristeza – “176 beatas em 10 minutos ou 200 em 10 minutos. É assustador”.

Para o praticante de plogging cabe também às Universidades, o papel de consciencializarem os estudantes para a necessidade de reduzir a "pegada ecológica". O professor refere que é urgente fazer da preservação, também ela, uma "bandeira", "não basta só a bandeira da inovação e da internacionalização". Também a dedicação de Greta Thunberg é vista como um exemplo a seguir, devido às suas preocupações ambientais e e à sua luta constante de combate às alterações climáticas.

Três sacos de lixo e uma garrafa com dezenas de beatas. Tudo em menos de uma hora em dois sítios distintos. É assim que Carlos Manuel Dobreira dá por terminada esta sessão de plogging. Já a missão de tornar o mundo mais verde, essa ainda tem um caminho longo a percorrer e aliados a conquistar.